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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil

O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação
Interorganizacional no Brasil
The Field of Studies of Inter-organizational Cooperation Networks in Brazil
Alsones Balestrin *
Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Sciences de
L’information et de La Communication pela Universidade de Poitiers/França.
Professor titular da UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.
Jorge Renato Verschoore
Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Professor da UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.
Edgar Reyes Junior
Doutorando em Administração pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos
* Endereco: Alsones Balestrin
Av. Unisinos, 950, Bairro Unisinos, São Leopoldo/RS, Brasil, 93022-000. E-mail – abalestrin@unisinos.br
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Alsones Balestrin, Jorge Renato Verschoore, Edgar Reyes Junior
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 4, pp. 458-477, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
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RESUMO
O presente artigo tem como objetivo trazer maiores evidências às características do campo de estudos sobre
redes de cooperação interorganizacionais no Brasil. A pesquisa de campo foi conduzida por meio de uma análise
bibliométrica em 116 artigos publicados nos principais veículos de difusão científica na área de estudos
organizacionais, entre os anos 2000 e 2006. Os procedimentos metodológicos utilizados seguiram as orientações
do trabalho de Oliver e Ebers (1998). Entre os principais resultados, destaca-se o seguinte quinteto. (1) Quatro
teorias: estratégia, dependência de recursos, redes sociais e institucional, que consolidam a base conceitual
predominante na orientação dos estudos. (2) As pesquisas foram conduzidas, em sua grande maioria, por
abordagens qualitativas e transversais. (3) As redes horizontais (simétricas), os antecedentes de necessidade de
recursos materiais e imateriais, bem como os resultados de aprendizagem e de inovação apresentaram maior
interesse nos estudos brasileiros. (4) As teorias de estratégia, dependência de recursos, custos de transação, redes
sociais e institucional possuem a maior centralidade geodésica relativamente às demais. (5) A teoria de redes
sociais demonstrou forte centralidade de intermediação entre as teorias consideradas neste estudo.
Palavras-chave: redes; cooperação; interorganizacional; Brasil.
ABSTRACT
The aim of this article is to provide more evidence on the characteristics of the field of studies of interorganizational
cooperation networks in the Brazilian context. The field research was carried out through a
bibliometric study of 116 academic articles published in the major scientific journals in the field of
organizational studies between 2000 and 2006. The methodological procedures followed the guidelines of the
study of Oliver and Ebers (1998). The main results obtained from the bibliometric study were: (1) four theories –
strategy, resource dependence, network and institutional – consolidate a predominant conceptual base in the
orientation of the studies; (2) the research was mainly carried out by qualitative and cross sectional methods; (3)
horizontal networks, material and immaterial antecedent resources, as well as the learning and innovation
outcomes, were the main focus of the studies in the Brazilian context; (4) the theories of strategy, resource
dependence, transaction, social network and institutional costs are considerably over-represented with regard to
their Bonacich centrality; (5) the network theory had a strong level of betweenness centrality among the many
theories considered in this study.
Key words: cooperation; networks; inter-organizational; Brazil.
O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil
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INTRODUÇÃO
O mundo ainda não vive o apogeu da sociedade em rede, descrita por Castells (1999); mas alguns
fatos recentes demonstram sua ascensão. Em nenhum outro momento a cooperação e as redes
receberam tanto interesse quanto atualmente. Livros de grande vendagem, que tratam das
transformações econômicas e do mundo dos negócios, são enfáticos em destacar a capacidade de
colaboração e da estruturação em rede como condições fundamentais para o êxito organizacional
(Anderson, 2006; Benkler, 2007; Friedman, 2005; Gladwell, 2002; Prahalad & Ramaswamy, 2004;
Surowiecki, 2006; Tapscott & Williams, 2007). A revista Forbes reconheceu, no final de 2007, a
importância das redes na economia contemporânea, publicando uma edição especial para aprofundar o
tema (Post, 2007), enquanto o Fórum Econômico Mundial definiu o poder da inovação colaborativa
como tema central do encontro de 2008. Tais fatos evidenciam que a colaboração em rede, aos poucos,
se insere nas principais correntes do campo econômico-organizacional.
Paralelamente, no contexto acadêmico de estudos organizacionais, observa-se que o tema relativo às
redes de cooperação entre organizações tem evoluído constantemente desde a década de 1990. Alguns
dos mais importantes periódicos científicos internacionais já realizaram edições especiais dedicadas às
redes, como é o caso da revista Organization Studies (1998) e do Academy of Management Journal
(2004). Mais recentemente, em 2007, a revista International Management abriu uma chamada de
artigos para uma edição especial sobre redes com ênfase na internacionalização (Business networks:
an international management perspective).
Da mesma forma, eventos científicos internacionais despertam a atenção pela relevância concedida
ao tema das redes no contexto organizacional, como é o caso da Association Internationale de
Management Stratégique [AIMS], que é um dos principais eventos sobre estratégia no campo
francófono e que teve como tema central as relações interorganizacionais (Relations
Interorganisationnelles) em sua 15ª edição, ocorrida em Genebra, no ano de 2006. Outro exemplo é a
chamada de artigos para o congresso da Academy of International Business [AIB], que ocorreu em
2008, na cidade de Milão, apresentando como tema geral o desenvolvimento de conhecimento nas
redes de negócios internacionais (Knowledge development and exchange in international business
networks). Destaca-se também um dos principais eventos europeus sobre estudos organizacionais,
promovido pelo European Group for Organizational Studies [EGOS], que em mais de uma década
apresenta uma subárea dedicada às pesquisas das redes organizacionais (Organizational network
research). Por fim, ressalta-se um evento específico sobre redes de cooperação interorganizacional,
denominado Multi-Organizational Partnerships, Alliances and Networks [MOPAN], cuja 15ª edição
ocorreu em 2008 em Boston; portanto, no contexto internacional, há inequívoco interesse sobre as
redes de cooperação interorganizacional.
Na esfera acadêmica brasileira, ocorre fenômeno semelhante, embora os estudos sobre redes de
cooperação interorganizacional sejam mais recentes. Somente nos últimos anos é que se tem
observado um aumento na quantidade e na qualidade das pesquisas e das publicações que enfocam o
tema. Contudo esse rápido crescimento já foi capaz de estabelecer um campo estruturado de estudos
no Brasil. Destacam-se, entre outros, os três eventos científicos realizados em 2006, que tiveram o
tema redes de cooperação interorganizacional em seu eixo de centralidade. O primeiro foi o XXIV
Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, realizado pela Associação Nacional dos Programas de
Pós-Graduação em Administração [ANPAD], cujo tema foi ‘Inovação em redes e redes de inovação’.
O segundo foi o XVI Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas,
realizado pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores
[ANPROTEC], cujo tema foi ‘Redes institucionais promovendo o empreendedorismo inovador’. O
terceiro foi o II Cooperação Brasil, realizado em Porto Alegre, que contou com mais de mil
participantes e teve a apresentação de palestras, artigos e casos nacionais e internacionais sobre as
redes de cooperação. Em 2008, o Encontro de Estudos Organizacionais [EnEO], promovido pela
ANPAD, definiu as ‘Redes e relacionamentos intra e interorganizacionais’ como um de seus temas de
interesse. Além dos eventos, as principais revistas científicas brasileiras no campo dos estudos
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organizacionais também têm publicado algumas dezenas de artigos sobre o assunto, como foi o caso
da edição especial da Revista de Administração de Empresas [RAE-FGV] (Bertero, 2006), com o tema
‘Redes sociais e interorganizacionais’.
Nesse contexto, a problemática que se coloca aos pesquisadores e interessados no assunto é
compreender a dimensão e as características do campo de estudos sobre redes de cooperação
interorganizacional no Brasil. Entre tantas questões relevantes que surgem, algumas podem ser
destacadas. Quais são as instituições de pesquisas mais envolvidas com o tema? O campo de estudos é
diversificado ou não? Existem perspectivas teóricas dominantes? Quais metodologias costumam ser
adotadas? Em face dessas questões, o presente trabalho tem como objetivo trazer maiores evidências
do campo de estudos sobre redes de cooperação no Brasil.
Para alcançar tais resultados, o artigo está estruturado da seguinte forma: primeiramente, são
aprofundados os aspectos conceituais sobre redes de cooperação interorganizacional, em direção às
principais abordagens epistemológicas e metodológicas utilizadas nas pesquisas; na sequência,
apresenta-se uma síntese da metodologia utilizada, com vistas a seguir os procedimentos e os
instrumentos utilizados por Amália Oliver e Mark Ebers (1998), em um artigo seminal no campo de
estudos sobre redes de cooperação no cenário internacional; a seguir, analisam-se os resultados e, no
final, destacam-se algumas considerações sobre as implicações e as limitações do estudo.
O CAMPO DE ESTUDO SOBRE REDES DE COOPERAÇÃO ENTRE ORGANIZAÇÕES
A cooperação entre organizações com o objetivo de obter soluções coletivas tem recebido crescente
atenção nos estudos e práticas organizacionais nas últimas três décadas (Nohria & Eccles, 1992). O
propósito central das redes de cooperação no campo organizacional é reunir atributos que permitam
uma adequação ao ambiente competitivo em uma estrutura dinâmica, sustentada por ações
uniformizadas, porém descentralizadas, que possibilite ganhos de escala da união, mas que evite que
as empresas envolvidas percam a flexibilidade do porte enxuto (Thompson, 2003). De acordo com
Miles e Snow (1986), as redes despontaram a partir dos anos 1980, principalmente para que as
empresas conseguissem lidar com o amplo conjunto de exigências competitivas que a virada de século
apontava.
As redes de cooperação têm a capacidade de facilitar a realização de ações conjuntas e a transação
de recursos para alcançar objetivos organizacionais. Podem ser definidas como o conjunto de
transações repetidas e sustentadas por configurações relacionais e estruturais dotadas de fronteiras
dinâmicas e elementos interconectados (Todeva, 2006). As redes de cooperação constituem, portanto,
um fenômeno presente da teoria organizacional e, por isso, têm sido reiteradamente estudadas a partir
de diferentes abordagens teóricas (Grandori & Soda, 1995). Tal interdisciplinaridade de contribuições
também foi evidenciada por Oliver e Ebers (1998) e Brass, Galaskiewicz, Greve e Tsai (2004), ao
apresentarem as principais correntes teóricas, utilizadas nas pesquisas, sobre redes de cooperação entre
organizações, destacando-se: a economia industrial, a abordagem de dependência de recursos, a teoria
de redes sociais, as teorias críticas, a teoria institucional, a teoria dos custos de transação e a
abordagem de estratégias organizacionais.
A abordagem da economia industrial é utilizada nas pesquisas sobre redes para permitir que se
entenda como os diferentes ganhos econômicos de produção – economias de escala, de escopo e de
especialização – explicam a eficiência das redes. Por exemplo, o ganho de especialização tem sido
indicado como relevante fator para explicar por que uma rede de empresas pode ser mais eficiente do
que uma firma integrada (verticalizada) na produção de certo bem (Eccles, 1981). O ganho de escala
tem papel relevante no acesso a recursos, na provisão conjunta de serviços ou no suporte de
investimentos em P&D (Turati, 1990). Já o ganho de escopo pode ser a base de formação de acordos
que visam à utilização colaborativa de equipamentos e know-how (Teece, 1980). A perspectiva da
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economia industrial assume que as redes podem apresentar uma eficiência superior ao modelo
tradicional da grande empresa verticalizada.
A teoria sobre dependência de recursos é outra abordagem utilizada nos estudos sobre redes de
cooperação. Seu foco de interesse é entender o processo por meio do qual as organizações reduzem
suas dependências ambientais, utilizando várias estratégias para aumentar seu próprio poder. Essa
teoria distingue entre tipos de dependência de recursos, materiais ou imateriais, como possíveis
determinantes na formação de redes. Nesse sentido, cabe destacar o trabalho de Pfeffer e Salancik
(1978), que revisa algumas das principais formas de redes de cooperação e outros tipos de redes
sociais. Na ótica da dependência de recursos, as empresas organizam-se em redes, a fim de
compartilhar ou acessar recursos escassos.
A teoria sobre redes sociais (social networks) é utilizada para estudar como os laços sociais entre os
atores de determinada rede poderão afetar o desempenho da empresa. Em seu trabalho, Burt (1992)
procurou especificar como diferentes posições dentro de uma rede de relacionamentos afetam as
oportunidades dos atores. Por exemplo, o posicionamento de um ator na rede, representado pelo
número de inter-relações com outros atores, poderá reforçar as relações de poder diante dos atores
marginais da rede. Em outras contribuições, autores como Granovetter (1981) destacam que uma das
questões clássicas da teoria social é como os comportamentos e as instituições são afetados pelas
relações sociais. Este autor analisa, sobretudo, até que ponto a ação econômica está imersa nas
estruturas das relações sociais no âmbito da moderna sociedade industrial (Granovetter, 2007).
As teorias críticas são utilizadas para entender, sob a ótica do poder e da dominação, como as
relações são estabelecidas numa estrutura em rede. Para elas, a estratégia em rede não é justificada por
nenhuma noção de eficiência ou efetividade, e sim pelo mecanismo de poder para a reprodução de
elites e de classes dominantes (Whitt, 1980). A maior parte dos trabalhos nessa direção tem sido
conduzida no campo da sociologia, como o trabalho de Perucci e Potter (1989). Segundo o debate
dessas teorias, existe ampla manipulação, por parte de alguns atores, nas relações em redes. Essa
manipulação ocorre especialmente nos casos em que existe visível assimetria de poder dos agentes que
participam da rede.
A teoria institucional trata da dependência como do conceito central na configuração das redes; no
entanto a dependência não é de recursos materiais, e sim de legitimação. Segundo esse enfoque, as
organizações buscam ganhar legitimidade no momento de participar de uma rede. Esses estudos
analisam os mecanismos institucionais pelos quais as relações interorganizacionais são iniciadas,
negociadas, desenhadas, coordenadas, monitoradas, adaptadas e terminadas. Cabe destacar o trabalho
de DiMaggio e Powell (1983) sobre os diversos tipos de inter-relações formais e informais como
modo de evitar o isolamento e alcançar legitimidade no ambiente institucional. Pela ótica da teoria
institucional, se uma empresa ingressa em rede composta por empresas renomadas, poderá obter como
resultado indireto o reconhecimento de ser uma empresa idônea e operar com os padrões de qualidade
dos demais parceiros.
As teorias sobre estratégia foram utilizadas para entender como a cooperação e as relações
interorganizacionais podem gerar impacto na competitividade das empresas. As teorizações abordam,
mais especificamente, o conceito de estratégia colaborativa e emergiram com maior vigor a partir da
década de 80. Os estudos de Astley (1984) e de Astley e Fombrun (1983) foram fundamentais para
consolidar este conceito no campo organizacional. A maior contribuição desses estudos está na
compreensão de que as estratégias das empresas não precisam limitar-se aos relacionamentos
competitivos no ambiente, havendo inúmeras possibilidades para o desenvolvimento de ações
colaborativas de curta e longa duração. A partir dessa idéia, a resposta ao determinismo ambiental da
perspectiva de competição individual ocorre pela readequação do conceito de estratégia, em termos da
mobilização coletiva de ações e de recursos orientados ao alcance de objetivos comuns entre parceiros
empresariais, conforme tem sido argumentado em diversos trabalhos (Dyer & Singh, 1998; Gulati,
Nohria, & Zaheer, 2000; Jarillo, 1993). Pela perspectiva da estratégia, a configuração em rede tem-se
apresentado como eficiente meio para alcançar os objetivos coletivos das empresas associadas.
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Essas abordagens teóricas ofereceram múltiplas contribuições aos estudos sobre redes de
cooperação, colaborando para o seu melhor entendimento. Evidentemente, outras teorias, como a
ecologia populacional, a teoria evolucionária e a teoria contingencial, entre outras, também fornecem
elementos para a análise e conhecimento do fenômeno. A variedade das abordagens teóricas foi um
dos ingredientes que ajudou a produzir explicações complementares e por vezes concorrentes no
campo de estudos sobre redes de cooperação, pelo fato de adotarem diferentes paradigmas de leitura
da realidade estudada. Isso explica, em parte, as diferentes definições e entendimentos do conceito de
rede de cooperação, utilizados na economia, na sociologia, na administração e na ciência política.
Outro fator de complexidade no campo de estudos das redes refere-se ao nível de análise em que as
redes podem ser estudadas. Brass et al. (2004) argumentam que uma rede de cooperação
interorganizacional é composta de no mínimo três níveis: os indivíduos que fazem parte de grupos, os
grupos que fazem parte de organizações e as organizações que fazem parte da rede. Logo, dependendo
do foco de análise do pesquisador, os resultados e a compreensão da dinâmica da rede poderão ser
diferentes. Já para Todeva (2006) o grau de complexidade poderá variar em função de três tipos de
dimensões que normalmente são estudadas em uma rede: o ator, a relação (elo) e a rede como um
todo. Oliver e Ebers (1998) destacam que muitos estudos apresentam outros três níveis como foco de
análise: os antecedentes (motivações que levam a formação da rede), o processo (gestão e coordenação
da rede) e os resultados (ganhos das redes). Diante dessa diversidade de olhares, cabe ressaltar que as
várias abordagens teóricas e metodológicas que analisam as redes em suas características e níveis
devem ser tratadas como salutares em face da complexidade do fenômeno, pois fortalecem a
capacidade de compreensão e de consolidação desse tema no campo de estudos organizacionais.
METODOLOGIA DA PESQUISA
A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliométrica e teve como base os procedimentos adotados
por Oliver e Ebers (1998). Tal estudo analisou 158 artigos, publicados entre 1980 e 1996, em quatro
das principais revistas científicas internacionais ligadas ao tema (American Sociological Review,
Administrative Science Quarterly, Academy of Management Journal e Organizations Studies).
Adotando-se os mesmos procedimentos para o contexto brasileiro, o trabalho foi realizado no decorrer
do segundo semestre de 2007 e envolveu cinco etapas de desenvolvimento.
1ª Etapa – Delimitação do escopo de análise. Primeiramente foram definidas as publicações, em
cujos artigos se faria a seleção. Para tanto elegeram-se os principais veículos de difusão científica na
área de estudos organizacionais no Brasil. Optou-se em delimitar as publicações segundo a
classificação da Capes – Qualis, 2001-2003, na área de Administração, Ciências Contábeis e
Turismo. Tal critério resultou na escolha de cinco revistas: Revista de Administração [RAUSP],
Revista de Administração de Empresas [ERA], Revista Organização e Sociedade [O&S], Revista de
Administração Contemporânea [RAC] e Revista Eletrônica de Administração [REAd] − e uma
publicação de evento (Anais do Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em
Administração [ENANPAD]). Para a delimitação do período histórico de análise, foram consideradas
as publicações desde o ano 2000 ao ano 2006. Foi a partir desse período que se percebeu a emergência
e o crescente interesse desse tema no campo de estudos organizacionais do Brasil.
2ª Etapa – Seleção dos artigos. Seguindo as orientações de Oliver e Ebers (1998), a seleção dos artigos
para a análise bibliométrica foi realizada a partir da definição de palavras-chave que deveriam estar
presentes no título ou no resumo do artigo. Considerando que o conceito de redes de cooperação
interorganizacional é, muitas vezes, tratado por termos análogos, procedeu-se à definição de algumas
palavras-chave para a seleção dos artigos, entre as quais: redes, cooperação, interorganizacional,
interfirmas, alianças, parcerias, colaboração e consórcios. Essa pré-seleção com palavras-chave, realizada
diretamente nas bases das publicações, resultou em uma pré-seleção de 143 artigos. Em uma fase seguinte,
refinou-se a amostra, excluindo os artigos referentes a redes interorganizacionais, conforme critério de
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Oliver e Ebers (1998). Essa etapa foi conduzida integralmente pelos pesquisadores e, no final, foram
selecionados 132 artigos como amostra para os procedimentos de análise.
Cabe salientar que os critérios de escolha das revistas, bem como a delimitação das palavras-chave
para selecionar os artigos, poderão provocar vieses nos resultados deste estudo. Tal fato também foi
destacado por Oliver e Ebers (1998), devendo o leitor relativizar as evidências e estar ciente de que,
caso as palavras-chave ou as publicações fossem outras, possivelmente os resultados da análise
bibliométrica seriam influenciados.
3ª Etapa – Instrumento de coleta dos dados. O artigo de Oliver e Ebers (1998) traz uma tabela
com 77 variáveis, subdivididas em sete dimensões, utilizadas no instrumento de análise dos artigos.
Dessa forma, os artigos foram avaliados segundo o elenco seguinte.
1) A teoria utilizada para o estudo das redes: estratégia, dependência de recursos, redes sociais,
institucional, custos de transação, organização industrial, contingencial, ecologia populacional,
tomada de decisão, evolucionária, poder político, estruturalismo, trocas (exchange theory),
agência, barganha (bargaining theory), marketing industrial e leis trabalhistas (labour law).
2) O método utilizado nas pesquisas sobre redes: empírico, transversal, qualitativo, quantitativo e
longitudinal.
3) O tipo de laço relacional entre os atores: múltiplo, diádico, horizontal, vertical, social, contratual,
político e proprietário.
4) O nível de análise: regional ou setorial, grupos de organizações, organização, institucional, grupos
de indivíduos e individual.
5) Os antecedentes que levaram à formação da rede: acesso a recursos imateriais, acesso a recursos
materiais, congruência de objetivos, existência prévia de confiança, posição já exercida por um
ator na rede, dependência de recursos, restrições ou pressões do mercado, escassez de recursos,
ação de exercer oportunismo sobre outros atores na rede, ação de mitigar conflito existente, busca
de estabilidade, especificidade de ativos e densidade organizacional (proximidade geográfica).
6) O processo de funcionamento da rede: motivação e intenção (forma como os objetivos são
perseguidos nas redes); aprendizado, seleção natural (influência de fatores ambientais); imitação
(replicação de decisões entre os atores); e hábito (reprodução de padrões ou comportamentos).
7) Os resultados da cooperação em rede: aprendizagem, sucesso no alcance dos objetivos, inovação,
aumento de confiança, redução de custo, estabilidade, poder (barganha), maior similaridade entre os
atores, conflito, capacidade de difusão de um determinado fenômeno, legitimidade, participação
política, tamanho, compromisso, retorno, maior centralidade, oportunismo, prevalência, persistência,
melhor capacidade de decisão entre comprar ou produzir, ascensão, extinção e maior densidade.
No instrumento de pesquisa, essas variáveis foram colocadas em uma tabela e concebidas para
assumir valor dicotômico, ou seja, o valor 1 para a existência no artigo e o valor 0 para a nãoexistência.
Destaca-se ainda que mais de uma variável poderia ser escolhida para a mesma dimensão
de análise, conforme características do artigo analisado. Nessa etapa, os pesquisadores conduziram a
tradução do instrumento (do original em inglês para o português). De modo complementar ao
instrumento original, foram incluídas duas novas variáveis: nome e afiliação institucional
(universidade) dos autores no momento da publicação. Essas duas variáveis foram úteis para a
identificação de grupos e instituições de pesquisa nos quais estão sendo conduzidas as pesquisa sobre
redes no contexto brasileiro.
4ª Etapa – Aplicação do instrumento de coleta de dados. Foi aplicado o instrumento de coleta de
dados na amostra de 132 artigos. Essa fase contou com a colaboração dos alunos de Mestrado em
Administração que, após terem estudado em profundidade o artigo de Oliver e Ebers (1998) e tomado
conhecimento dos critérios de análise, auxiliaram na aplicação do instrumento de coleta de dados na
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amostra de artigos. Como procedimento final de validação da classificação dos artigos, foi realizado
um seminário, em que cada um dos integrantes da equipe da pesquisa apresentou seus resultados e
possíveis dúvidas, as quais foram esclarecidas em conjunto. No final, depois de aplicados todos os
procedimentos concernentes a essa etapa, foram excluídos da amostra outros 16 artigos, por não se
encaixarem no tema ou por apresentarem elevada ambiguidade em face das dimensões de análise.
Como resultado, restaram 116 artigos válidos para serem processados na etapa seguinte da pesquisa.
5ª Etapa – Análise dos resultados. A principal característica da pesquisa realizada por Oliver e
Ebers (1998) foi o tratamento dos dados por meio da análise de redes (network analysis). Assim, cada
artigo foi considerado um ator dentro da rede de 116 artigos que constituem a amostra dos estudos
sobre redes de cooperação interorganizacional no Brasil. Para o tratamento dos dados, foram utilizados
os softwares UCINET 6.171 e Netdraw 2.065. Esses recursos permitiram multiplicar a matriz original
retangular (77 variáveis por 116 artigos) por sua transposição (116 artigos por 77 variáveis),
resultando a matriz simétrica de 77 variáveis por 77 variáveis, denominada matriz de afiliação. O
mesmo procedimento foi empregado para analisar a afiliação institucional dos autores das publicações.
Novamente, uma matriz de afiliação de instituições foi gerada, a partir da matriz retangular original de
116 artigos, com 59 instituições nacionais e estrangeiras.
A análise de redes, efetuada nos artigos brasileiros, acompanhou o trabalho de Oliver e Ebers
(1998), sendo calculadas a frequência e as medidas de centralidade para cada uma das 77 variáveis.
Para determinar e comparar a centralidade dos conceitos abordados foram utilizadas duas medidas: a
centralidade geodésica e a centralidade de intermediação.
A centralidade geodésica (Eigenvector ou Bonacich Centrality) permite identificar os atores mais
centrais, em termos de estrutura geral da rede, na qual a centralidade de um ator é igual à soma das suas
conexões com outros atores, ponderada pelo grau de centralidade desses outros atores (Bonacich, 1987).
Quanto maior a centralidade geodésica de um ator, maior poder ele deterá, porque terá contato com atores
distribuídos por toda a rede (Wasserman & Faust, 1994). A centralidade de intermediação (Betweenness),
na qual se mede o grau em que a variável focada se situa como elo entre outras variáveis que não estão
diretamente conectadas (Freeman, 1979). Tal medida indica que a interação dos atores não adjacentes pode
depender de outros, potencialmente susceptíveis de ter algum controle sobre estas interações. Essas duas
medidas indicam os conceitos que têm sido centrais na investigação de redes de cooperação
interorganizacional e a capacidade que, por exemplo, uma teoria tem de conectar duas teorias.
Paralelamente, na análise das instituições às quais os autores dos artigos analisados estão afiliados,
foi utilizada a centralidade de grau (degree), que aponta o número de laços diretos que uma das
variáveis possui com as outras variáveis que formam a rede (Wasserman & Faust, 1994). Na pesquisa,
essa análise foi necessária para identificar o número de artigos produzidos em colaboração entre
autores de diferentes instituições.
RESULTADOS DA PESQUISA
Os dados analisados na pesquisa bibliométrica do campo de estudos em redes de cooperação
interorganizacional no Brasil demonstram que, tal como ocorre no contexto internacional, há crescente
interesse pelo tema no cenário brasileiro de estudos organizacionais. A partir da análise dos dados, foi
possível identificar o estabelecimento de um debate acadêmico permanente sobre o papel das redes de
cooperação no desenvolvimento das organizações e da sociedade. De forma recorrente, as revistas e os
eventos científicos na área da administração têm publicado trabalhos que abordam o fenômeno,
incentivando a curiosidade dos leitores e promovendo a aproximação de outros pesquisadores. Na próxima
seção será analisada a dimensão do campo de estudos sobre redes de cooperação interorganizacional no
Brasil, além de um paralelo com o trabalho de Oliver e Ebers (1998) que, para fins de comparação nesta
pesquisa, será definido como o contexto internacional de estudos sobre redes.
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Compreendendo o Campo de Estudos sobre Redes Interorganizacionais no Brasil
Uma primeira categoria de análise dos resultados (Tabela 1) visa a ressaltar as principais teorias
orientadoras dos estudos sobre redes de cooperação no Brasil. Nesse aspecto, os resultados estão alinhados
com o contexto da pesquisa internacional. Dentre as cinco teorias utilizadas com maior frequência, quatro
foram igualmente identificadas no trabalho de Oliver e Ebers (1998): estratégia; dependência de recursos,
redes sociais e teoria institucional. No entanto destaca-se a marcante presença da teoria de estratégia na
amostragem dos artigos brasileiros. Essa teoria teve 47,41% de frequência nos artigos analisados, enquanto
no estudo de Oliver e Ebers (1998) esteve presente em 15,8% dos artigos.
Algo que chama a atenção é a elevada frequência da abordagem sobre estratégia nos estudos
brasileiros. Ao analisar as publicações, observa-se uma tendência dos estudos em compreender as
redes mais como estratégia das organizações para competirem do que, propriamente, como
características inerentes a esse novo fenômeno. Ao tratar das redes como de estratégia, ou meio, para a
empresa alcançar seus fins, muitos estudos se apropriam de alguns conceitos clássicos do campo da
estratégia, associados, sobretudo, à competitividade e ao desempenho organizacional. Por outro lado,
os resultados da pesquisa internacional identificaram que os artigos buscavam, principalmente, o
entendimento de aspectos sociais e organizacionais da nova configuração formada pela rede.
Tabela 1
Freqüência das Variáveis na Amostra de Artigos Analisada
TEORIAS n % ANTECEDENTES n %
Estratégia 55 47,41% Recursos imateriais 45 38,79%
Dependência de recursos 35 30,17% Congruência de objetivos 44 37,93%
Redes sociais 33 28,45% Recursos materiais 34 29,31%
Institucional 32 27,59% Confiança 24 20,69%
Custos de transação 32 27,59% Posição na rede 23 19,83%
Organização industrial 21 18,10% Dependência 21 18,10%
Contingencial 12 10,34% Pressões do mercado 18 15,52%
Ecologia populacional 11 9,48% Escassez de recursos 15 12,93%
Tomada de decisão 10 8,62% Oportunismo 15 12,93%
Evolucionária 9 7,76% Conflito 14 12,07%
Poder político 8 6,90% Estabilidade 6 5,17%
Estruturalismo 8 6,90% Especificidade de ativos 6 5,17%
Trocas 7 6,03% Densidade organizacional 5 4,31%
Agência 7 6,03%
Barganha 6 5,17% PROCESSOS n %
Marketing industrial 3 2,59% Motivação e intenção 70 60,34%
Leis trabalhistas 1 0,86% Aprendizado 46 39,66%
Seleção 14 12,07%
Imitação 14 12,07%
Hábito 4 3,45%
Continua
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Tabela 1 (continuação)
LAÇO RELACIONAL n % RESULTADOS n %
Múltiplo 35 42,20% Aprendizagem 54 46,55%
Horizontal 26 31,30% Sucesso 50 43,10%
Social 21 25,30% Inovação 44 37,93%
Diádico 15 18,10% Confiança 30 25,86%
Vertical 15 18,10% Custo/preço 25 21,55%
Contratual 14 16,90% Estabilidade 17 14,66%
Político 13 15,70% Poder/controle 15 12,93%
Proprietário 5 6,00% Similaridade 11 9,48%
Conflito 11 9,48%
Difusão 10 8,62%
MÉTODO n % Legitimidade 10 8,62%
Empírico 92 79,31% Participação política 9 7,76%
Transversal 88 75,86% Tamanho 9 7,76%
Qualitativo 69 59,48% Comprometimento 8 6,90%
Quantitativo 27 23,28% Receita 8 6,90%
Longitudinal 5 4,31% Centralidade 8 6,90%
Oportunismo 8 6,90%
Prevalência 4 3,45%
NÍVEL DE ANÁLISE n % Persistência 4 3,45%
Grupos de organizações 62 53,45% Produzir ou comprar 4 3,45%
Organizacional 40 34,48% Ascensão 3 2,59%
Regional ou setorial 25 21,55% Extinção 2 1,72%
Institucional 10 8,62% Densidade 2 1,72%
Grupos de indivíduos 9 7,76%
Individual 6 5,17%
No entanto deve-se considerar que nas quatro revistas selecionadas por Oliver e Ebers (1998)
encontra-se a American Sociological Review e a Organizations Studies, que utilizam abordagens mais
voltadas aos aspectos sociais e organizacionais, como, por exemplo, redes sociais, poder político,
teoria institucional, entre outros conceitos ligados à governança. Tal fato promove um possível viés
em relação aos resultados encontrados nos estudos brasileiros, selecionados a partir de periódicos e
eventos voltados mais à área da Administração.
Referente ao tipo de laço relacional entre as organizações que estiverem no foco das pesquisas
brasileiras, observa-se que a maioria dos estudos enfoca os laços múltiplos em proporção maior do que
os laços diádicos. Outro resultado relevante é que as pesquisas no Brasil focalizam mais intensamente
as redes horizontais, formadas por organizações de um mesmo elo da cadeia produtiva, do que as redes
verticais, que agrupam organizações em diferentes posições na cadeia. Uma explicação para esse
achado é o surgimento de grande número de redes associativas de pequenas e médias empresas na
região sul Brasil, que acabaram transformando-se em objeto de estudo pelas instituições acadêmicas
locais (Balestrin & Verschoore, 2008).
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Quanto ao nível de análise, há outro significativo contraste entre as pesquisas brasileiras e
internacionais. No Brasil, mais da metade dos trabalhos analisados estudam as questões ligadas ao
grupo de organizações, ou seja, a rede de cooperação em si. Os artigos da amostra de Oliver e Ebers
(1998), por sua vez, abordaram sobretudo as questões relativas à organização que está associada à
rede. No caso brasileiro, a explicação para o foco no estudo da rede em si pode estar associado ao fato
de o fenômeno das redes ser recente, o que leva o pesquisador a buscar o entendimento inicial quanto
aos antecedentes, aos processos e aos resultados da existência da rede; só após, ele busca o
entendimento dos ganhos alcançados pelas empresas associadas.
Em relação aos antecedentes que levaram à formação das redes de cooperação interorganizacional,
estudadas no Brasil, há evidente predominância da necessidade de acesso a recursos materiais e imateriais,
além da congruência de objetivos. Paralelamente, motivação e intenção foi a variável de processo mais
estudada pelos pesquisadores brasileiros. Essa evidência indica que 60,34% dos estudos que focaram o
entendimento do processo de funcionamento das redes buscaram a compreensão das motivações e
intenções de decisões e ações de seus atores na busca dos objetivos coletivos. Em ambos os casos,
antecedentes e processo, há consonância com os resultados encontrados no contexto internacional. Em tal
estudo, os recursos materiais e imateriais também estavam entre os principais antecedentes, como, no
Brasil, a mesma variável de processo apareceu em 60% dos trabalhos analisados.
O mesmo alinhamento não ocorre em relação às dimensões referentes ao método de pesquisa
adotado e aos resultados obtidos pelas redes. De acordo com os dados apresentados na Tabela 1, o
contexto brasileiro caracteriza-se por estudos empíricos predominantemente qualitativos (59,48%),
fato que leva os estudos quantitativos a ocuparem uma parcela reduzida da amostra (23,28%). Nas
publicações internacionais, analisadas por Oliver e Ebers (1998), observa-se uma relação inversa, isto
é, os estudos quantitativos representam 74,7% da amostra e os qualitativos apenas 29,7%.
O elevado índice de estudos qualitativos no Brasil, somado ao pequeno número de estudos
longitudinais (4,31%), pode ser resultado, pelo menos, de dois fatores: (1) a maioria das publicações está
associada à pesquisa exploratória, podendo indicar que os estudos sobre o tema, no contexto brasileiro,
se encontram ainda incipientes, principalmente ao serem comparados com as pesquisas internacionais,
que surgiram com forte interesse ainda no final da década de 80; (2) seguir uma tendência dos estudos
organizacionais brasileiros, conforme Rodrigues e Carrieri (2001) aproximadamente 70% das
publicações na década de 90 correspondem a estudos qualitativos, salientando: “assim como os franceses
… os brasileiros também preferem as metodologias qualitativas” (Rodrigues & Carrieri, 2001, p. 93).
No que se refere à dimensão dos resultados, há clara predominância das variáveis aprendizagem,
sucesso e inovação. Quase metade dos estudos analisou os ganhos de aprendizagem e cerca de 38%
deles analisaram os ganhos relacionados à inovação. Considerando que essas duas variáveis juntas
obtiveram uma frequência não superior a 19% na amostra de Oliver e Ebers (1998), sugerem-se, no
mínimo, três possíveis explicações para tamanha diferença entre os dois estudos: (1) devido ao viés
provocado pela amostra de Oliver e Ebers (1998), uma das quatro revistas analisadas está mais voltada
a questões sociológicas das redes; (2) devido à diferença histórica entre as amostras de artigos, no caso
brasileiro, superior em dez anos à amostragem do contexto internacional, pode ter ocorrido maior
preocupação, na última década, com os temas de inovação e de aprendizagem no contexto das redes;
(3) devido à possível tendência dos pesquisadores brasileiros em dar maior ênfase à análise de
resultados como inovação, aprendizagem e sucesso nas redes, em detrimento de questões ligadas ao
poder e ao conflito, com vistas a uma análise mais crítica dos resultados das redes de cooperação
interorganizacional.
Aspectos Relacionais das Teorias, dos Antecedentes e dos Resultados
Uma segunda categoria de análise dos resultados englobou a identificação dos graus de centralidade
entre as teorias utilizadas para os estudos sobre redes de cooperação. Para tanto gerou-se uma matriz
com as 17 abordagens teóricas. O objetivo da matriz foi identificar que teorias são mais ou menos
centrais no campo de estudos brasileiros, bem como de que forma as diversas teorias estão
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relacionadas umas às outras. A Tabela 2 apresenta os valores de frequência e de centralidade para cada
uma das 17 teorias, ordenando-as de acordo com a sua centralidade geodésica.
Tabela 2
Freqüência, Centralidade Geodésica e Centralidade de Intermediação das Teorias
TEORIAS Freqüência Centralidade Geodésica Centralidade de Intermediação
Estratégia 47,41% 0,615 6,643
Dependência de recursos 30,17% 0,413 6,643
Custo de transação 27,59% 0,353 5,626
Redes sociais 28,45% 0,339 7,257
Institucional 27,59% 0,313 3,560
Organização industrial 18,10% 0,222 4,967
Contingencial 10,34% 0,133 1,752
Ecologia populacional 9,48% 0,110 2,254
Evolucionária 7,76% 0,093 1,414
Tomada de decisão 8,62% 0,076 1,085
Agência 6,03% 0,074 0,286
Barganha 5,17% 0,065 0,000
Troca 6,03% 0,062 0,292
Estruturalismo 6,90% 0,061 1,621
Poder político 6,90% 0,054 0,236
Lei trabalhista 0,89% 0,016 0,000
Marketing industrial 2,59% 0,012 0,365
Observa-se que as cinco teorias mais frequentes nos estudos são também as mais centrais em termos
geodésicos, apresentando-se na seguinte ordem: estratégia, dependência de recursos, custos de transação,
redes sociais e institucional. No caso do estudo de Oliver e Ebers (1998), três teorias empregadas com
maior frequência foram também as mais centrais na seguinte ordem: dependência de recursos, redes
sociais e poder político. Ressalta-se que a teoria de poder político apresentou menor relevância no
contexto brasileiro, ficando em décima quinta posição, em termos de centralidade geodésica.
Em relação à centralidade de intermediação das teorias, isto é, o grau em que a teoria empregada se situa
como elo entre outras teorias que não estão diretamente conectadas entre si, os resultados demonstram as
características distintivas do contexto brasileiro. Neste, redes sociais é a teoria que possui o grau mais
elevado de centralidade de intermediação (7,257), demonstrando a maior capacidade aglutinadora entre as
diversas linhas teóricas. O mesmo não ocorre no contexto internacional, no qual a teoria de redes sociais
possui alta centralidade geodésica, mas baixa capacidade de articulação entre teorias não-conectadas,
demonstrando um dos menores graus de centralidade de intermediação (1,76).
No contexto brasileiro, alguns pontos de análise chamam a atenção. Por exemplo, a teoria
institucional é empregada tão freqüentemente quanto a teoria de custos de transação; porém a analise
dos resultados mostrou que suas conexões com outras teorias não têm a mesma força, ou seja,
observou-se que a teoria dos custos de transação demonstrou maior capacidade de intermediar ou
conectar outras teorias nas pesquisas sobre redes interorganizacionais.
Uma terceira categoria de análise nesta pesquisa procurou identificar se os graus de centralidade seriam
alterados, se fossem analisados simultaneamente as seguintes dimensões: teorias, antecedentes e resultados
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obtidos pelas redes. A Tabela 3 apresenta os resultados dessa análise, apresentando os graus de centralidade
geodésica e de intermediação dessas dimensões. Conforme as evidências, pode-se afirmar que, no contexto
brasileiro, a predominância das cinco teorias mais centrais permaneceu inalterada. Tais resultados estão
alinhados com o estudo de Oliver e Ebers (1998), no qual as quatro principais teorias, analisadas
individualmente, não se alteram em face da análise integrada com antecedentes e resultados.
A Tabela 3 permite a análise da centralidade geodésica dos antecedentes e dos resultados das redes.
Em termos de antecedentes, identificou-se a maior centralidade da congruência de objetivos, ou seja,
confirmam-se os postulados de que os objetivos comuns são os motivadores centrais da formação de
redes de cooperação (Castells, 1999; Brass et al., 2004). Quanto aos resultados obtidos pelas redes, a
tríade composta por sucesso, aprendizagem e inovação se destaca amplamente na análise do grau de
centralidade, demonstrando que, além de indicarem maior freqüência, também são os mais centrais
entre o conjunto dos ganhos proporcionados pelas redes.
Tabela 3
Centralidade Geodésica e de Intermediação para Teorias, Antecedentes e Resultados
TEORIAS Centralidade
Geodésica
Centralidade de
Intermediação RESULTADOS Centralidade
Geodésica
Centralidade de
Intermediação
Estratégia 0,317 24,293 Aprendizagem 0,332 19,771
Dep. de recursos 0,234 12,065 Sucesso 0,323 27,038
Custo transação 0,201 12,834 Inovação 0,264 17,648
Redes sociais 0,199 15,304 Confiança 0,197 9,670
Institucional 0,191 15,582 Custo/preço 0,159 7,863
Org. Industrial 0,118 15,713 Estabilidade 0,115 8,301
Contingência 0,076 4,067 Poder/ controle 0,070 5,972
Ecologia populacional 0,064 8,421 Comprometimento 0,066 4,972
Evolucionária 0,053 7,578 Difusão 0,063 4,393
Trocas 0,050 1,631 Conflito 0,063 5,235
Tomada de decisão 0,049 8,443 Similaridade 0,058 5,790
Agência 0,044 2,175 Tamanho 0,051 9,741
Poder político 0,033 1,931 Receita 0,046 2,931
Estruturalismo 0,033 3,498 Legitimidade 0,045 3,284
Barganha 0,033 0,819 Partic. política 0,043 3,486
Mkt. Industrial 0,012 0,558 Centralidade 0,041 7,120
Leis trabalhistas 0,008 0,000 Oportunismo 0,040 3,025
ANTECEDENTES Persistência 0,027 1,010
Congruência de objetivos 0,282 19,207 Prevalência 0,019 0,138
Rec. Imateriais 0,281 8,796 Produzir ou comprar 0,015 0,489
Rec. materiais 0,224 15,071 Ascensão 0,013 0,749
Confiança 0,145 9,763 Densidade 0,010 0,073
Posição na rede 0,127 11,460 Extinção 0,009 0,173
Dependência 0,120 15,877
Contração de mercado 0,114 11,523
Recursos 0,109 9,331 Média 0,102 7,736
Oportunismo 0,074 11,460 Desvio padrão 0,092 6,503
Conflito 0,066 7,506 Índice de centralidade 38.40% 26,35%
Estabilidade 0,040 1,474
Densidade 0,028 3,113
Especificidade de ativos 0,027 2,304
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Uma quarta categoria de análise procurou verificar as alterações na centralidade de intermediação,
ao analisar simultaneamente as teorias, os antecedentes e os resultados. A Tabela 3 apresenta os graus
da centralidade de intermediação desses três níveis conjuntamente. As evidências indicam ocorrerem
alterações de posições em relação à frequência e à centralidade de intermediação, mesmo que a
variável estratégia se mantenha como teoria central.
Nesse ponto, novamente há consonância com os resultados obtidos pela pesquisa de Oliver e Ebers
(1998), visto que, no contexto internacional, as teorias ecologia populacional e custos de transação,
geodesicamente pouco centrais, assumiram os dois principais postos, em termos de centralidade de
intermediação. No contexto brasileiro, os resultados demonstraram que as teorias de organização
industrial e institucional, quando analisadas em conjunto com antecedentes e resultados, assumem
papel central na intermediação entre teorias não-conectadas. Uma explicação para o elevado grau de
centralidade de intermediação dessas teorias é a existência de uma série de estudos sobre redes e
relações de cooperação em distritos industriais e arranjos produtivos locais.
Os dados apresentados na Tabela 3 também possibilitam analisar a centralidade de intermediação
dos antecedentes e dos resultados das redes. Nesse aspecto, pode-se observar que nos estudos
brasileiros a variável de resultado sucesso possui o maior grau de centralidade de intermediação
(27,038). Essa evidência está demonstrando que o sucesso, representado pela capacidade de a rede
alcançar seus objetivos, não foi somente estudado de forma individual, mas também esteve presente,
com forte poder de intermediação, em boa parte das pesquisas que estudaram os demais resultados das
redes interorganizacionais. Já no que se refere às pesquisas dos antecedentes, que levaram a formação
de redes, os dados da Tabela 3 indicam que a congruência de objetivos, ou seja, a existência de
objetivos comuns entre os diversos atores foi a variável com maior centralidade de intermediação
(19,207). Dessa forma, pode-se inferir que a congruência de objetivos, além de aparecer nas pesquisas
com elevada frequência, também demonstrou elevado nível de conexão com os demais antecedentes
da formação de redes.
Os resultados alcançados na análise dos artigos podem estar associados às diversas configurações
que os grupos de pesquisa sobre redes interorganizacionais estabelecem no Brasil. Assim, será
apresentado, a seguir, uma síntese da configuração relacional das instituições em que a produção
científica brasileira sobre o tema vem sendo desenvolvida.
Configuração Institucional das Publicações sobre Redes de Cooperação no Brasil
No contexto da presente pesquisa, procurou-se inicialmente analisar a distribuição geográfica das
publicações sobre redes de cooperação interorganizacional no contexto brasileiro, com vistas a
identificar as instituições de origem dos autores no momento da publicação de seus artigos. Os
resultados indicaram que um total de 274 autores, de 59 instituições, pertencentes a 13 Estados
brasileiros, além de instituições de Portugal, França, Espanha e Estados Unidos, foram responsáveis
pelas 116 publicações analisadas. Os resultados sinalizam um razoável nível de distribuição das
pesquisas sobre o tema, ou seja, não se trata de fenômeno de interesse isolado no âmbito dos estudos
organizacionais. Os resultados indicam que as instituições UFRGS, UNISINOS, UFBA, UFSM, UFRJ
e USP tiveram destaque nos aspectos quantitativos das publicações (Tabela 4).
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Tabela 4
Instituições, Frequências, Centralidades de Grau e Geodésica das Publicações
Instituições Frequência Centr.
de grau
Centr.
geodésica Instituições Frequência Centr.
de grau
Centr.
geodésica
UFRGS 41 12,069 67,004 UNICENP/PR 2 1,724 0,000
UNISINOS 28 8,621 55,296 UNIFACS/BA 2 1,724 0,000
UFBA 11 3,448 0,000 UNIFOR/CE 2 0,000 0,000
UFSM/RS 11 3,448 35,956 UPF/RS 2 1,724 19,699
UFRJ 10 10,345 48,118 UPMF/FR 2 1,724 19,699
USP/SP 10 0,000 0,000 ENESP/SP 2 1,724 0,000
FGV/RJ 9 5,172 0,000 UFC/CE 2 1,724 0,000
PUC/RJ 9 1,724 0,000 PUC/PR 2 0,000 0,000
UFMG 8 5,172 24,595 PUC/RS 2 1,724 19,699
POITIER/FR 8 3,448 35,956 UFPB 2 1,724 0,000
UFPR 7 1,724 0,000 FBV/PE 2 1,724 0,000
UNICAMP/SP 7 5,172 41,600 UFRN 2 1,724 0,000
FDC/MG 7 6,897 28,309 USP – RP/SP 2 0,000 0,000
UFLA/MG 7 5,172 22,131 UEM/PR 1 0,000 0,000
UNB/DF 5 3,448 23,734 FIC/CE 1 0,000 0,000
ESPM/SP 5 3,448 11,789 UEM-UEL/SP 1 0,000 0,000
PUC/SP 5 3,448 11,789 IBMEC/SP 1 0,000 0,000
UFSC 4 5,172 25,433 IESAM/AM 1 1,724 0,000
UFSCar/SP 4 3,448 0,000 FUMEC/MG 1 0,000 0,000
UNIVALE/SC 4 1,724 0,000 UFRN 1 0,000 0,000
JAUME I/ES 4 1,724 0,000 UFU/MG 1 0,000 0,000
PUC/MG 4 1,724 6,507 UFV/MG 1 0,000 0,000
UFPE 4 1,724 7,231 UM/POR 1 0,000 0,000
FGV-SP 4 1,724 0,000 UNESA/RJ 1 0,000 0,000
FACC/RJ 3 3,448 26,377 UNIMEP/SP 1 0,000 0,000
UFCG/PB 3 1,724 7,477 UNINOVE/SP 1 0,000 0,000
SEBRAE/MG 3 3,448 20,653 MACKENZIE/SP 1 0,000 0,000
UECE/CE 3 1,724 0,000 MICHIGAN/ EUA 1 0,000 0,000
UNESPTUPÃ/
SP 2 1,724 0,000 NOTRE
DAME/EUA 1 0,000 0,000
UNICAP/PE 2 1,724 0,000 – – – –
Uma das explicações pela expressiva liderança da UFRGS pode residir no fato de que, no ano 2000,
ter sido constituído, no Programa de Pós-Graduação em Administração, um grupo de mestrandos,
doutorandos e professores com interesse no estudo das redes de cooperação empresariais. O grupo,
informalmente constituído, implementou uma série de pesquisas, sob diferentes abordagens teóricas,
buscando melhor compreensão do fenômeno organizacional das redes na economia gaúcha. Além de
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artigos em eventos e periódicos, o grupo organizou uma coletânea de casos, publicada no livro ‘Redes
de Cooperação: uma nova organização de pequenas e médias empresas no Rio Grande do Sul’, editado
pela Fundação de Economia e Estatística do Estado do Rio Grande do Sul [FEE], em 2004.
Na análise institucional, objetivou-se identificar o nível relacional entre os autores das instituições,
identificando, assim, possíveis laços relacionais que unem duas ou mais instituições nas publicações,
bem como o nível de centralidade dessas instituições nos estudos sobre redes de cooperação. Para isso
gerou-se uma matriz dos 116 artigos com as 59 instituições. Para tal análise, foram consideradas
somente 39 instituições, por apresentarem artigos publicados em conjunto com uma ou mais
instituições. Nesse aspecto, salienta-se que algumas instituições, como a USP, por exemplo, mesmo
tendo apresentado elevado volume de publicações, não aparecem no mapa relacional (Figura 1) devido
ao fato de não constar nenhum autor pertencente a outras instituições nos artigos publicados.
F
Figura 1. Mapa Relacional das Instituições
Observa-se que três instituições apresentaram grau de centralidade elevado, entre elas a UFRGS
(12,069), a UFRJ (10,345) e a UNISINOS (8,621). Isso indica que as publicações dessas instituições
são, em sua maioria, realizadas em conjunto com autores de outras instituições. Cabe salientar que,
pela diversidade de relações estabelecidas, a UFRJ, por exemplo, com seus 10 artigos publicados,
apresente maior grau de centralidade em comparação com a UNISINOS, que publicou um total de 28
artigos. Tal resultado pode ser devido ao fato de estar alocado na UFRJ o grupo de estudos
REDESIST, um núcleo de pesquisas sobre relações de cooperação em arranjos produtivos, que reúne
pesquisadores de diversas instituições.
Outro resultado relevante é o volume de publicações associadas a três universidades gaúchas
(UFRGS, UNISINOS e UFSM). Uma inferência para esse resultado é o fato de elas estarem
engajadas, desde o ano 2000, no desenvolvimento do Programa Redes de Cooperação, fruto de uma
política pública do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que atualmente conta com mais de 200
redes de cooperação formadas. A parceria dessas instituições no desenvolvimento do Programa,
associada à existência de volume e variedade de casos empíricos, proporcionou um campo de pesquisa
distinto, que chamou a atenção dos pesquisadores, mestrandos e doutorandos para a realização de uma
série de estudos com o foco no fenômeno das redes de cooperação entre organizações.
UFPE PUC/SP
ESPM/SP
FDC/MG
UFM
UFPB
UFC/C FGV/SP
UECE/CE
SEBRAE/MG PUC/MG
UFRJ UFLA/M FACC/RJ
UNICAMP/SP
UNIVALI/SC
UFPR
PUC/RJ UNICENP/PR
UNESP
UFSCar/SP
FGV/RJ
UFRN/RN
UFBA/BA
UNIFACS/BA
UNESP-TUPÃ/SP
UFRGS
PUC/RS
UPF/RS UPMF/FR
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UNISINOS/RS
POITIERS/FR
UFSC/SC
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FBV/PE
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UNICAP/PE JAUME I/ES
O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
De acordo com os resultados dessa análise bibliométrica, foi possível identificar que, entre o ano
2000 até 2006, mais de uma centena de trabalhos sobre redes de cooperação interorganizacional foi
publicada no Brasil. A pesquisa levou em consideração somente os anais do ENANPAD e outras seis
das principais revistas científicas na área de administração. Se fossem considerados outros eventos e
revistas científicas em áreas como a Sociologia e Economia, esse número seria ainda maior. Os
resultados sinalizam a preocupação da comunidade acadêmica brasileira para o desenvolvimento de
estudos e pesquisas sobre a temática das redes de cooperação, fortalecendo e difundindo novos
conceitos para o aprofundamento das teorias de gestão e, sobretudo, para melhor formação dos
administradores e aprimoramento das práticas de gestão organizacional.
Mais especificamente, em relação aos resultados da análise dos artigos, é possível chegar às
seguintes conclusões para os estudos sobre redes de cooperação interorganizacional no contexto
brasileiro: (1) as teorias de estratégia, dependência de recursos, redes sociais e institucional formam
uma base conceitual predominante na orientação dos estudos; (2) as pesquisas são conduzidas, em sua
grande maioria, por abordagens qualitativas e transversais; (3) as redes horizontais (simétricas),
formadas por múltiplas organizações de um mesmo elo da cadeia produtiva, são o principal interesse
das pesquisas; (4) os antecedentes que levaram a formação das redes de cooperação com maior
destaque nos estudos foram a necessidade de acesso a recursos materiais e imateriais, além da
congruência de objetivos; (5) a aprendizagem, o sucesso e a inovação foram os resultados ou ganhos
proporcionados pelas redes de cooperação com maior interesse nos estudos brasileiros; (6) as teorias
de estratégia, dependência de recursos, custos de transação, redes sociais e institucional foram as mais
centrais (centralidade geodésica) nos estudos; (7) a teoria de redes sociais demonstrou forte
capacidade aglutinadora entre as diversas perspectivas teóricas, apresentando o mais elevado grau de
centralidade de intermediação; (8) as instituições UFRGS, UNISINOS, UFBA, UFSM, UFRJ e USP
tiveram destaque nos aspectos quantitativos de publicações, em face de outras 59 instituições que
também publicaram sobre o tema; (9) as instituições UFRGS, UFRJ e UNISINOS apresentaram
elevada centralidade, indicando que as publicações dessas instituições são, em sua maioria, realizadas
em conjunto com autores de outras universidades.
Destaca-se que os resultados e as conclusões não devem ser tomados como absolutos, pois existiram
certas limitações no contexto da pesquisa. A primeira limitação refere-se ao viés das publicações
escolhidas para a seleção dos artigos, conforme já mencionado: se a seleção tivesse incluído outras
revistas e eventos científicos, os resultados poderiam ser alterados. A segunda envolve a dificuldade
dos pesquisadores no momento da avaliação e da classificação dos artigos, uma vez que, mesmo
utilizando elevado rigor metodológico, sabe-se que tal limitação está presente em pesquisas dessa
natureza.
Por fim, deve-se ressaltar que as pesquisas sobre redes de cooperação interorganizacional estão em
crescente importância na pauta dos estudos organizacionais brasileiros, o que pode decorrer de dois
fatores: o primeiro é a sintonia da comunidade acadêmica brasileira com as teorizações
contemporâneas sobre estudos organizacionais, entendendo-se que ela é altamente afetada pela
dinâmica de relações colaborativas e relacionais que a empresa venha a estabelecer; o segundo é a
expressiva dimensão econômica e social que a formação de redes de empresas vem apresentando no
Brasil, em especial para o fortalecimento e o desenvolvimento de pequenas e médias empresas. Tais
considerações devem servir de estímulo aos interessados no tema, em sua busca constante da
compreensão do fenômeno das redes de cooperação, e contribuir para a ampliação do escopo dos
estudos organizacionais no contexto brasileiro.
Artigo recebido em 01.05.2008. Aprovado em 03.07.2009.
Alsones Balestrin, Jorge Renato Verschoore, Edgar Reyes Junior
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Dinâmica de Relacionamento e Prováveis Respostas Estratégicas de Programas Brasileiros de Pós-Graduação em Administração à Avaliação da Capes: Proposições Institucionais a partir da Análise de Redes de Co-Autorias

Dinâmica de Relacionamento e Prováveis Respostas Estratégicas de
Programas Brasileiros de Pós-Graduação em Administração à
Avaliação da Capes: Proposições Institucionais a partir da Análise
de Redes de Co-Autorias
Relationship Dynamics and Probable Strategic Answers of Brazilian Post Graduate
Programs in Administration to the Capes Evaluation: Institutional Propositions starting
from the Analysis of Co-Authorship Networks.
Cristiane Marques de Mello *
Doutoranda em Administração pela Universidade Positivo.
João Marcelo Crubellate
Doutor em Administração pela Fundação Getúlio Vargas.
Professor da Universidade Estadual de Maringá, Maringá/PR, Brasil.
Luciano Rossoni
Doutor em Administração pela Universidade Federal do Paraná.
Professor da Universidade Positivo, Curitiba/PR, Brasil.
* Endereço: Cristiane Marques de Mello
Universidade Positivo, Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300, Campo Comprido, Curitiba/PR, 81280-
330. Email: mellcris@gmail.com
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citar parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Dinâmica de Relacionamento e Prováveis Respostas Estratégicas de Programas Brasileiros de Pós-Graduação
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RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo descrever e analisar as mudanças ocorridas na configuração estrutural das
redes de co-autorias entre professores vinculados a Programas Brasileiros de Pós-Graduação (stricto sensu) em
Administração e formular proposições, com base na teoria institucional, a respeito das prováveis respostas
estratégicas de tais programas à avaliação da Capes. Adotou-se um recorte longitudinal que abrange um período
de seis anos, subdivididos em dois triênios: 2001-2003 e 2004-2006. A população pesquisada compreendeu 32
programas de pós-graduação, que foram avaliados pela Capes em 2001, assim como seus 703 pesquisadores
identificados. Os dados foram coletados tendo como base o curriculum Lattes dos professores atuantes naqueles
programas e foram analisados por meio de rotinas disponibilizadas pelos softwares Ucinet 6.0 e Pajek 1.10. Os
resultados apontam aumento na cooperação de co-autoria de um triênio para outro, o que parece indicar aumento
da aquiescência dos programas em relação às exigências do órgão de avaliação. As interações tanto podem
rejeitar como reforçar pressões institucionais coercitivas e normativas advindas da Capes, quanto à definição das
normas que orientam a avaliação trienal dos programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil.
Palavras-chave: respostas estratégicas; teoria institucional; redes de co-autorias; pós-graduação; avaliação da
Capes.
ABSTRACT
The aim of this study is to describe and analyze the changes that have taken place in the structural configuration
of the co-authorship networks among professors linked to national programs of post graduate (stricto sensu) in
Administration and to formulate propositions, based on the institutional theory, regarding the probable strategic
answers of such programs to the CAPES evaluation. A longitudinal cutting was adopted encompassing a six-year
period, subdivided into two triennials: 2001-2003 and 2004-2006. The researched population includes 32 postgraduate
programs that were evaluated by the Capes in 2001, as well as their 703 identified researchers. The data
were collected based on the Lattes curriculum of professors who were active in those programs and were
analyzed through routines made available by the the Ucinet 6.0 and Pajek 1.10 softwares. The results show an
increase in co-operation through co-authorship from one triennial to the other, which would appear to indicate
increased consent of the programs in relation to the requirements of the evaluating agency. These interactions
may both reject or heighten coercive and normative institutional pressures on the part of the CAPES concerning
the definition of the norms that serve as guidelines for the three-yearly evaluation of stricto sensu post-graduate
programs in Brazil.
Key-words: strategic answers; institutional theory; co-authorship networks; post graduation; Capes evaluation.
Cristiane Marques de Mello, João Marcelo Crubellate, Luciano Rossoni
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INTRODUÇÃO
Entre as organizações formais, as universidades são consideradas como uma das mais relevantes
para o estudo da influência da dimensão social na ação (Bidwell, 2006; Blau, 1970), diante de sua
forte dependência do ambiente institucional (Meyer & Rowan, 1977). Universidades necessitam
especialmente de aprovação pública para legitimar as mudanças em sua estrutura (Alperstedt,
Martignago, & Fiates, 2006). Diante de tal fato, mais do que eficientes, elas precisam ser vistas como
socialmente necessárias para sobreviverem.
Não é por acaso que tais organizações, sejam públicas sejam privadas, se deparam com influências
que vão além de sua esfera operacional. Por serem as instituições mais relevantes para o
desenvolvimento intelectual formal dentro da sociedade contemporânea, universidades são controladas
por governos nacionais, ou por suas autarquias, que lhes impõem formas de conduta acerca de sua
função na sociedade. Diante dessas pressões e do aumento da complexidade da função acadêmica na
modernidade, as universidades tendem a diferenciar e especializar suas atividades. Entre essas, uma
das mais fundamentais é a atividade de pesquisa, formalizada nessas organizações por meio dos
programas de pós-graduação.
Como função legítima e socialmente reconhecida, a atividade de pesquisa e ensino, desenvolvida
pelos programas de pós-graduação, a exemplo de outras atividades ligadas à formação acadêmica,
recebem forte condicionamento legal e burocrático, havendo em alguns países corpo especializado
para exercer tal função. Esse é o caso da pós-graduação no Brasil, cuja atividade de avaliação dos
programas fica a cargo de um órgão especializado do Ministério da Educação: a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior [Capes].
No Brasil, a Capes investe no desenvolvimento da pós-graduação stricto sensu e na qualificação de
pessoal no país e também no exterior. A Capes avalia trienalmente cursos de mestrado e doutorado em
todos os Estados da Federação e financia a produção e a cooperação científica. Além disso, também é
responsável pela concessão de mais de quarenta por cento das bolsas de pós-graduação concedidas a
estudantes brasileiros (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq],
2009; GeoCapes, 2009). A Avaliação da Capes inclui dois processos: (1) a avaliação dos programas de
pós-graduação integrantes do Sistema Nacional de Pós-Graduação [SNPG]; e (2) a avaliação das
propostas de novos cursos de mestrado e doutorado. O Sistema de Avaliação da Pós-graduação foi
implantado pela Capes em 1976 e tem sido de fundamental importância para o desenvolvimento e
aperfeiçoamento da pós-graduação e da pesquisa científica e tecnológica no país (Nicolato, 2005).
Os programas brasileiros de pós-graduação podem responder de diferentes formas ao sistema de
avaliação da Capes. Diante de tal possibilidade, propõe-se, no presente estudo, descrever e analisar as
respostas de programas brasileiros de mestrado e doutorado em Administração, que já existiam em
2001 ou em anos anteriores, utilizando como referencial a tipologia de Oliver (1991). Essas respostas
são denominadas, aqui, de respostas estratégicas, que podem ir desde a concordância até a rejeição dos
critérios adotados pela Capes para avaliação dos programas. No entanto, diferentemente de outros
estudos que avaliaram empiricamente tais respostas (por exemplo, Machado-da-Silva, 2003),
apontaremos como elas são condicionadas pelos seus relacionamentos. As respostas de uma
organização ao ambiente institucional, de acordo com Oliver (1991), influenciarão não somente o
desempenho organizacional, como também poderão influenciar os critérios, as medidas, ou os padrões
usados por constituintes institucionais para avaliar o desempenho das organizações.
O presente trabalho tem como objetivo descrever e analisar a dinâmica de relacionamento
(mudanças ocorridas na configuração estrutural) das redes de co-autorias entre professores vinculados
a Programas de Pós-Graduação (stricto sensu) em Administração no Brasil e elaborar proposições,
com base na teoria institucional, a respeito das prováveis respostas estratégicas de tais programas à
avaliação da Capes nos triênios de 2001-2003 e 2004-2006, a partir da análise de redes. A elaboração
das proposições está baseada na tipologia de Oliver (1991), bem como nas especificidades derivadas
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da análise de redes e no suporte teórico da teoria institucional em organizações. Tais proposições têm,
certamente, o caráter precário, natural a qualquer esforço de conhecimento a priori da realidade
empírica; elas cumprem, entretanto, o papel de orientação de investigações posteriores que, detendo-se
sobre a mesma problemática, tenham como objetivo ir além da simples descrição das respostas
estratégicas, que se interpretam à luz de alguma teoria ou, especificamente, das teorias que aqui nos
dão suporte.
Este estudo pressupõe que a configuração da rede de co-autorias, formada entre os professores
vinculados aos programas pesquisados, pode oferecer indicativos das respostas à avaliação da Capes
oferecidas por tais programas no período mencionado anteriormente. Considera-se ainda que atores
que pertencem ao mesmo campo estão propensos a aceitar e a aderir às mesmas crenças e compartilhar
de significados comuns, o que pode condicionar suas ações (Scott, 2001), e sugerir que programas que
interagem entre si, por meio de co-autorias entre os professores, tendem a responder de modo
semelhante. Esta pesquisa pretende sugerir, a partir da análise de redes, a formulação de proposições
institucionais das possíveis respostas estratégicas empreendidas pelos programas de pós-graduação.
Por meio da análise de redes é possível a compreensão de aspectos estruturais e dinâmicas de
relacionamento entre atores sociais, elementos considerados de fundamental importância para a
compreensão dos processos de imersão social e de práticas institucionais. Entender as relações sociais
dos atores, no caso considerado, os professores e os programas, pode contribuir para a compreensão da
parte do que ocorre na produção científica em administração e na pós-graduação em administração no
Brasil, bem como das relações que se estabelecem entre essas organizações e seu ambiente.
Embora haja no Brasil o desenvolvimento de estudos sobre co-autorias (vide, por exemplo, trabalhos
de Rossoni, 2006; Rossoni & Guarido Filho, 2007; Rossoni, Hocayen-da-Silva, & Ferreira Júnior,
2008) e publicações sobre respostas estratégicas de programas brasileiros de pós-graduação em
administração à avaliação da Capes (vide, por exemplo, Machado-da-Silva, 2003), este estudo tem seu
foco na possível relação entre esses dois elementos (redes de co-autorias e respostas estratégicas).
O artigo está estruturado em cinco partes, sendo a primeira a introdução. Na sequência será
apresentado o quadro teórico que fundamenta a presente pesquisa. A terceira parte é composta pelos
procedimentos metodológicos que oferecem sustentação aos dados empíricos. A quarta parte é
composta pela apresentação e análise dos resultados relativos às redes e às proposições institucionais
e, por fim, as conclusões do estudo.
QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA: RESPOSTAS ESTRATÉGICAS E IMERSÃO EM REDES SOCIAIS
No ambiente universitário brasileiro, as pressões institucionais do governo são consideradas pelos
seus dirigentes como decisivas; teorias que não consideram os órgãos governamentais, nem a
comunidade como forças ambientais relevantes, possuem pouco poder explicativo (Alperstedt et al.,
2006) da relação entre organização e forças ambientais. Tais forças devem ser consideradas
especialmente no momento da formulação e implementação das estratégias organizacionais.
A visão institucionalista de estratégia leva em consideração elementos ambientais, culturais,
cognitivos e sistêmicos para compreender o processo da formação da estratégia (Crubellate, Grave, &
Mendes, 2004). Essa perspectiva pressupõe o desenho organizacional como processo provindo de
pressões externas e internas que, ao longo do tempo, levam as organizações a se tornarem
semelhantes. Assim, as escolhas estratégicas seriam determinadas em um contexto institucional no
qual uma organização está imersa (Rossetto & Rossetto, 2005). Para a compreensão das ações
organizacionais, Crubellate (2007) defende que a análise institucional e os estudos de estratégia nas
organizações necessitam ser analisados nas suas interações, e não de modo dicotômico.
A estrutura institucional pode acomodar uma variedade de respostas estratégicas ao ambiente
institucional. Este pressuposto fornece base apropriada de comparação, revelando suposições da teoria
Cristiane Marques de Mello, João Marcelo Crubellate, Luciano Rossoni
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institucional, identificando um repertório de estratégias alternativas disponíveis às organizações que
confrontam demandas e expectativas institucionais e determinam os fatores que predizem quando as
organizações resistirão ou se conformarão às pressões institucionais (Oliver, 1991). As escolhas
estratégias são feitas mediante as interpretações que os atores dirigentes fazem das pressões provindas
dos ambientes (Cochia & Machado-da-Silva, 2004). Entretanto, as estratégias consideradas formais ou
declaradas pelas organizações podem ser vistas apenas como instrumento para evitar a avaliação das
ações concretas, por parte de órgãos externos (Crubellate et al., 2004). A imposição de claros padrões
de desempenho, acoplada à presença de sanções, produz real conformidade, como muitos estudos
qualitativos sobre as consequências de sistemas de responsabilidade estatais estão demonstrando
(Rowan, 2006, por exemplo).
Oliver (1991) enfatiza que diversos tipos de comportamentos estratégicos podem ser estabelecidos
pelas organizações em resposta ao ambiente institucional. Cinco tipos de respostas estratégicas são
discutidos pela autora, quais sejam: aquiescência, acordo, evasão, desafio, e manipulação. A Tabela a
seguir sintetiza essas respostas estratégicas, as táticas que podem ser utilizadas e exemplifica cada uma
delas.
Tabela 1
Respostas Estratégicas aos Processos Institucionais
Estratégias Táticas Exemplos
Hábito Seguir normas invisíveis, dadas como certas
Imitar Imitar modelos institucionais
Aquiescência
Aceder Obedecer às regras e aceitar as normas
Equilibrar Equilibrar as expectativas de públicos múltiplos
Pacificar Aplacar e acomodar elementos institucionais
Compromisso
Barganhar Negociar com grupos de interesses institucionais
Ocultar Disfarçar a não-conformidade
Amortecer Afrouxar as ligações institucionais
Evasão
Escapar Mudar objetivos, atividades ou domínios
Rejeitar Desconsiderar normas e valores explícitos
Provocar Contestar regras e exigências
Desafio
Atacar Violar as fontes de pressão institucional
Cooptar Importar pessoas influentes
Influenciar Moldar valores e critérios
Manipulação
Controlar Dominar públicos e processos institucionais
Nota. Fonte: Oliver, C. (1991). Strategic responses to institutional processes. Academy of Management Review, 16 (1), p. 152.
A aquiescência refere-se ao consentimento das organizações às pressões institucionais; incluem o
hábito, a imitação e a conformidade. Nesse caso, pressupõe-se a obediência às normas e regras
estabelecidas. O compromisso é representado por uma concordância parcial com os padrões
institucionais, desde que os interesses do grupo, ou da organização sejam preservados; é composto
pelas táticas de equilibrar, pacificar e barganhar. A evasão é definida como a tentativa organizacional
de impossibilitar a conformidade. As organizações conseguem ocultar sua não-conformidade,
protegendo-se das pressões institucionais, ou escapando das regras ou das expectativas estabelecidas.
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As táticas da evasão comumente utilizadas são ocultar, amortecer e escapar. O desafio é uma forma
mais ativa da resistência aos processos institucionais e utiliza as táticas de rejeição, provocação e
ataque. A manipulação é a resposta mais ativa a essas pressões; pode ser conceituada como a
tentativa propositada e oportunista de influenciar, ou controlar pressões e avaliações institucionais.
Suas táticas mais importantes são a cooptação, influência e controle.
As organizações que utilizam as mesmas estratégias usadas por outras são vistas pelos reguladores e
pela sociedade em geral como mais legitimadas do que as organizações que adotam um
comportamento fora do que é considerado natural ou habitual (Carstens & Machado-da-Silva, 2006).
A resposta para semelhantes ou diferentes escolhas estratégicas adotadas pelas organizações imersas
em rede, pode estar associada com a estrutura da rede social e dinâmica de relacionamento, formada
pelas relações sociais entre elas. Dinâmica de relacionamento são as prováveis mudanças ocorridas na
estrutura (tamanho, densidade, componentes) de relacionamentos em determinado
espaciotemporalidade (Moody, 2004).
A rede social é definida por Wasserman e Faust (1994) como conjunto de atores e as possíveis
relações entre eles. As redes sociais, de acordo com Carstens e Machado-da-Silva (2006), são
inicialmente estruturadas com a definição de papéis, atribuições e relacionamentos dos atores
pertencentes à rede, caracterizando assim o processo de estruturação e isomorfismo, embora as
relações de cooperação não eliminem os conflitos e a competição entre os participantes. A concepção
estruturalista de capital social enfatiza as vantagens individuais que derivam de características
estruturais particulares de suas redes (Rodan & Galunic, 2004). O sociólogo Burt (1998) refere-se ao
capital social como idéias e informações, que surgem e são disseminadas nas relações entre os
indivíduos. Este capital é obtido apenas por meio de tais relações, e não como propriedades do
indivíduo. O capital social é estruturado por meio das relações estabelecidas entre os atores (Burt,
1998), e não se refere às qualidades do indivíduo, mas às características da rede social na qual este
indivíduo está imerso, cujo capital é formado pelas contínuas relações de troca, acumuladas ao longo
do tempo (Burt, 1998; Rodan & Galunic, 2004).
Como entendimentos culturalmente imersos, as instituições especificam e justificam arranjos sociais
e comportamentos formal e informal (Garud, Hardy, & Maguire, 2007). Segundo Hatch (1997) os
relacionamentos construídos nas redes por meio das relações de amizade, reputação, ou pelo
compartilhamento de ideologias podem mostrar-se mais efetivos pela sua maior capacidade de gerar
cooperação e confiança. As relações mútuas em uma rede social também constituem aspecto
importante de acesso a novos recursos (Burt, 1992, 1997).
Além disso, as informações são compartilhadas e podem ser disseminadas rapidamente, além de
incentivarem novas descobertas. Essas redes também podem ser consideradas alianças estratégicas
(Burt, 1992, 1997), que produzem valor estratégico e legitimidade (Dacin, Oliver, & Roy, 2007).
Esses aspectos devem ser considerados nas relações formadas entre professores vinculados aos
programas de pós-graduação (stricto sensu) em administração por meio de co-autorias, porquanto tais
relacionamentos são influenciados, direta ou indiretamente, por pressões ambientais. Tais pressões
interferem no comportamento dos pesquisadores que fazem parte dos programas, em um nível, assim
como nas escolhas estratégicas dos programas, em outro nível, motivadas pelo ambiente no qual estão
imersos. Desse modo, consideramos que as respostas estratégicas, oferecidas pelos programas à Capes,
podem ser influenciadas pelo ambiente institucional, ainda que tais respostas não envolvam,
necessariamente, conscientização ou intencionalidade (Barley & Tolbert, 1997; Garud et al., 2007;
Machado-da-Silva, Fonseca, & Crubellate, 2005), mas considerando, é claro, que os pesquisadores
enquanto agentes de tais programas, tenham suas ações condicionadas pelos seus relacionamentos.
Considerando a abordagem de Burt (1992), na qual a rede parte do indivíduo, salientamos: o que se
supõe é que as co-autorias ocorrem por decisão dos próprios professores; mas a rede (composta pelos
professores) ocorre como consequência ou em decorrência dos relacionamentos estabelecidos entre
eles. Ou seja, o professor opta por ter ou não relação de co-autoria com outros, mas a configuração
estrutural da rede é o resultado (não planejado) das relações formadas.
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440
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O universo da pesquisa foi composto por 32 programas brasileiros de pós-graduação em
administração stricto sensu já avaliados pela Capes em 2001 ou em anos anteriores. A presente
pesquisa possui perspectiva longitudinal e compreende um período de seis anos, tendo sido analisadas
as mudanças incididas ao longo dos triênios de 2001-2003 e 2004-2006.
As etapas que compreenderam a coleta de dados foram as seguintes: (a) inicialmente foram
coletados nos sites dos programas de pós-graduação em administração os nomes dos professores que
faziam parte de seu quadro docente; (b) em segundo lugar, em meados de 2007, foi realizada uma
busca dos currículos disponíveis na plataforma Lattes do CNPq daqueles professores; (c) de posse dos
currículos foram identificados os artigos publicados por cada um dos pesquisadores em periódicos,
congressos, publicações de livros e capítulos de livros, trabalhos completos publicados em anais de
congressos, resumos/resumos expandidos, publicados em anais de congressos. Entre esses artigos,
selecionaram-se aqueles com co-autorias, descartando-se aqueles com apenas um autor. Foi
considerada toda a produção científica (dentro do critério adotado) do período, o que totalizou 2.062
co-autorias de 2001-2003; e 3.831 co-autorias de 2004-2006 de todos os 703 professores vinculados
aos programas pesquisados.
Salientamos, como uma das limitações do estudo, possíveis mudanças ocorridas no corpo docente
(entre um triênio e outro), o que não pôde ser considerado aqui, tendo em vista que se optou pela
relação de professores de 2007 disponíveis nas páginas dos programas. Entretanto, apesar de este
aspecto ser uma das limitações da pesquisa, acreditamos que as mudanças ocorridas não tenham sido
tão significativas a ponto de invalidar a pesquisa, porquanto as listas de docentes, indicadas nos sites
do programas (do nosso ponto de vista, via de menor impacto), foram cotejadas com a informação
prestada no currículo de cada docente, o que nos pareceu e ainda parece mais atualizado do que as
informações no site da CAPES.
Com os autores identificados e suas co-autorias foi construída uma matriz de rede 2-mode, que
relaciona os autores com os respectivos artigos. Seguindo Rossoni e Hocayen-da-Silva (2008),
transformamos a matriz 2-mode em 1-mode, que reflete os relacionamentos, em termos de co-autoria,
com cada um dos pesquisadores. Com a matriz de relacionamentos entre pesquisadores disponíveis
construímos a matriz de relacionamento entre programas por meio do procedimento Block do
UCINET 6 (vide Borgatti, Everett, & Freeman, 2002; Hanneman & Riddle, 2005). Basicamente o
procedimento consiste em agrupar os relacionamentos em categorias predefinidas que, no nosso caso,
eram os programas de pós-graduação.
Após isso, todas as análises dos dados relativos às redes de co-autorias foram realizadas com a
utilização dos softwares UCINET 6 (Borgatti et al., 2002) e PAJEK 1.0 (Batagelj & Mrvar, 2005). Por
meio dessa análise, além da verificação da configuração estrutural da rede, também foram calculados
graus de intensidade da cooperação (densidade) dos programas, coeficiente de agrupamento, distância
média, centralidade de grau, e centralidade de intermediação (Hanneman & Riddle, 2005), com o
intuito de identificar os programas mais relevantes (em termos de co-autoria) na rede. A densidade é a
medida de intensidade da interação dos atores da rede com sua mensuração contribui para a
formulação de proposições sobre as informações que circulam pela rede, podendo ser desenvolvida
tanto para a rede como um todo, quanto para cada um dos programas. Já o coeficiente de agrupamento
indica como os contatos de um ator estão recursivamente ligados entre si (Watts & Strogatz, 1998).
Em outras palavras, quanto maior o número de cliques1 que eles formam, maior o agrupamento da
rede. Formalmente, podemos definir o coeficiente de agrupamento CC como 3 x número de
cliques/número de trios conectados. Ele pode variar de 0 a 1, em que as redes totalmente agrupadas
apresentam coeficiente 1, enquanto aquelas totalmente desagrupadas apresentam coeficiente 0. A
distância média indica o número de passos necessários para uma instituição se conectar com qualquer
outra na rede. A centralidade de grau (degree centrality) está vinculada ao número de laços que um
ator (programa) possui com outros atores dentro de uma rede (Wasserman & Faust, 1994), embora
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Carpenter e Westphal (2001) lembrem que a quantidade de laços na rede não tem tanta importância
quanto o contexto estratégico existente nesses laços. Já a centralidade de intermediação (betweenness
centrality) refere-se à intermediação de um ator nas relações com outros atores. Um ator intermediário
é aquele que se conecta a outros atores que diretamente não se relacionam entre si (Hanneman &
Riddle, 2005; Wasserman & Faust, 1994). Não consideramos neste estudo a centralidade de
proximidade (closeness centrality) porque, como apontam Rossoni e Guarido Filho (2009), ela
apresenta pouco poder explicativo em termos de produção acadêmica.
Adicionalmente, alguns testes estatísticos foram realizados. Como o número de programas avaliados
era pequeno e diante da não normalidade dos dados, optamos por utilizar alternativas não paramétricas
para comparar as variáveis entre si; neste caso tem-se a correlação de Spearman e, para comparar, os
períodos por meio do teste de médias de grupos pareados de Wilcoxon. Ambos os testes foram feitos
por meio do pacote estatístico SPSS 15.
Todas as medidas foram calculadas por programa (corpo docente), a partir dos dados individuais. A
descrição das etapas da análise dos dados pode ser mais bem visualizada na Tabela 2:
Tabela 2
Etapas da Análise dos Dados
Etapas Fontes de Dados Tipo/ Meio de Análise
1ª Etapa – Fase I Currículos dos professores extraídos
da base Lattes do CNPq.
Análise do número da produção científica e
filiação dos professores vinculados aos
programas pesquisados.
1ª Etapa – Fase II
Compilação dos dados extraídos dos
Currículos dos professores da base
Lattes do CNPq.
Estrutura da rede: componentes, densidade,
coeficiente de agrupamento, centralidade de
grau e centralidade de intermediação.
Análise Estatística: Correlação de Spearman
e Teste de Wilcoxon.
2ª Etapa Redes de co-autoria entre professores
dos programas.
Interpretação dos resultados para
formulação de proposições institucionais
concernentes às respostas estratégicas dos
programas à avaliação da Capes.
Cabe aqui ponderarmos que ações (respostas estratégicas), supostamente adotadas pelos programas
por meio das relações entre professores, se justificam pelo fato de que as decisões e ações são
originadas dos colegiados de cada programa, que são compostos por professores. A própria natureza
estrutural (não burocrática) do programa explica essa escolha (respostas estratégicas dos programas a
partir da relação dos professores), tendo em vista que as estratégias não são impostas pelo
coordenador, mas partem dos referidos colegiados. Além disso, há que se considerar que a maior parte
dos critérios que constam na avaliação da Capes estão diretamente relacionados aos professores, como
é caso da avaliação do corpo docente (peso 30%) e da produção intelectual (peso 35%), o que nos leva
a concluir que 65% da avaliação de um programa diz respeito diretamente à produção dos professores
vinculados a esses programas. Entretanto, lembramos ao leitor que no presente trabalho foi analisada
apenas uma parte da produção intelectual dos professores, ou seja, a análise proposta refere-se às
relações de co-autorias entre os professores dos programas pesquisados e não a toda a produção
acadêmica.
Outra ponderação que fazemos é que as regras utilizadas pelo Sistema de Avaliação da Capes estão
disponibilizadas para acesso de coordenadores e do corpo docente dos programas, uma vez que, tanto
coordenador quanto professor, são (ou serão) avaliados por tal sistema, como parte do processo
avaliativo do programa. Deve-se também levar em consideração que, com a finalidade de atingir o
padrão mínimo estabelecido pela Capes, os programas (representados pelo papel do coordenador ou
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pelo colegiado) podem também decidir por criar suas próprias regras (internas ao programa), além
daquelas instituídas pelos órgãos externos.
REDE DE CO-AUTORIAS ENTRE OS PROGRAMAS E PROPOSIÇÕES INSTITUCIONAIS
A elaboração de proposições institucionais foi realizada inicialmente por Crubellate, Rossoni, Mello
e Valenzuela (2008), com programas paranaenses de mestrado e doutorado. Apesar de os autores
terem considerado o mesmo período de análise, não foi possível verificar as diferenças e/ou mudanças
ocorridas nas relações entre os programas de um período para o outro, já que a análise apresentada
contemplava o período de 2001-2006, sem considerar as particularidades de cada triênio (2001-2003 e
2004-2006).
Na tabela 3 estão descritos os dados relacionados aos programas (M – mestrado acadêmico; MP –
mestrado profissional; e D – doutorado) pesquisados no estudo que aqui reportamos.
Tabela 3
Descrição de dados referentes às co-autorias
Instituições/ Programas Quant.
docentes Quant. co-autorias Média de co-autorias por
docente
2001-2003 2004-2006 2001-2003 2004-2006
FGV (RJ) – M/ D** 64 79 134 1,234 2,094
PUC (RJ) – M/ MP/ D** 18 21 39 1,167 2,167
USP (SP) – M/ D* 63 228 429 3,619 6,81
FGV(SP) – M/ MP/ D 53 168 250 3,17 4,717
FJP (MG) – M 16 20 15 1,25 0,938
FPL (MG) – MP 10 32 24 3,2 2,4
FURB (SC) – M 15 80 204 5,333 13,6
PUC (MG) – MP 19 50 120 2,632 6,316
PUC (PR) – M 18 82 211 4,556 11,722
PUC (RS) – M 14 110 186 7,857 13,286
PUC (SP) – M 15 30 48 2 3,2
UEM/ UEL (PR) – M 16 22 49 1,467 3,267
UFBA (BA) – M/ MP/D 46 89 119 1,935 2,587
UFES (ES) – M 12 18 35 1,5 2,917
UFLA (MG) – M/ D 16 52 49 3,25 3,063
UFMG (MG) – M/ D 22 137 114 6,227 5,182
UFPB (PB) – M 9 1 0 0,111 0
UFPE (PE) – M/ D 22 43 63 1,955 2,864
UFPR (PR) – M 19 45 101 2,368 5,316
UFRGS (RS) – M/ D 43 171 258 3,977 6
Continua
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Tabela 3 (continuação)
Instituições/ Programas Quant.
docentes Quant. co-autorias Média de co-autorias por
docente
2001-2003 2004-2006 2001-2003 2004-2006
UFRJ (RJ) – M/ D 28 97 122 3,464 4,357
UFRN (RN) – M 15 25 75 1,667 5
UFRRJ (RJ) – MP 18 16 45 0,889 2,5
UFSC (SC) – M 14 26 96 1,857 6,857
UNB (DF) – M 20 39 43 1,95 2,15
UNESA (RJ) – M 15 2 69 0,133 4,6
UNIFACS (BA) – M 14 22 30 1,571 2,143
UNIFOR (CE) – M 11 25 30 2,273 2,727
UNINOVE (SP) – MP 16 68 454 4,25 28,375
UNISANTOS (SP) – M 7 4 46 0,571 6,571
UNISINOS (RS) – M 15 51 68 3,4 4,533
UPM (SP) – M/ D 20 209 305 10,45 15,25
TOTAL 703 2.062 3.831 –
Nota. Fonte: dados da pesquisa
*Campus de São Paulo (SP) ** Mesmo corpo docente
Em relação aos dados da Tabela 3, podemos destacar alguns pontos. Aqueles programas com maior
número de docentes, como, por exemplo, FGV-RJ, FGV-SP, UFBA, UFRGS e USP, tendem a
apresentar maior número de co-autorias, tanto no primeiro período (Spearman’s rho = 0,659, p. <
0,001) quanto no segundo (Spearman’s rho = 0,659, p. < 0,001). No entanto não existe tendência
significativa de que quanto maior é o número de docentes no programa, maior e a cooperação
(Spearman’s rho de 0,283, p. = 0,116 para o primeiro período e Spearman’s rho de 0,060, p. = 0,743
para o segundo período). Mas, comparando o número de co-autorias com a média, verificamos que
eles apresentam correlação forte e significativa nos dois períodos (Spearman’s rho de 0,852, p. < 0,001
para o primeiro período e Spearman’s rho de 0,768, p. < 0,001 para o segundo período). Esses
resultados indicam que, independentemente do número de docentes no programa, há um aumento
médio na cooperação entre os programas que, por sua vez, está fortemente e diretamente relacionada
ao número de co-autorias de seus pesquisadores. Diante de tal fato, há evidências de que, enquanto
estratégia de aumento da qualidade e da produtividade da pesquisa científica, programas e
pesquisadores têm papel imbricado no processo.
Além dessas relações, buscamos analisar os dados de forma comparativa entre os triênios, para
poder elaborar proposições que contemplem essa possível evolução do campo. A Figura 1,
apresentada a seguir, refere-se à rede de relações formada entre programas brasileiros de mestrado e
doutorado em administração, por meio de co-autorias nas publicações, no triênio 2001-2003.
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Figura 1. Rede de Relações de Co-autorias entre os Programas no Período de 2001-2003
Pode-se observar que todos os programas estão interligados, formando assim apenas um
componente. Os nós estão com o mesmo tamanho porque a intenção é de apenas evidenciar tais
relações, desconsiderando o grau de importância dos programas quanto à centralidade. Os programas
localizados mais proximamente ao núcleo da rede são considerados centrais e os que se encontram
mais afastados do centro são chamados de periféricos. É possível verificar que os programas das
instituições FJP, UFES, UFPB e UNIFOR estão conectados à rede apenas por uma linha (co-autoria
com apenas uma instituição). Isso significa que sem essa conexão esses programas estariam
desconectados da rede e passariam a constituir quatro atores (programas) isolados. Note que tais
instituições estão vinculadas a programas com localização mais central na rede e, provavelmente, suas
respostas são influenciadas por esses programas.
É importante frisar que nessa análise foram utilizados dados dicotômicos para representar as relações
entre os programas e/ou professores, o que significa que foi considerado o número de laços entre eles,
porém sem considerar a frequência com que tais laços ocorreram. Isto quer dizer que, mesmo nos
casos em que alguns programas e/ou professores aparecem com baixo número de laços, a frequência
do número de laços pode ser alta, caracterizando um laço forte, ainda que seja apenas entre dois atores.
Por outro lado, existem programas com médio ou grande número de laços que podem, ocasionalmente,
apresentar baixa frequência de interações, caracterizando uma situação de laços fracos (Granovetter,
1973).
A Figura 2 mostra a rede de relações dos programas, por meio de co-autorias, no triênio de 2004-
2006. Pode-se observar que a Figura 2 é mais densa e possui maior interligação dos programas.
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Figura 2. Rede de Relações de Co-autorias entre os Programas no Período de 2004-2006
Nessa rede existe um componente, com 31 programas, e 1 programa isolado apenas. Dos programas
que estavam interligados à rede apenas por um vínculo (FJP, UFES, UFPB E UNIFOR), pode-se notar
que três deles cooperaram mais no segundo triênio e permaneceram conectados a programas mais
centrais e apenas um deles se isolou. O programa da UFPB está isolado por não ter sido realizada
nenhuma cooperação nas publicações dos docentes desse programa com docentes de outros
programas. Percebe-se ainda que a Figura 2 está mais interconectada que a Figura 1; isso ocorreu
porque houve crescimento na colaboração de co-autorias nas publicações científicas entre os
programas. A tabela 4 a seguir apresenta os dados relativos às estruturas de relações entre programas
nos dois triênios.
Tabela 4
Dados Descritivos das Estruturas de Relações entre Programas
Triênio Triênio
2001-2003 2004-2006
Co-autorias 2.062 3.831
Laços 860 1.450
Média de laços por autor 5,5 6,75
Número de componentes 1 1
Atores isolados 0 1
Tamanho do componente principal 32 31
Distância média 2,139 1,938
Densidade 17,74% 21,77%
Centralização 36,13% 45,59%
Coeficiente de agrupamento 0,342 0,525
Nota. Fonte: dados da pesquisa
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A quantidade de laços refere-se ao número de professores com quem houve a colaboração nas
publicações, ou seja, com quem houve relações de co-autorias, sem levar em consideração o número
de vezes em que ocorreram tais relações. O aumento no número de laços revela não só aumento do
número de publicações, mas principalmente um crescimento nas colaborações, sob a forma de coautorias
entre esses autores.
No segundo período, a intensidade na interação dos programas é mais elevada, como mostra o
crescimento no percentual da densidade, o que leva a crer que a comunicação entre eles também foi
mais rápida. O aumento da densidade também pode ser observado pela queda na distância média entre
os programas, o que indica maior proximidade entre os programas, assim como pelo aumento do
coeficiente de agrupamento, que indica que os programas tenderam a se agrupar localmente em mais
intensidade no período 2004-2006 do que no período anterior. Outro fato importante é o aumento da
centralização das relações, que indica que houve certa hierarquização na cooperação. Isso ocorreu
porque aquelas instituições com maior número de laços, que também apresentam maior cooperação
com outros programas, têm maior capacidade de receber mais laços que as demais. Esse fenômeno é
conhecimento como escolha preferencial (vide Rossoni & Guarido Filho, 2009), em que instituições
mais centrais tendem a ser cada vez mais centrais, ocasionando, na maior parte dos casos, maior
hierarquização na rede.
Ainda com relação ao aumento no número de co-autorias de um período para o outro (Z de
Wilcoxon = 4,432, p < 0,000), é possível supor que o crescimento tenha ocorrido, dentre outros
motivos, pelo fato de que a obrigação de padrões de desempenho, juntamente com a existência de
sanções, resulta em real conformidade (Rowan, 2006). Ou seja, se os programas não se adequarem aos
critérios na avaliação de desempenho da Capes, poderão perder pontuação, o que pode acarretar
declínio da nota obtida pelo programa no período anterior. Diante desse argumento, é possível inferir o
que segue.
PROPOSIÇÃO 1. No segundo período de avaliação (2004-2006), as respostas dos programas de
pós-graduação em Administração no Brasil tenderam a ser mais de aquiescência e compromisso do
que no primeiro triênio (2001-2003).
Centralidades de Grau e de Intermediação da Rede de Programas
A tabela 5 apresenta o índice de centralidade de grau dos programas no período de 2001-2003, onde
se relaciona a quantidade de laços de cada programa, bem como o percentual de cada programa em
relação aos laços possíveis existentes na rede. Para exemplificar esse ponto, citamos o caso da USP,
que possui laços com outros 16 programas, que corresponde a 51,61% dos laços possíveis (31 laços,
excluindo o próprio programa). A centralidade de grau indica o número de laços que um ator possui
com outros atores (Hanneman & Riddle, 2005), quando se identificam os atores sociais (programas)
mais relevantes na rede. Nessa mesma tabela também estão relacionados os índices de centralidade de
intermediação de cada programa no período que se refere à posição ocupada por um ator em relação a
outros pares de atores na rede. Assim, quanto mais pessoas dependem dele para fazer conexões com
outras, mais poder o ator (programa) tem. Porém, se dois atores estiverem unidos por mais de um
caminho geodésico e tal ator não está em todos eles, perde um pouco de seu poder. Quando possui
mais de um canal, o ator torna-se menos dependente e mais poderoso. O poder está além de mera
posição ou na identificação de quem possui uma quantidade maior ou menor de poder, mas envolve
seu papel estratégico (Hardy & Clegg, 2001). Através da centralidade de intermediação é possível
identificar os atores que detêm um papel estratégico dentro da estrutura da rede.
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Tabela 5
Centralidades de Grau e de Intermediação dos Programas (2001-2003)
FREEMAN'S DEGREE CENTRALITY MEASURES FREEMAN BETWEENNESS CENTRALITY
Un-normalized centralization: 3191.562
Degree NrmDegree Share Betweenness nBetweenness
32 USP 16.000 51.613 0.091 32 USP 117.393 25.246
19 UFRGS 13.000 41.935 0.074 19 UFRGS 74.572 16.037
1 FGV-RJ 12.000 38.710 0.068 2 FGV-SP 58.189 12.514
2 FGV-SP 12.000 38.710 0.068 15 UFMG 57.041 12.267
15 UFMG 10.000 32.258 0.057 1 FGV-RJ 42.510 9.142
6 PUC-MG 8.000 25.806 0.045 17 UFPE 39.511 8.497
17 UFPE 8.000 25.806 0.045 31 UPM 30.924 6.650
7 PUC-PR 8.000 25.806 0.045 8 PUC-RJ 22.131 4.759
8 PUC-RJ 7.000 22.581 0.040 6 PUC-MG 21.321 4.585
10 PUC-SP 6.000 19.355 0.034 7 PUC-PR 17.147 3.687
31 UPM 6.000 19.355 0.034 30 UNISINOS 16.041 3.450
30 UNISINOS 6.000 19.355 0.034 12 UFBA 11.921 2.564
5 FURB 5.000 16.129 0.028 10 PUC-SP 7.772 1.671
20 UFRJ 5.000 16.129 0.028 18 UFPR 6.730 1.447
12 UFBA 5.000 16.129 0.028 14 UFLA 6.202 1.334
18 UFPR 5.000 16.129 0.028 21 UFRN 6.127 1.318
28 UNINOVE 5.000 16.129 0.028 20 UFRJ 5.238 1.126
26 UNIFACS 5.000 16.129 0.028 28 UNINOVE 5.150 1.108
DESCRIPTIVE STATISTICS DESCRIPTIVE STATISTICS
Degree NrmDegree Share Betweenness nBetweenness
1 Mean 5.500 17.742 0.031 1 Mean 17.656 3.797
2 Std Dev 3.725 12.016 0.021 2 Std Dev 26.378 5.673
3 Sum 176.000 567.742 1.000 3 Sum 565.000 121.505
4 Variance 13.875 144.381 0.000 4 Variance 695.773 32.178
5 SSQ 1412.000 14693.028 0.046 5 SSQ 32240.516 1491.063
6 MCSSQ 444.000 4620.188 0.014 6 MCSSQ 22264.734 1029.702
7 Euc Norm 37.577 121.215 0.214 7 Euc Norm 179.556 38.614
8 Minimum 1.000 3.226 0.006 8 Minimum 0.000 0.000
9 Maximum 16.000 51.613 0.091 9 Maximum 117.393 25.246
Network Centralization = 36.13% Network Centralization Index = 22.14%
Heterogeneity = 4.56% Normalized = 1.48%
Note. Fonte: dados da pesquisa.
Cristiane Marques de Mello, João Marcelo Crubellate, Luciano Rossoni
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Se um ator (programa) recebe muitos laços, pode-se pressupor que ele seja mais proeminente ou que
possua elevado prestígio (Hanneman & Riddle, 2005; Moody, 2004), o que pode indicar a sua
importância e influência em relação aos outros (Hanneman & Riddle, 2005). Dessa forma, parece
plausível supor o que segue.
PROPOSIÇÃO 2. No primeiro triênio, programas que cooperaram diretamente com os que
possuíam maior centralidade (USP, FGV-SP, FGV-RJ, UFRGS) possivelmente ofereceram respostas à
avaliação da Capes semelhantes a tais programas com os quais se relacionaram.
Os atores que têm mais laços em relação aos outros tendem a ocupar posições mais vantajosas,
apresentam modos alternativos de satisfazer necessidades e são menos dependentes de outros atores.
Mais conexões significa, muitas vezes, que os indivíduos estão expostos a uma maior quantidade e
diversidade de informações. Os indivíduos mais conectados tanto podem influenciar como serem
influenciados por outros. O fato de ter maior quantidade de laços pode significar maior facilidade em
atrair e ter acesso a mais recursos. As populações mais conectadas também podem ser mais capazes de
mobilizar seus recursos e ser mais capacitadas a apresentar múltiplas e diversas perspectivas para
resolver problemas (Hanneman & Riddle, 2005). Quanto mais elevado o coeficiente de variação, mais
heterogênea a população quanto à influência e proeminência, no que se refere à quantidade de laços
que um ator possui com outro.
PROPOSIÇÃO 3. Os programas que apresentaram maior número de laços, no primeiro triênio,
possivelmente também exerceram maior grau de influência nas respostas desenvolvidas ao modelo de
avaliação estabelecido pela Capes, naquele período.
Programas centrais estão mais propensos a serem mimetizados, pois as organizações tendem a imitar
aquelas que lhes parecem mais bem-sucedidas ou que apresentam maior legitimidade (DiMaggio &
Powell, 1991). Esse comportamento também pode ser associado ao pilar cultural-cognitivo de Scott
(2001), cuja legitimidade proveniente está baseada na adoção de ações percebidas como certas (taken
for granted) e significados aceitos pelo ambiente, como condição necessária para a sobrevivência das
organizações. Então, parece cabível supor o seguinte.
PROPOSIÇÃO 4. Os programas que apresentam maior centralidade na rede (USP, UFRGS, FGVRJ,
FGV-SP, UFMG, PUC-MG, UFPE, PUC-PR, PUC-RJ, PUC-SP, UPM, UNISINOS, FURB,
UFRJ, UFBA, UFPR, UNINOVE, UNIFACS), provavelmente, foram mais mimetizados do que
aqueles com menor centralidade, no primeiro triênio, pelo fato de serem os mais centrais na rede.
Conforme menciona Moody (2004), a centralidade de grau pode explicar as razões pelas quais
alguns pesquisadores conseguem disseminar de modo mais rápido suas ideias no ambiente acadêmico.
Autores que possuem muitos cooperadores são também considerados os mais influentes (Burt, 1992;
Moody, 2004). Dessa forma, pressupõe-se o seguinte.
PROPOSIÇÃO 5. No primeiro triênio, os programas com maior número de laços, (USP; UFRGS;
FGV-RJ; FGV-SP; UFMG; PUC-MG; UFPE; PUC-PR; PUC-RJ; PUC-SP; UPM e UNISINOS)
provavelmente foram também os mais influentes nas respostas à avaliação da Capes naquele período.
A tabela a seguir refere-se à centralidade de grau e à centralidade de intermediação dos programas
pesquisados em relação ao segundo triênio. A tabela apresenta o índice de centralidade de grau dos
programas no período de 2004-2006, em que se relaciona a quantidade de laços de cada programa e o
percentual de cada programa em relação aos laços possíveis existentes na rede. Também estão
relacionados nesta tabela os índices de centralidade de intermediação de cada programa no período
supramencionado, que se refere à posição ocupada por um ator em relação a outros pares de atores na
rede, conforme explicação anterior na descrição da tabela 5.
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Tabela 6
Centralidades de Grau e de Intermediação dos Programas (2004-2006)
FREEMAN'S DEGREE CENTRALITY MEASURES FREEMAN BETWEENNESS CENTRALITY
Un-normalized centralization: 2941.578
Degree NrmDegree Share Betweenness nBetweenness
32 USP 20.000 64.516 0.093 32 USP 105.549 22.699
2 FGV-SP 17.000 54.839 0.079 2 FGV-SP 59.808 12.862
19 UFRGS 15.000 48.387 0.069 19 UFRGS 46.658 10.034
7 PUC-PR 11.000 35.484 0.051 15 UFMG 33.555 7.216
15 UFMG 11.000 35.484 0.051 1 FGV-RJ 32.847 7.064
1 FGV-RJ 10.000 32.258 0.046 7 PUC-PR 29.435 6.330
5 FURB 10.000 32.258 0.046 18 UFPR 14.197 3.053
6 PUC-MG 9.000 29.032 0.042 12 UFBA 14.106 3.033
12 UFBA 8.000 25.806 0.037 17 UFPE 13.061 2.809
18 UFPR 8.000 25.806 0.037 6 PUC-MG 12.950 2.785
31 UPM 8.000 25.806 0.037 5 FURB 11.950 2.570
30 UNISINOS 7.000 22.581 0.032 20 UFRJ 11.873 2.553
17 UFPE 7.000 22.581 0.032 10 PUC-SP 10.099 2.172
11 UEM/UEL 7.000 22.581 0.032 11 UEM/UEL 8.778 1.888
20 UFRJ 6.000 19.355 0.028 31 UPM 7.346 1.580
28 UNINOVE 6.000 19.355 0.028 28 UNINOVE 4.067 0.875
9 PUC-RS 6.000 19.355 0.028 14 UFLA 3.454 0.743
10 PUC-SP 6.000 19.355 0.028 21 UFRN 3.201 0.688
DESCRIPTIVE STATISTICS DESCRIPTIVE STATISTICS
Degree NrmDegree Share Betweenness nBetweenness
1 Mean 6.750 21.774 0.031 1 Mean 13.625 2.930
2 Std Dev 4.430 14.290 0.021 2 Std Dev 21.900 4.710
3 Sum 216.000 696.774 1.000 3 Sum 436.000 93.763
4 Variance 19.625 204.214 0.000 4 Variance 479.593 22.180
5 SSQ 2086.000 21706.557 0.045 5 SSQ 21287.463 984.505
6 MCSSQ 628.000 6534.859 0.013 6 MCSSQ 15346.963 709.768
7 Euc Norm 45.673 147.331 0.211 7 Euc Norm 145.902 31.377
8 Minimum 0.000 0.000 0.000 8 Minimum 0.000 0.000
9 Maximum 20.000 64.516 0.093 9 Maximum 105.549 22.699
Network Centralization = 45.59% Network Centralization Index = 20.41%
Heterogeneity = 4.47%. Normalized = 1.39%
Nota. Fonte: dados da pesquisa
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Os programas que apresentaram maior índice de centralidade (da primeira à quarta posição) foram
os programas da USP; FGV-SP; UFRGS e PUC-PR, seguidos de outros programas com índices
também significativos. Na discussão das relações formadas por meio das redes, admite-se que os
atores considerados mais centrais também sejam os mais influentes, conforme já foi dito
anteriormente. Sendo assim, infere-se o seguinte.
PROPOSIÇÃO 6. Provavelmente, no segundo triênio, os programas (USP, FGV-SP, UFRGS,
PUC-PR, UFMG, FGV-RJ, FURB, PUC-MG) exerceram maior influência sobre os programas com os
quais se relacionaram, e responderam de modo semelhante, independentemente do tipo de resposta: se
é aquiescência, acordo, evasão, desafio, ou manipulação.
Os programas que não estão descritos na tabela 6 e que apresentam cinco laços são: UFRN, UNB e
UFSC; com quatro laços: UFRRJ, PUC-RJ e UFLA; com três laços: UNISANTOS, UNESA e FPL, e
com dois laços: FJP, UFES, UNIFACS e UNIFOR. Programas com baixo número de conexões
tendem a responder mais lentamente, independentemente do tipo de resposta. Já os programas com
maior quantidade de conexões e maior densidade tendem a formar redes mais robustas com maior
capacidade de responder rapidamente e efetivamente.
PROPOSIÇÃO 7. No triênio 2004-2006, possivelmente os programas da UFRN, UNB, UFSC,
UFRRJ, PUC-RJ, UFLA, UNISANTOS, UNESA, FPL, FJP, UFES, UNIFACS e UNIFOR
responderam mais lentamente às exigências da Capes do que os programas da USP, FGV-SP, UFRGS,
PUC-PR, UFMG, FGV-RJ, FURB, PUC-MG UFBA, UFPR, UPM, UNISINOS, UFPE, UEM/UEL,
UFRJ, UNINOVE, PUC-RS, PUC-SP
As ligações mais curtas (com distância geodésica menor) entre os atores significam que os atores são
mais influentes ou mais centrais. Desse modo, conhecer o número de laços e a distância entre eles em
uma rede é muito importante à compreensão das restrições e oportunidades do indivíduo e contribui
para entender o comportamento da rede como um todo. Levando em consideração que maior
quantidade de ligações significa também maior influência, propõe-se o que segue:
PROPOSIÇÃO 8: Os programas da USP, FGV-SP, UFRGS, PUC-PR, UFMG, FGV-RJ, FURB,
PUC-MG UFBA, UFPR, UPM, UNISINOS, UFPE, UEM/UEL, UFRJ, UNINOVE, PUC-RS, PUCSP,
possivelmente foram mais influentes nas respostas do que os programas da UFRN, UNB, UFSC,
UFRRJ, PUC-RJ, UFLA, UNISANTOS, UNESA, FPL, FJP, UFES, UNIFACS e UNIFOR no
segundo triênio.
Respostas do tipo desafio e manipulação têm ocorrência mais provável, quando o grau de
interconexão organizacional no ambiente institucional é baixo (Oliver, 1991): programas que
apresentaram menor índice de conexão estão mais propensos a oferecer as respostas acima
mencionadas. Os programas que apresentaram baixa conexão foram os da PUC-RS, UEM/UEL,
UFRRJ, UFLA (2001-2003), UNIFACS (2004-2006), UNISANTOS, UNESA, FPL, FJP, UFES,
UNIFOR e UFPB (nos dois triênios). Então, pressupõe-se o seguinte:
PROPOSIÇÃO 9. Os programas vinculados à UNISANTOS, UNESA, FPL, FJP, UFES, UNIFOR
e UFPB (em maior grau), UEM/UEL, UFRRJ, UFLA, UNIFACS (em menor grau), possivelmente,
apresentaram, no segundo triênio, respostas estratégicas do tipo desafio e manipulação.
Ressaltamos que não se pode afirmar que todos os programas vinculados por meio das co-autorias
aos de baixa conexão apresentaram esse mesmo tipo de respostas (desafio e manipulação), tendo em
vista que existem programas com alto grau de centralidade ligados a esses, e com maior tendência a
oferecer respostas de aquiescência e de conformidade.
A Figura 3 refere-se aos índices de densidade e coeficiente de agrupamento das redes de cooperação
dos programas. A densidade é definida como força média de todos os laços possíveis (Acedo, Barroso,
Casanueva, Galán, 2006; Hanneman & Riddle, 2005; Nooy, Mrvar, & Batagelj, 2005). A medida da
densidade contribui para a formulação de proposições sobre as informações que circulam pela rede. Já
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o coeficiente de agrupamento é a medida da densidade local. O índice varia de 0 a 1; quanto mais
próximo de 1, maior agrupamento local. Essas medidas provêm insights e contribuem para a
elaboração de novas proposições.
0
0,05
0,1
0,15
0,2
0,25
0,3
UFPB
UFPE
UNB
FGV-SP
FJP
UFBA
PUC-RJ
UFRJ
UFRGS
UFRRJ
UFMG
PUC-SP
UEM/UEL
UNIFACS
FPL
UNIFOR
UNISINOS
PUC-MG
UFES
UFSC
UFPR
UPM
PUC-RS
UFRN
UNESA
UFLA
PUC-PR
UNISANTOS
FURB
UNINOVE
USP
Densidade 2001-2003 Densidade 2004-2006 Coef. Agrup. 2001-2003 (*10) Coef. Agrup. 2004-2006 (*10)
Figura 3. Densidade e Coeficiente de Agrupamento dos Programas
Em relação ao coeficiente de agrupamento, é importante frisar: aqueles programas que estão isolados
ou que não fazem parte de nenhum clique apresentam coeficiente de agrupamento 0. Clique é um
aglomerado de nós conectados entre si, relacionado com a mutualidade dos laços relacionais: medir
até que ponto as escolhas de indivíduos, imersas em subgrupo, são mútuas.
Redes densas possuem distâncias geodésicas menores, o que indica que as informações tendem a
fluir mais rapidamente. No caso das redes difusas, as distâncias são maiores e as informações nessas
redes fluem mais lentamente. As populações com alta densidade respondem diferentemente aos
desafios do ambiente do que aquelas que apresentam baixa densidade.
Maior densidade denota maiores alternativas de ação como também suas maiores limitações. O
programa da USP é o único que no primeiro período obteve maior densidade que a densidade da rede.
Já no segundo triênio foram quatro os programas que apresentaram densidade maior que a densidade
da rede, USP, UNINOVE, UNISANTOS e FURB. Isso significa o seguinte.
PROPOSIÇÃO 10. Programas com densidade interna mais alta, como os da USP, UPM, UFLA,
UNIFOR, UNINOVE, UNISINOS, FURB, UFMG, UNISANTOS, UFRN, UFRJ, PUC-MG e PUCPR,
provavelmente responderam com maior velocidade aos critérios de avaliação da Capes que os
demais programas, no primeiro triênio. No segundo triênio, provavelmente os programas da USP,
UNINOVE, UNISANTOS, FURB, PUC-PR, UFLA, UNESA, UFRN, PUC-RS, UPM, UFPR, UFSC,
UFES, PUC-MG, UNISINOS, UNIFOR, FPL, UNIFACS, UEM/UEL, PUC-SP e UFMG
responderam mais rapidamente às pressões advindas da avaliação da Capes.
É importante salientar que onde o grau de densidade é menor haverá sempre respostas não coesas,
independentemente das respostas. Consideramos respostas dos programas não coesas entre si, e
também não coesas às pressões e orientações provenientes da CAPES. Assim:
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PROPOSIÇÃO 11. No primeiro triênio, os programas da UNB, UFES, PUC-SP, UFRRJ, FJP,
UFPR, UFRGS, FPL, UFSC, PUC-RS, UEM/UEL, UFBA, PUC-RJ, UFPE, FGV-SP, UNIFACS,
FGV-RJ, UNESA e UFPB, por possuírem níveis mais baixos de densidade, provavelmente ofereceram
respostas não coesas ou respostas não coerentes entre si. Já no segundo triênio, aqueles que
provavelmente ofereceram respostas não coesas foram os programas da UFRRJ, UFRGS, UFRJ, PUCRJ,
UFBA, FJP, FGV-SP, UNB, UFPE, FGV-RJ e UFPB.
Os atores centrais de uma rede densa tenderão a ser muito influentes naquela rede. No caso dos
programas, se esses atores são vinculados à Capes como membros do comitê avaliador, então é de se
esperar que os programas nesta rede aquiesçam mais em relação aos critérios estabelecidos pela
Capes. A comissão de avaliação da Capes de 2004 (que avaliou os programas no triênio 2001-2003)
foi composta por professores vinculados às seguintes instituições de ensino superior: INC (2
docentes); FGV/SP (2 docentes); FUCAPE (1 docente); PUC/SP (2 docentes); UFPR (2 docentes);
UNB (1 docente); e UPM (2 docentes). O comitê avaliador de 2007 (que avaliou o triênio 2004-2006)
foi formado por professores pertencentes a: FGV/RJ (1 docente); FGV/SP (2 docentes); FURB (1
docente); PUC/MG (1 docente); PUC/PR (1 docente); PUC/RS (1 docente); UFBA (1 docente); UFLA
(1 docente); UFMG (1 docente); UFPE (2 docentes); UFPR (1 docente); UFRGS (1 docente); UFRJ (1
docente); UFRN (1 docente); UFSC (1 docente); UNB (3 docentes); UNICENP (1 docente);
UNISINOS (1 docente); UPM (1 docente); USP (3 docentes). A relação com os nomes dos docentes
pertencentes ao comitê de avaliação da Capes de 2004 e 2007 está contida nos formulários (ficha de
avaliação) dos programas avaliados.
Dentre os programas que apresentaram maior densidade e que apresentam, em seu quadro de
professores, representantes no comitê avaliador da Capes, estão os programas da UPM com dois
docentes, referente ao primeiro triênio; da USP com três docentes, e os programas da FURB, PUC-PR,
UFLA, UFRN, PUC-RS, UPM, UFPR, UFSC, PUC-MG, UNISINOS, e UFMG com um docente
membro do comitê avaliador em cada programa referente ao segundo triênio. Desse modo, é
admissível supor o seguinte.
PROPOSIÇÃO 12. Os programas da UPM (no primeiro triênio), e da USP, FURB, PUC-PR,
UFLA, UFRN, PUC-RS, UPM, UFPR, UFSC, PUC-MG, UNISINOS, UFMG (no segundo triênio)
provavelmente aceitaram, em maior grau, as exigências provenientes da Capes, oferecendo respostas
de aquiescência e compromisso.
Apesar da baixa conexão da PUC-RS com outros programas, estamos supondo resposta de
aquiescência e compromisso, porque há, vinculado a esse programa, um professor membro do comitê
avaliador. O desvio padrão é também uma fonte de informação sobre o modo de pensar de cada ator.
Os atores com poucos ou muitos laços externos têm menor variabilidade de respostas do que aqueles
com níveis médios de laços. Isto significa que tais atores são mais previsíveis no seu comportamento
do que aqueles com números intermediários de laços. De certo modo, os atores com muitos laços (no
centro de uma rede) e atores na periferia de uma rede (poucos laços) têm modelos de comportamento
mais limitados (restritos) e previsíveis. Organizações que usam estratégias semelhantes àquelas
adotadas por outras são vistas tanto pelos reguladores como pela sociedade como sendo mais
legitimadas do que aquelas que utilizam um comportamento diferente do padrão (Carstens &
Machado-da-Silva, 2006). Os atores com poucos laços podem variar mais no seu comportamento; na
dependência de estarem conectados com estas ou aquelas entidades, terão maior tendência a responder
diferentemente do padrão predominante nos programas centrais da rede. Sendo assim, é provável o
que segue.
PROPOSIÇÃO 13. Os programas considerados periféricos (com menor número de laços e mais
afastados do centro da rede) têm menor probabilidade de serem mimetizados, porquanto as
organizações estão mais propensas a imitar aquelas que lhes parecem ter maior legitimidade
(DiMaggio & Powell, 1991).
PROPOSIÇÃO 14. Possivelmente aqueles que apresentaram poucos laços no primeiro período,
como os programas da PUC-RS, UEM/UEL, UFRRJ, UFLA, UNISANTOS, UNESA, FPL, FJP,
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UFES, UNIFOR, UFPB e os programas da UNISANTOS, UNESA, FPL, FJP, UFES, UNIFACS,
UNIFOR e UFPB, no segundo triênio, ofereceram respostas diferentes (respostas do tipo evasão,
desafio ou manipulação) do padrão predominante (respostas de aquiescência e compromisso) nos
programas centrais.
CONCLUSÕES
De uma perspectiva longitudinal, propôs-se nesse estudo, a partir da análise da rede de co-autorias
formada por professores dos programas de pós-graduação em administração descrever e analisar as
mudanças ocorridas na configuração estrutural dessas redes e elaborar proposições institucionais das
prováveis respostas estratégicas, fundamentadas, especialmente na tipologia de Oliver (1991) e nas
especificidades da análise de redes oferecidas à avaliação da Capes pelos programas considerados.
A configuração relacional e estrutural da rede foi obtida a partir da análise de redes, com a utilização
dos softwares UCINET 6.0 (Borgatti et al., 2002) e PAJEK 1.10 (Batagelj & Mrvar, 2005). A
metodologia utilizada constitui uma das diversas possibilidades existentes para análise. Faz-se
necessário verificar também outros fatores que exercem influência nas relações sociais entre os
programas que influenciam também e podem justificar a escolha das respostas estratégicas.
Na concepção de Scott (2001) os atores (no caso os programas brasileiros de pós-graduação stricto
sensu em administração), pertencentes ao mesmo campo, tendem a aceitar as mesmas crenças e aderir
a elas, o que condiciona suas ações. Desse modo, é plausível inferir que programas que interagem
entre si por meio de co-autorias com seus docentes e pesquisadores tendem a desenvolver padrões
cognitivos e interpretativos semelhantes e, consequentemente, a responder também de modo
semelhante.
Programas com maior índice de centralidade de grau estão mais propensos a oferecer respostas de
aquiescência aos critérios da Capes e, provavelmente, a influenciar a resposta daqueles programas que
mantêm relações diretas com eles. Programas que possuem muitos cooperadores são considerados os
mais influentes na capacidade de disseminar ideias e informações. A pesquisa constatou queda no
índice da centralidade de intermediação de um triênio para o outro, em relação a alguns programas, o
que provavelmente indica perda de poder de controle sobre as relações entre os atores (programas).
Esse fato pode ter ocorrido por causa de alguns fatores, tais como: a criação de novos relacionamentos
de co-autoria com professores pertencentes a programas não pesquisados, entrada e credenciamento de
novos programas de pós-graduação na área e, consequentemente, o estabelecimento de novas relações
com esses programas.
O acompanhamento da Capes, além de avaliar os programas e de indicar suas potencialidades e
pontos fracos, funciona também como balizador para distribuição de recursos financeiros aos alunos
de mestrado e doutorado (Machado-da-Silva, 2003). Um dos critérios mais importantes para a
avaliação do Programa é a produção acadêmica, cujas relações de co-autorias podem ser utilizadas
como indicador de produção, o que, por sua vez, constitui fator relevante para acesso direto ou indireto
aos recursos. Da perspectiva da dependência de recursos, uma organização será conduzida também por
seus próprios interesses, a fim de reduzir a incerteza, conflito e instabilidade (Oliver, 1991). Nessa
perspectiva, as organizações manipulam o ambiente em benefício próprio, exercendo papel ativo em
face das forças ambientais (Rossetto & Rossetto, 2005).
As interações podem ainda rejeitar ou reforçar pressões institucionais advindas da Capes por meio
da avaliação trienal desses programas. Assim, os resultados apresentados fornecem subsídios
necessários para concluir que existem diferentes respostas oferecidas pelos programas, na sua maioria
representadas por ações de aquiescência e compromisso. Por outro lado, é necessário chamar a atenção
para o fato de que a menção a possíveis respostas estratégicas de rejeição, em algum grau, dos padrões
e orientações avaliativas da CAPES não pode e não deve ser interpretada como negativa, em termos
Cristiane Marques de Mello, João Marcelo Crubellate, Luciano Rossoni
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absolutos. Se tais respostas de fato se efetivaram naqueles triênios analisados, elas certamente não
ultrapassaram o limite do que o Estado e o campo definem como legalmente legítimo ou nem sequer
foram intensas, a ponto de arriscar a existência daqueles programas. Não se pode desconsiderar o fato,
aceito no âmbito da própria teoria institucional e de outras teorias organizacionais, de que criatividade
e geração de ações e soluções alternativas estão relacionadas a respostas de rejeição, em algum grau,
das estruturas institucionais existentes. Essa tensão entre manutenção e mudança é, mesmo do ponto
de vista institucional, comum à maioria dos campos sociais e dá origem à dinâmica entre forças pró e
contra mudanças, além de definir os graus e os ritmos de mudança.
Como direção para pesquisas futuras, faz-se necessário, conforme sugerem Selltiz, Jahoda, Deutsch
e Cook (1975), verificar se as proposições elaboradas a partir da investigação exploratória têm
aplicabilidade geral. A provável aceitação dos padrões de desempenho exigidos poderá ser confirmada
por meio de investigações específicas, tanto quantitativa como qualitativamente. Outros estudos
poderiam ser realizados, visando, além de descrever, também interpretar as respostas estratégicas
efetivamente adotadas pelos programas, a partir das suposições aqui levantadas. As relações, aqui
estabelecidas, entre cooperação e co-autoria devem ser testadas por outros estudos, visando a
investigar os processos de mútua influência e transferência de informações, básicos para entendimento
da elaboração de respostas estratégicas. O esforço inicial desta pesquisa foi no sentido de analisar a
importância das redes estabelecidas entre os pesquisadores da Administração, no período aqui
investigado, e não reproduzir as características relacionais de redes da mesma natureza em outros
contextos acadêmico-científicos, em outras áreas científicas do país e de outros países. Espera-se que
os pressupostos aqui estabelecidos possam constituir a base inicial para novas pesquisas empíricas que
possibilitem melhor compreensão do processo da recursividade entre o ambiente institucional e as
ações organizacionais.
NOTA
1 Clique é uma sub-rede ou subgrafo completo de três ou mais nós, em que todos os pontos estão diretamente
conectados (Nooy et al., 2005; Wasserman & Faust, 1994).
REFERÊNCIAS
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organizational studies: an empirical and network analysis. Journal of Management Studies,
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Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de Fiscalização da Controladoria-Geral da União

Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no
Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de Fiscalização da
Controladoria-Geral da União
The Relationship between Amendments to the Federal Budget Law and Municipal
Corruption in Brazil: Evidence from Reports of the Brazilian Internal Audit Agency
Antonio Carlos de Azevedo Sodré *
Doutorando em Finanças, Massachusetts Institute of Technology, EUA.
Maria Fernanda Colaço Alves
Doutoranda em Administração Pública, UnB.
Analista de Finanças e Controle da Controladoria-Geral da União.
* Endereço: Antonio Carlos de Azevedo Sodré
MIT Sloan School of Management, 50 Memorial Drive, E52-416, Cambridge, MA 02142. E-mail: sodre@mit.edu
Copyright © 2010 RAC. Todos os direitos, inclusive de tradução, são reservados. É permitido citar
parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de
Fiscalização da Controladoria-Geral da União
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RESUMO
Estudos recentes sobre corrupção (Elliott, 2002; Klitgaard, 1988; Rose-Ackerman, 2002) indicam relação significativa
entre transferência intergovernamental de recursos orçamentários via emendas parlamentares e incidentes de
corrupção nas instâncias locais de governo. Quatro são as explicações, não excludentes, para a existência desta
correlação: (i) aumento no ganho potencial do ato corrupto; (ii) aumento do poder discricionário local; (iii) aumento
da pressão de rent-seekers e; (iv) conluio com corrupção federal. Utilizando dados do Programa de Fiscalização a
partir de Sorteios Públicos da Controladoria-Geral da União, o presente trabalho busca estudar as relações existentes
entre emendas parlamentares e os episódios de corrupção municipal no Brasil. A análise formal estatística, que utiliza
uma série de variáveis de controle sociodemográficas e político-partidárias de interesse, sugere que, em média,
municípios que recebem emendas parlamentares apresentam uma incidência 25% maior de episódios de corrupção. Os
resultados indicam que os eventos de corrupção municipal se correlacionam mais com o fato de o município receber
ou não emendas parlamentares (quantidade de emendas) e menos com o volume de recursos repassados. Neste
sentido, o estudo apontaria as explicações (iii) e (iv) para a questão central da pesquisa.
Palavras-Chave: corrupção; municípios; orçamento federal; emendas parlamentares.
Abstract
Previous studies on corruption (Elliott, 2002; Klitgaard, 1988; Rose-Ackerman, 2002) present the relationship
between amendments and municipal corruption. Four nonexclusive explanations for the correlation are discussed: (i)
the growing potential gains of corruption; (ii) the number of transactions under the control of the local government;
(iii) the pressure from groups of private rent-seekers and; (iv) revenue transfers might be the result of collusion
between local governments and federal congressmen. Using data from the Controladoria-Geral da União (Brazilian
Internal Audit Agency) Anticorruption Program based on the random auditing of municipal government’s
expenditures, we study the relationship between amendments to the Brazilian Federal Budget Law and municipal
corruption. On average, after controlling for a series of socio-economic and political variables, cities granted with
revenue transfers derived from amendments have corruption rates that are 25% higher than the rest of the sample.
Although our empirical results indicate that the increase in corruption occurs when the municipalities receive
extraordinary revenue transfers, corruption seems to be insensitive to the amount of resources transferred. Such
findings give more support to explanations (iii) and (iv).
Key words: corruption; municipalities; federal budget; budget amendments.
Antonio Carlos de Azevedo Sodré, Maria Fernanda Colaço Alves
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INTRODUÇÃO
O tema corrupção tem justificadamente permeado cada vez mais as discussões sobre políticas públicas no
Brasil. Nos últimos anos, não faltaram episódios de escândalos políticos envolvendo graves suspeitas de
desvio de recursos em detrimento do interesse público, causando sério descrédito da população em relação
à atuação do Estado e sua capacidade de controlar a gestão da coisa pública.
Tal tema deve, porém, ser analisado com cautela. A corrupção não é privativa do Brasil ou de países em
desenvolvimento. Estudos recentes demonstram tratar-se de fenômeno decorrente, principalmente, de
fragilidades institucionais, que prejudicam a accountability ou a efetividade do controle sobre a gestão
pública.
Este estudo tem por objetivo analisar uma destas fragilidades institucionais brasileiras: a insuficiência de
controle sobre a aprovação e execução de emendas parlamentares do orçamento federal. Esta falha resulta
em distorção de um dos principais instrumentos de descentralização de recursos aos governos locais e
corrobora com a persistência da corrupção no país.
Diversos episódios de escândalos recentes sugerem ligação entre transferências orçamentárias via
emendas parlamentares e corrupção no Brasil. O escândalo dos chamados anões do orçamento foi um dos
primeiros, após a promulgação da Constituição de 1988, a chamar a atenção para as fragilidades existentes
na forma de confecção do orçamento federal por meio de emendas parlamentares.
Em 1993, o então chefe da Comissão do Orçamento do Congresso Nacional denunciou esquema de
corrupção que envolveu parlamentares acusados de incluir emendas no Orçamento da União para
enriquecimento ilícito. Por envolver, em sua maioria, parlamentares de pequena estatura, o escândalo ficou
conhecido como anões do orçamento. As acusações incluíam o direcionamento de verbas para entidades
filantrópicas ligadas a parentes e laranjas, e o recebimento de propina, por prefeituras e empreiteiras, para
a inclusão de verbas orçamentárias para a realização de obras. As denúncias foram investigadas por
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Essa investigação resultou em seis parlamentares cassados, oito
absolvidos e quatro que renunciaram ao mandato.
Caso mais recente reforça como ainda são extremamente frágeis suas formas de controle. Descoberto pela
Controladoria-Geral da União [CGU] em 2006, a máfia das ambulâncias, como ficou conhecida, contava
com uma quadrilha que negociava com congressistas a liberação de emendas destinadas a Municípios
específicos, cujos prefeitos já haviam sido aliciados pelo grupo, para compra de ambulâncias. Tendo
recursos garantidos, licitações municipais eram fraudadas e os preços superfaturados, gerando ganhos
ilícitos ao parlamentar federal, aos dirigentes municipais e às empresas prestadoras de serviço. A Comissão
Parlamentar de Inquérito formada investigou mais de 90 parlamentares envolvidos.
A despeito destes e outros diversos escândalos de corrupção brasileiros que poderiam ser citados, não há
estabelecimento de uma relação precisa entre o fenômeno da corrupção e emendas parlamentares ao
orçamento federal. A relação parece deixada ao campo da especulação e investigação de casos esporádicos,
que são, muitas vezes, usados mais com intuito político-partidário do que como forma de aprimoramento da
gestão pública.
Este estudo procura responder às seguintes questões: Qual a real relação entre emendas parlamentares ao
orçamento e corrupção no âmbito municipal? Governos locais que recebem emendas tendem a ter uma
gestão mais corrupta, ou todos os Municípios têm gestões similares e simplesmente aqueles que receberam
emendas tem suas práticas indevidas mais evidenciadas, quando a corrupção vira escândalo a ser noticiado
nos meios de comunicação de massa? Caso haja relação entre os fenômenos, quais as explicações
possíveis?
Com base em amostra dos relatórios do Programa de Fiscalização a partir de Sorteios Públicos da
Controladoria-Geral da União [CGU], e utilizando estatísticas descritivas, teste de hipótese para diferenças
Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de
Fiscalização da Controladoria-Geral da União
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de médias e análises de regressão, são analisadas as relações existentes entre emendas parlamentares e
episódios de corrupção no âmbito municipal.
A seção 2 apresenta os principais conceitos sobre corrupção. A seção 3 relaciona corrupção à gestão
pública ineficiente e falta de accountability. A relação entre emendas parlamentares ao orçamento e o
debate de quatro fatores que explicam, de forma não exaustiva, a relação entre corrupção e emendas são
apresentados na seção 4. A escolha metodológica, os dados utilizados e os resultados da análise quantitativa
são descritos nas seções 5 e 6 respectivamente. Por fim, a seção 7 apresenta as considerações finais do
estudo.
O FENÔMENO DA CORRUPÇÃO
Usualmente entendida como abuso da função pública em benefício privado (Organização das Nações
Unidas [ONU], 2003), ou ainda, séria violação de padrões ou expectativas associadas à administração
pública (Johnston, 2002), a corrupção pública abrange atos como pagamento de obras com objeto
inexistente, superfaturamentos, direcionamento de licitações, celebração de convênios irregulares, dentre
muitas outras possibilidades. Seus custos mais graves não são necessariamente os subornos e propinas em
si, mas as distorções decorrentes de negociações realizadas com recursos públicos que deixam em segundo
plano o benefício social (Rose-Ackerman, 2002).
Publicação recente do Índice de Percepção da Corrupção da organização Transparência Internacional, que
avalia a percepção de empresários e analistas de governo quanto à existência e ao grau de corrupção em
diversos países, demonstra que o Brasil está atrás de países com igual ou pior indicadores de atividade
econômica, como Uruguai, Colômbia, Cuba, Costa Rica e África do Sul (Lambsdorff, 2005). Mesmo
considerando as corretas alegações de que a percepção de corrupção é afetada pela intensificação de seu
combate, a pesquisa reitera a gravidade do problema no país.
Maior é esta gravidade quando se leva em conta que, quanto mais generalizada é a percepção de
corrupção, maiores são os incentivos percebidos pelos indivíduos para se engajarem em atos corruptos
(Cartier-Bresson, 1998). Além disso, ao favorecer os inescrupulosos e aqueles que dispõem de maior rede
de contatos em detrimento daqueles que têm maior eficiência produtiva, a corrupção deforma os papéis
alocativo e redistributivo do Estado, prejudicando sua legitimidade política (Rose-Ackerman, 2002).
Mauro (1995) sugere uma correlação negativa entre crescimento econômico nacional e altos índices de
corrupção e outras medidas de ineficiência governamental. Embora a relação causal seja de difícil
estabelecimento, há consenso entre pesquisadores e governantes de que o controle da corrupção é de
extrema importância no desenvolvimento político, econômico e social.
Entretanto o mesmo consenso não se repete no que se refere a definições de políticas anticorrupção
eficientes. Uma das causas deste fato está no pequeno número de pesquisas empíricas sobre o tema, capazes
de dar clareza às causas e formas de manifestação da corrupção no país e, portanto, de melhor direcionar as
políticas públicas sobre o assunto.
Embora haja poucas pesquisas empíricas rigorosas sobre o tema (Jos, 1993), houve, nos últimos anos,
desenvolvimento de trabalhos diversos em busca da aferição indireta do impacto da corrupção (Bardhan,
1997). O avanço no refinamento dos estudos voltados ao marco teórico e às causas da corrupção, como foi
desenvolvido por Treisman (2000), tem propiciado avanços no referencial para a reflexão sobre o impacto
das estratégias desenvolvidas para sua prevenção e combate.
No Brasil, ainda são raros os estudos empíricos sobre o tema, apesar da evolução recente. Ferraz e Finan
(2008) mostram que prefeitos municipais corruptos têm menores chances de se reelegerem. Weber (2006) e
Zambioni Filho e Litschig (2006) documentam uma correlação negativa entre corrupção municipal e
presença de associações comunitárias e Poder Judiciário respectivamente. Nenhum destes estudos, todavia,
aponta a possível causa da corrupção.
Antonio Carlos de Azevedo Sodré, Maria Fernanda Colaço Alves
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CORRUPÇÃO E GESTÃO PÚBLICA INEFICIENTE
Conceito correlato à corrupção, porém não idêntico, é o de irregularidades de gestão, isto é, o menosprezo
das legislações pertinentes e das boas práticas administrativas. As constatações de irregularidade são
apontadas nos relatórios de fiscalização da Controladoria-Geral da União em Municípios brasileiros.
Dentre as irregularidades apontadas tem-se a comprovação de despesas com notas fiscais inidôneas,
compras sem procedimento licitatório, realização de pagamentos indevidos, falta de controle dos
beneficiários de programas sociais, pagamentos sem total realização do objeto, falta de divulgação de
licitações e outros atos administrativos, falta de prestação de contas, entre muitas outras.
Tais irregularidades indicam a falta de controle sobre os recursos recebidos e despendidos. Demonstram,
neste sentido, deficiências de accountability ou responsabilização horizontal, realizada por meio de
controles recíprocos entre os poderes; e accountability vertical, relacionada ao controle dos cidadãos.
Significa, portanto, falta de controle dos cidadãos e do próprio governo sobre os atos públicos e, por
consequência, dificuldade de responsabilização dos agentes ímprobos (O’Donnell, 1998, 2005).
As deficiências podem ser decorrentes de disfunções gerenciais ou atos propriamente delituosos contra o
erário público; ambos trazem prejuízo aos recursos públicos, mas diferenciam-se em relação à
intencionalidade dos agentes. De qualquer forma, há que se perceber que a segunda hipótese raramente
ocorre sem a primeira.
De forma exemplificativa, parece possível que uma compra sem licitação seja realizada numa situação
emergencial, em que a gestão municipal avalie como melhor opção não cumprir a legislação no caso
específico, mas garantir o suprimento do produto com presteza, em benefício da população.
Por outro lado, parece inteiramente factível também que a compra à revelia da legislação e, portanto, sem
qualquer transparência ou prestação de contas satisfatória, se dê para beneficiar agentes públicos e
privados, que negociam preços acima de mercado e desviam parte dos recursos para fins individuais.
Assim, compreende-se que nem todas as irregularidades de gestão possam ser denominadas corrupção
propriamente dita, ou seja, atos deliberados de fraude e desvio de recursos. No entanto as irregularidades
apontam falta de controle adequado da administração dos recursos municipais e descaso das boas práticas
de gestão. Este descaso ou ineficiência na gestão acobertam a corrupção e com ela coadunam, quando não a
incitam, porquanto, dificultam a accountability e facilitam a ação de agentes corruptores.
A falta de capacidade técnica das instâncias governamentais em promover uma gestão efetiva e bem
controlada parece ainda mais evidente nas instâncias municipais, que possuem, em geral, quadro de
servidores precário, ou seja, com menor capacitação e maior rotatividade.
Não obstante esta dificuldade operacional, parece claro também que políticos eleitos e servidores
ansiosos por aproveitar-se de recursos públicos de forma ilegal se utilizam da falta de capacidade gerencial
do Município como instrumento facilitador de transações ilícitas.
Assumindo-se alta correlação entre as possíveis causas da corrupção e grande dificuldade de verificação a
priori da intencionalidade do agente, assume-se que ambas as disfunções podem ser entendidas como
eventos de corrupção no sentido amplo para fins deste estudo.
Ainda assim, leve-se em consideração que, embora de forma lenta e gradual, as ferramentas de
transparência, accountability e aprimoramento da gestão pública estão sendo cada vez mais difundidos não
só no mundo (Pina & Torres, 2003), mas também no país (Loureiro, Teixeira, & Prado, 2008).
Esta tendência talvez possibilite, daqui a alguns anos, a diferenciação mais clara de intenção entre
Municípios que têm uma gestão ineficiente, mas procuram aprimorar-se, daqueles que não demonstram
tanto interesse em tornar sua gestão eficiente e transparente, porque se utilizam da ineficiência como
ferramenta, ou ao menos escudo, para a realização de ações ilegais em benefício privado.
Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de
Fiscalização da Controladoria-Geral da União
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 2, pp. 414-433, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
419
De qualquer forma, tanto os riscos de ineficiência da gestão quanto da má fé de agentes podem ser
mitigados por meio da manutenção de controles efetivos. Entende-se por controle efetivo aquele que
fornece razoável segurança de execução da política pública de forma ordenada, ética, econômica, eficiente
e efetiva. Isto significa que a gestão pública deve ter sempre em vista o cumprimento dos requisitos de
prestação de contas, cumprimento dos normativos aplicáveis e salvaguarda de recursos, evitando-se perdas
ou desperdícios (International Organization of Supreme Audit Institutions [INTOSAI], 2004).
CORRUPÇÃO E EMENDAS PARLAMENTARES
Emendas parlamentares são transferências intergovernamentais, ou seja, descentralizações de recursos
federais, acrescidas à Lei Orçamentária Anual por solicitações de parlamentares individuais, bancadas ou
comissões. Trata-se de despesas federais: (i) não-vinculadas, ou seja, de finalidade não previamente
determinada; (ii) extraordinárias, ou seja, que não constituem um fluxo contínuo e; (iii) voluntárias ou
negociáveis, discricionárias (Secretaria do Tesouro Nacional [STN], 2006).
Emendas parlamentares são, portanto, um instrumento constitucional (artigo 166, parágrafos 2º a 4º da
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (Constituição do Brasil, 2007)), que visa a inserir o
Congresso Nacional nas discussões acerca do planejamento do orçamento federal e descentralizar
voluntariamente recursos a instâncias locais com maior proximidade das demandas sociais.
Entretanto há posições dissonantes em relação à pertinência do instrumento. Alguns defendem
irrestritamente a existência de emendas parlamentares como parte legítima de um sistema de representação
democrática, buscando evitar que o poder legislativo tenha papel meramente coadjuvante na definição da
peça mais importante do planejamento federal.
Outros ressaltam a necessidade de descentralização de recursos em si, uma vez que os Municípios
brasileiros são, em última instância, os responsáveis pelo bem-estar e qualidade de vida da população que
neles reside. Sobre eles recai uma ampla gama de demandas sociais que contrasta com a distribuição pouco
descentralizada da arrecadação nacional, na qual os Municípios ficam com a menor parcela. Neste sentido,
a obtenção de recursos complementares seria vital à gestão local.
Por outro lado, há argumentos pela extinção das emendas parlamentares, justificados pela dificuldade de
fiscalização e grande quantidade de escândalos sobre malversação dos recursos advindos de emendas nas
últimas décadas. Pires (2005) estuda os incentivos ao uso de emendas parlamentares individuais no Brasil
como moeda de troca de favores entre os poderes executivo e legislativo federais, muitas vezes em
detrimento do interesse público.
Posições mais moderadas entendem a importância do instrumento, tanto pela participação do Congresso
no planejamento federal quanto pela necessidade de descentralização de recursos; no entanto defendem o
aumento da transparência e do controle das emendas parlamentares. Não há consenso, porém, sobre a forma
ou estrutura de controle necessária.
Neste trabalho especula-se que uma das causas que contribuem para o aumento da corrupção é a
existência de transferências de recursos financeiros federais na forma de emendas parlamentares sem o
devido controle da sua gestão, configurando grave falha institucional.
É sabida a existência de inúmeras formas de irregularidades e corrupção atreladas a emendas
parlamentares, conforme episódios já ressaltados neste estudo. Pesquisa realizada por Fleischer e Manzeti e
Blake sugere que, durante o mandato do presidente Collor de Mello, as comissões ilícitas derivadas de
contratos públicos cresceram de 10 a 15% para 30 a 50% no país (Rose-Ackerman, 2002). Muito
provavelmente boa parte destes contratos públicos derivou de emendas orçamentárias.
Por outro lado, ao contrário do que possa transparecer, relacionar a questão da corrupção às emendas
parlamentares para além da especulação não é um assunto trivial. Corrupção e escândalo são coisas
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totalmente diferentes e ambas podem ocorrer uma na ausência da outra, muitas vezes com intuito politizado
controverso (Johnston, 2002).
A interface dos setores público e privado sucita diversas oportunidades de ganhos econômicos advindos
de atos corruptos. Segundo Rose-Ackerman (2002), a incidência e o nível de corrupção dependem
basicamente de três pontos principais: benefício potencial do ato para o transgressor, o risco de ser
descoberto e punido e o poder relativo entre corruptores e corrompidos.
Klitgaard (1988) resume bem o que considera aspectos-chave da corrupção: (i) monopólio, ou seja, baixa
competição entre setor público e privado e mesmo dentro dos setores: competição política no público;
competição econômica no privado; (ii) poder, entendido como o poder discricionário dado aos servidores
públicos e políticos; (iii) prestação de contas, que se refere às formas de controle e fiscalização a que os
atos de governo estão sujeitos.
Unindo os conceitos de Rose-Ackerman (2002) e Klitgaard (1988), Elliott (2002) acrescenta ainda que a
corrupção entre servidores públicos não elegíveis e agentes privados tende a ser menor do que quando
envolve agentes políticos elegíveis.
Assim, tomando por base estes estudos, foi possível identificar pelo menos quatro fatores causais, não
excludentes entre si, que racionalizam uma estreita relação entre corrupção municipal e recebimento de
recursos federais voluntários via emendas parlamentares, e que potencialmente apoiam os resultados
empíricos apresentados neste estudo.
Aumento no Ganho Potencial do Ato Corrupto
Para determinada faixa de recursos envolvidos ou de quantidade de transações corruptas necessárias, o
risco do negócio corrupto é o mesmo, visto que a probabilidade de ser pego e as possíveis punições podem
ser pensadas como razoavelmente constantes.
Em outras palavras, no Brasil, incrementos no ganho potencial do ato corrupto não são necessariamente
acompanhados por um aumento da punição aos envolvidos caso o ato seja descoberto. Assim, um ato
corrupto compensa mais quanto maior forem os recursos envolvidos e, portanto, maior a possibilidade de
remuneração dos participantes. Além disso, a ampliação de recursos disponíveis pode aumentar o número
de transações entre o setor público e o privado, ampliando a possibilidade de atos irregulares.
Emendas parlamentares implicam recursos voluntários extras para os governos locais. Caso os gestores
recebam estes recursos, mas não tenham a obrigação de manter o devido acompanhamento nem sofram
ameaças críveis de que haverá fiscalização eficiente, estes verão aumentada em muito sua tentação à
corrupção.
Aumento do Poder Discricionário Local
O recebimento de recursos extras gera aumento no poder discricionário do gestor. Afinal, este terá um
montante maior para aplicar na compra de bens ou na contratação de serviços e terá que,
discricionariamente, determinar quais serão os contratados, isto é, os receptores finais dos recursos federais.
Grande parte dos Municípios brasileiros tem recursos humanos pouco qualificados e práticas ruins de
gestão que não primam pela competência e pelo controle interno da administração. Desta feita, o aumento
do poder discricionário, sem a devida assistência quanto à melhor forma de sua aplicação e sem o controle
necessário, tende a gerar corrupção e ineficiência crescentes no governo local.
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Fiscalização da Controladoria-Geral da União
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Aumento de Pressão de Rent-seekers
O aumento de recursos municipais está associado a uma maior quantidade de bens e serviços a serem
adquiridos para repasse à população, tais como a construção de uma escola ou a compra de equipamentos
hospitalares.
A administração municipal passa então a ser pressionada pelo mercado ofertante destes bens e serviços,
principalmente quando se trata de grandes organizações ofertantes, tais como grandes empresas
empreiteiras. É possível que estas, sabendo da existência do repasse extraordinário de recursos, busquem
cooptar a administração local para extrair renda ilícita. Por exemplo, uma das formas de pressão é o
oferecimento de vantagens indevidas aos gestores locais para que determinada empresa vença a competição
pelo fornecimento de determinado bem, ou para que o preço do serviço seja superfaturado etc.
Há ainda outras razões para o pagamento de suborno: incluir determinada empresa no rol de habilitados a
licitar, organizar especificações de produtos e serviços que favoreçam um fornecedor específico na
licitação, autorizar cobrança de preços inflacionados dos usuários de serviços, diminuir os requisitos de
qualidade e segurança do produto ou serviço prestado, dentre outras (Rose-Ackerman, 2002).
Conluio com a Corrupção Federal
Os recursos das emendas podem ser fruto de corrupção em âmbito federal. Neste caso, os parlamentares
corruptos tenderão a escolher os Municípios que receberão emendas a partir da análise da gestão que tem
maior propensão a participar do conluio (isto é, aceitar participar de esquema ilícito), seja porque a gestão
local é sabidamente corrupta seja porque é despreparada.
Exemplificativamente, quando um parlamentar coopta determinada empresa corruptora para executar
uma obra em determinada localidade com recursos de emendas destinadas a um Município, é factível que
esta administração local se deva coadunar com o ato corrupto praticado. Somente desta forma será possível
garantir que tal empresa vencerá uma possível licitação.
Tal empresa contratada poderia cobrar preços superfaturados, economizar em itens de qualidade, dentre
outras possibilidades de atos ilícitos, de forma a retirar dali os recursos necessários para pagamento de
propinas aos agentes públicos envolvidos. Isto somente seria possível com a anuência dos agentes
municipais responsáveis pelo controle primário do repasse, seja porque estes deliberadamente concordam
com o fato ou porque têm uma gestão pública falha que não é capaz de identificar o desvio iminente.
ANÁLISE EMPÍRICA
Este estudo investiga a relação entre emendas parlamentares e corrupção por meio de pesquisa empírica
na qual foram analisados 240 Municípios. A indicação de grau de corrupção municipal, obtida por meio dos
Relatórios de Fiscalização produzidos em 2006 e 2007 pelo Programa de Fiscalização a partir de Sorteios
Públicos da CGU, foi comparada ao recebimento ou não de emendas parlamentares nos dois anos anteriores
à fiscalização. A comparação foi realizada por meio da análise descritiva dos dados, de teste de hipótese
para diferenças de médias e de análise de regressão.
Os itens seguintes desta seção descrevem em detalhe os dados da corrupção municipal, recebimento de
emendas parlamentares e outros dados relevantes.
Dados sobre a corrupção municipal
O programa de fiscalização da CGU, instituído em 2003, avalia a gestão de recursos públicos federais
repassados a Municípios, evidenciando possíveis irregularidades de gestão e indícios de desvio de recursos
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(CGU, 2006). A escolha dos Municípios é feita aleatoriamente por meio do mecanismo de sorteio utilizado
pela Caixa Econômica Federal para loterias federais, eliminando possíveis vieses amostrais decorrentes de
eventual ligação entre a execução de auditorias e o recebimento de emendas parlamentares. A cada evento
de sorteio são identificados 60 Municípios com até 500 mil habitantes a serem fiscalizados.
Nos municípios de até 20 mil habitantes são analisados os recursos relacionados a todas as áreas
programáticas do governo, enquanto em Municípios entre 20 e 500 mil habitantes são analisadas as áreas de
Educação, Assistência Social e Saúde, além de duas outras sorteadas em cada evento (CGU, 2006).
Todas as informações referentes a repasses de verbas federais à localidade, além de informações sobre
convênios firmados, denúncias recebidas e suspeitas de irregularidades apontadas pela mídia são levantadas
previamente. As ações de fiscalização em campo (na localidade) duram em média uma semana; em geral,
analisam recursos repassados nos dois últimos exercícios financeiros.
Os analistas de finanças e controle da CGU, após levantamento junto à população local sobre indícios de
práticas irregulares, iniciam a análise de convênios, licitações, notas fiscais de compras, inspeção física de
obras realizadas, funcionamento de órgãos de controle tais como o Conselho de Educação, entrevistas do
público beneficiário de alguns programas de governo, entre outras verificações (CGU, 2006). No final do
processo, é produzido um Relatório de Fiscalização de cada Município, que contém todas as constatações
de irregularidades encontradas.
O fato de o universo do Programa de Fiscalização contemplar somente Municípios de pequeno e médio
porte (até 500 mil habitantes) causa impacto positivo à pesquisa, visto que neste universo amostral o efeito
renda das emendas parlamentares recebidas é maior e de mais fácil percepção.
Para esta pesquisa foram analisados, na íntegra, os 240 Relatórios de Fiscalização produzidos pelos 20º,
21º, 22º e 23º Sorteios realizados em 2006 e 2007. Relatórios anteriores não foram utilizados por conter
metodologias diferentes de apresentação de medidas de corrupção, sem quantificação e tipificação de
constatações, o que impossibilita uma análise comparativa.
A quantidade de constatações de irregularidade, quantidade de problemas administrativos e a quantidade
de problemas graves são utilizadas neste estudo como medida de corrupção na gestão municipal.
Embora não haja diferenciação formalizada pela instituição de controle entre problemas administrativos e
graves, a análise dos relatórios evidencia que problemas administrativos são aqueles em que resta bem
evidenciado o descumprimento de obrigações legais quanto à formalização de processos, documentação de
contratos e pagamentos etc., ou ainda problemas relacionados ao questionamento da eficiência
administrativa. Em termos gerais, trata-se de problemas que devem ser sanados em prol da eficiência
administrativa e como facilitador do controle, mas que não constituem casos de prejuízo ao erário.
Já os problemas graves são aqueles que envolvem indícios de prejuízos e fraudes decorrentes de atos
impróprios, tais como licitações forjadas, superfaturamento de despesas, objetos inexistentes etc.
Como mostra a Tabela 1, em média, o número de constatações foi de 53,73 por município (mediana
45,5), o número de problemas graves foi de 5,73 (mediana 2) e o número de problemas administrativos foi
de 15,01 (mediana 9).
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Tabela 1
Estatísticas Descritivas – Corrupção, Emendas Parlamentares e Índices Sócio-demográficos
Média Desvio-
Padrão Mediana Mínimo Máximo
Corrupção
Constatações
Problemas Graves
Problemas Administrativos
Recursos Federais Auditados (R$mil)
53,75
5,73
15,01
6.720,44
34,04
8,49
16,64
14.000,00
45,5
2
9
2.970,29
3
0
0
52,67
249
47
109
171.000,00
Emendas Parlamentares
Recursos Autorizados (R$mil)
Recursos Liquidados (R$mil)
665,92
492,21
3.221,83
2.127,16
80,00
20,00
0
0
3.350,00
1.930,00
Variáveis Sociodemográficas
População (milhares)
Índice de Desenvolvimento Humano
Índice de Desenvolvimento Humano (Educação)
Índice de Desenvolvimento Humano (Longevidade)
Índice de Gini
Intensidade de Pobreza
Percentual de Pobreza (%)
Renda Per Capita (R$)
26,75
0,69
0,78
0,71
0,56
53,18
48,86
159,22
60,68
0,08
0,09
0,08
0,06
9,94
22.34
89,47
10,04
0,70
0,79
0,71
0,56
53,73
50.33
141,69
7,95
0,51
0,58
0,51
0,43
21,69
8.34
44,09
461,53
0,84
0,94
0,88
0,73
82,01
86,97
503,34
Competições Políticas
Percentual de Votos do Atual Prefeito nas Eleições
de 2004 (1º. Turno) 54,76 11,81 53,21 29,53 100
Nota. Fonte. Corrupção: fiscalizações de 03/2006 a 05/2007 (Controladoria-Geral da União. (2007). Relatórios de fiscalização de sorteios
de municípios nº 742 a 964. [Relatório Técnico]. Brasília: Secretaria Federal de Controle Interno. Recuperado em 11 novembro, 2007, de
http://www.cgu.gov.br/sorteios/index1.asp). Emendas parlamentares: emendas à LOA em 2004 a 2006, sob modalidade de aplicação 40
(Senado Federal. (2008). LOA – 2005/2006/2007 – Execução de emendas por localidade. Brasília: Senado Federal. Recuperado em 5
fevereiro, 2008, de http://www8.senado.gov.br/businessobjects/enterprise115/desktoplaunch/InfoView/main/headerPlus.do?objId=0).
Índice de Desenvolvimento Humano: 2000 (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. (2003). Atlas do desenvolvimento
humano no Brasil – Municipal 1991 e 2000. [Relatório Técnico]. Brasília: PNUD. Recuperado em 5 fevereiro, 2008, de
http://www.pnud.org.br/atlas/tabelas/). População: 2000 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2001). Censo demográfico 2000.
[Relatório Técnico]. Rio de Janeiro: IBGE. Recuperado em 2 fevereiro, 2008, de http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1).
Renda per capita: 2004 e demais variáveis sociodemográficas: 2003 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2003) Mapa de
pobreza e desigualdade – Municípios brasileiros – 2003. [Relatório Técnico]. Rio de Janeiro: IBGE. Recuperado em 2 fevereiro, 2008, de
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1). Competições Políticas (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2004).
Representação política – 2004. [Relatório Técnico]. Rio de Janeiro: IBGE. Recuperado em 2 fevereiro, 2008,
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1).
A Figura 1 demonstra que 66% dos Municípios fiscalizados têm entre 20 e 50 constatações de corrupção,
enquanto aqueles que receberam menos de 20 ou mais de 80 constatações não ultrapassam 15% dos casos.
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0 5 10 15 20
%
0 50 100 150 200 250
Problemas
0 10 20 30 40
%
0 50 100
Problemas Administrativos
0 20 40 60
%
0 20 40 60
Problemas Serios
Figura 1. Histogramas – Variáveis: Medidas de Corrupção
Fonte: Fiscalizações de 03/2006 a 05/2007 (Controladoria-Geral da União. (2007). Relatórios de fiscalização de sorteios de
municípios nº 742 a 964. [Relatório Técnico]. Brasília: Secretaria Federal de Controle Interno. Recuperado em 11 novembro, 2007,
de http://www.cgu.gov.br/sorteios/index1.asp).
Grande parte das constatações, porém, não se encontra classificada entre problemas administrativos ou
graves, porque a orientação do órgão de fiscalização é de que esta classificação somente deve ser indicada
quando houver razoável certeza pelo auditor de tratar-se de um caso de irregularidade formal (problema
administrativo), ou de fraude e desvio planejado (problema grave).
Há, portanto, constatações que envolvem questões de falha institucional, constatações entendidas em
princípio como mais significativas ou graves do que irregularidades formais (problemas administrativos) e
menos graves do que atos dolosos contra a administração pública (problemas graves).
A figura 1 demonstra que mais de 80% dos Municípios receberam entre 0 e 20 constatações de problemas
administrativos e mais de 90% receberam entre 0 e 20 constatações de problemas graves. Logo, a
distribuição das variáveis problemas graves e problemas administrativos na amostra é muito mais
concentrada em valores abaixo de 20 do que a variável quantidade de constatações. Nota-se que 78 (32,5%)
dos Municípios não tiveram nenhum problema grave identificado e 29 (7%) não apresentaram nenhum
problema administrativo. Nenhum dos Municípios da amostra deixou de apresentar constatação de
irregularidade.
Dados sobre Emendas Parlamentares
Os dados sobre a formulação e execução das emendas orçamentárias foram extraídos do Sistema Siga
Brasil, disponibilizado pelo Senado Federal, que reúne informações de diversas bases de dados sobre
planos e orçamentos públicos, incluindo o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo
Federal [SIAFI].
São consideradas emendas parlamentares a municípios todas as emendas à LOA propostas por comissão,
bancada ou parlamentares individuais aplicadas como transferências diretas a municípios (modalidade de
aplicação 40). Constituem a amostra todas as emendas parlamentares autorizadas para os exercícios
orçamentários de dois anos anteriores à fiscalização, pertencendo, portanto, ao período de análise da CGU.
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Para municípios sorteados em 2006, coletaram-se os dados de emendas referentes a 2004 e 2005. Para
municípios sorteados em 2007, coletaram-se os mesmos dados referentes a 2005 e 2006.
As emendas foram consideradas conforme dois diferentes status. O primeiro considera todas as emendas
autorizadas na LOA. O segundo status exclui aquelas emendas autorizadas mas não executadas no
orçamento, considerando para este fim a sua liquidação.
Portanto a análise considera a variável valor autorizado das emendas como o montante da dotação
efetivamente aprovado pelo Congresso Nacional e pelo Poder Executivo. Já a variável valor liquidado
considera o valor orçamentário comprometido, independentemente do valor autorizado inicialmente e de
outros recursos destinados à mesma classificação funcional-programática. Neste último caso o intuito é
diferenciar os valores aprovados daqueles recursos que potencialmente foram repassados à gestão
municipal.
Assim, entre os 240 Municípios da amostra, 120 (50%) receberam emendas (sob o status liquidado) em
pelo menos um dos dois anos antes da fiscalização. Uma importante característica dos dados é que, em
média, o valor dos recursos federais liquidados, via emenda nos dois anos anteriores ao sorteio, é
relativamente pequeno em comparação com recursos federais auditados pela CGU. Como indicado na
Tabela 1, enquanto a média dos recursos autorizados (liquidados) foi de R$ 665,92 mil (R$ 492,21 mil), a
média dos recursos federais fiscalizados pelas auditorias atingiu R$ 6.720,44 mil.
Considerando apenas as municipalidades que receberam pelo menos uma emenda no biênio anterior à
fiscalização, os municípios receberam, em média, 3,72 emendas, no valor total médio de R$ 984,44,
quantia correspondendo a aproximadamente R$ 30,65 por habitante.
Outros Dados
Em adição às variáveis de repasse de recursos via emenda parlamentar e de corrupção discutidas
anteriormente, foi coletada uma série de variáveis sociodemográficas (Índice de Desenvolvimento Humano
e seus componentes, intensidade de pobreza, percentual de pobres na população, Índice de Gini municipal e
renda per capita) e variáveis relacionadas com o nível de competição político-partidária municipal
(percentual de votos válidos recebidos pelo prefeito nas eleições de 2004 e partido do prefeito). A Tabela 1
também mostra as estatísticas descritivas para as variáveis de controle coletadas.
Estas variáveis são utilizadas nas análises de regressão discutidas a seguir para controlar fatores
correlacionados com o recebimento de emendas parlamentares e o nível de corrupção. Por exemplo, seria
natural que os congressistas buscassem alocar recursos federais via emendas parlamentares para localidades
mais pobres e de menor desenvolvimento social. No entanto também é razoável pensar que Municípios com
gestores corruptos tendam a ser mais pobres. Caso esta relação fosse desconsiderada nas análises, os
resultados obtidos poderiam ser viesados.
Da mesma maneira, pode-se conjecturar que um menor nível de competição municipal esteja relacionado
com o nível de corrupção da gestão local. Quanto menor a ameaça de outros partidos ou grupos políticos ao
atual prefeito, menor a pressão da oposição em fiscalizar os atos da administração municipal.
Adicionalmente, se recursos federais, advindos de emendas no orçamento, potencialmente podem ajudar o
grupo político atualmente detentor da administração municipal a manter-se no poder, então congressistas,
de acordo com suas alianças locais, poderiam lutar para que emendas sejam enviadas para municípios nos
quais a posição dos seus aliados políticos é constantemente ameaçada pela ação de grupos políticos rivais.
RESULTADOS
A análise estatística é baseada em testes de hipótese para diferença de médias e análises de regressão. A
amostra foi dividida em 2 grupos. Em cada caso, a média e o desvio-padrão das variáveis número de
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constatações, problemas administrativos e problemas graves de cada grupo foram estimados e o seguinte
teste de hipóteses foi conduzido:
0
0 1 2 H =μ −μ =
vs.
0
1 1 2 H =μ −μ > (1)
no qual μ
1 é a média estimada do grupo 1 e μ
2 é média estimada do grupo 2. A estatística de teste é a t de
Student com n-1 graus de liberdade (onde n é o número total de observações nos dois grupos).
Primeiramente, a amostra foi dividida em Municípios que não receberam nenhuma emenda em 2004/05
ou 2005/06 (Grupo 2) e Municípios que receberam pelo menos uma emenda em 2004/05 ou 2005/06
(Grupo 1). A Tabela 2 mostra que Municípios que receberam emendas nos dois anos anteriores à
fiscalização receberam, em média, 25% a mais de constatações, além de 49% a mais de problemas graves e
26% a mais de constatações de problemas administrativos.
Tabela 2
Testes de Hipóteses e Estatísticas Descritivas: Municípios que Receberam Emendas vs. Municípios
que não Receberam
Média
(desvio padrão) Mediana
Total
Municípios
que receberam
emendas
Municípios que
não receberam
emendas
Diferença de
Médias Total
Municípios
que receberam
emendas
Municípios que
não receberam
emendas
Número de
Municípios 240 128 112 – 240 128 112
Número de
Constatações
53,75
(34,04)
59,12
(36,57)
47,63
(29,88) 11,49*** 45,50 51,00 44,00
Problemas
Graves
5,73
(8,49)
6,49
(10,18)
4,36
(5,75) 2,58*** 2,00 2,50 2,00
Problemas
Administrativos
15,01
(16,25)
16,66
(18,42)
13,13
(14,20) 3,52** 9,00 9,00 9,0
Nota. Fonte. Número de constatações, problemas graves e problemas administrativos: fiscalizações de 03/2006 a 05/2007
(Controladoria-Geral da União. (2007). Relatórios de fiscalização de sorteios de municípios nº 742 a 964. [Relatório Técnico].
Brasília: Secretaria Federal de Controle Interno. Recuperado em 11 novembro, 2007 de http://www.cgu.gov.br/sorteios/index1.asp).
Emendas parlamentares: emendas à LOA em 2004 a 2006, sob modalidade de aplicação 40 (Senado Federal. (2008). LOA –
2005/2006/2007 – Execução de emendas por localidade. Brasília: Senado Federal. Recuperado em 5 fevereiro, 2008, de
http://www8.senado.gov.br/businessobjects/enterprise115/desktoplaunch/InfoView/main/headerPlus.do?objId=0).
Teste t de Hipótese para igualdade de médias: *** rejeita-se a hipótese nula de que as médias são iguais a 1% de significância, **
rejeita-se a hipótese nula de que as médias são iguais a 5% de significância e *rejeita-se a hipótese nula de que as médias são iguais
a 10% de significância.
Em Municípios que não receberam emendas foi observado, em média, 11,49 constatações, 3,52
problemas administrativos e 2,56 problemas graves a menos que municípios que receberam pelo menos
uma emenda. Para a variável quantidade de constatações e problemas graves, rejeita-se a hipótese nula de
que as médias dos dois grupos são iguais com 99% de confiança e, no caso das constatações de problemas
administrativos rejeita-se a mesma hipótese com 95% de confiança.
A análise foi estendida para verificar se a quantidade de recursos recebidos afeta a propensão à corrupção.
Ressalta-se que algumas explicações para a existência de relação entre recebimento de emendas e
corrupção, em discussão neste trabalho, especialmente o aumento do poder discricionário local e o aumento
da pressão de rent-seekers, casos relevantes, não são discrepantes com uma relação positiva entre recursos
descentralizados via emendas e corrupção.
Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de
Fiscalização da Controladoria-Geral da União
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Ao se definir o Grupo 1 como Municípios que receberam mais de uma emenda e Grupo 2 aqueles que
receberam uma ou nenhuma emenda e efetuar o teste de hipótese para diferença de médias, a diferença de
médias se mantém com pelo menos 5% de significância.
Todavia, dividindo a amostra entre Municípios que recebem mais de R$ 224 mil em emendas (mediana
da variável valor pago em emendas) como Grupo 2 e o resto da amostra como Grupo 1 e efetuando o teste
de hipótese descrito em (1) para as variáveis de corrupção, os resultados para diferença de média não se
mantém. O mesmo se repete ao delimitar como Grupo 2 os Municípios que receberam valores per capita de
emendas acima de R$ 18,09 e como Grupo 1 o restante da amostra (Tabela 3).
Tabela 3
Testes de Hipóteses: Análise de Sensitividade
Média (desvio padrão)
Total Municípios
que
receberam
mais de 1
emenda
Municípios
que
receberam
1 ou 0
emendas
Diferença
de
Médias
Municípios
que
receberam
mais de
R$ 224 mil†
em emendas
Municípios
que
receberam
menos de
R$ 224 mil†
em emendas
Diferença
de
Médias
Municípios
que
receberam
mais de
R$19,04±
per capita
em emendas
Municípios
que
receberam
menos de
R$ 19,04±
per capita
em emendas
Diferença
de
Médias
Observações 240 84 156 – 60 180 – 61 179 –
Número de
Constatações
53,75
(34,04)
60,38
(38,09)
50,19
(31,19) 10,16** 62,02
(42,48)
51,00
(30,36) 11,02* 59,72
(41,46)
51,72
(30,98) 8,00
Problemas
Graves
5,73
(8,49)
7,61
(10,30)
4,72
(7,16) 2,88* 6,52
(9,13)
5,47
(8,27) 1,04 5,82
(8,68)
5,70
(8,44) 0,12
Problemas
Administrativos
15,01
(16,65)
17,76
(16,74)
13,56
(16,46) 4,23* 18,88
(18,12)
13,72
(15,97) 4,23* 15,86
(17,20)
14,72
(16,49) 0,94
Nota. Fonte. Número de constatações, problemas graves e problemas administrativos: fiscalizações de 03/2006 a 05/2007
(Controladoria-Geral da União. (2007). Relatórios de fiscalização de sorteios de municípios nº 742 a 964. [Relatório Técnico].
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Recuperado em 2 fevereiro, 2008, de http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1).
Teste t de Hipótese para igualdade de médias: *** rejeita-se a hipótese nula de que as médias são iguais a 1% de significância, **
rejeita-se a mesma hipótese nula a 5% de significância e *rejeita-se a mesma hipótese nula 10% de significância. † Valor mediano
(± Valor mediano per capita) do repasse via emendas, considerando apenas os municípios que receberam pelo menos uma emenda.
A análise de diferenças de médias indica que Municípios que recebem emendas parlamentares tendem a
ter mais episódios de corrupção; todavia a quantidade de recursos liquidados não parece afetar
significativamente o nível de corrupção. Tal conclusão é corroborada pela análise de regressão, que
apresentamos abaixo.
Para cada variável de corrupção (quantidade de constatações, problemas graves e problemas
administrativos), estimou-se seguinte modelo de regressão linear,
i i i i corrupcao =α +α ×emenda +η ×controles +ε 0 1 (1)
no qual corrupção equivale a uma das medidas de corrupção no Município i, emenda é uma medida
associada ao recebimento de emendas pelo Município i e i
ε
é o componente aleatório. Utilizam-se duas
medidas associadas ao recebimento de emendas: (i) uma variável categórica, que assume valor 1, se o
Município recebeu pelo menos uma emenda no biênio anterior à fiscalização e 0 caso contrário e; (ii) a
quantidade de recursos recebidos via emendas nos biênio anterior à fiscalização.
Antonio Carlos de Azevedo Sodré, Maria Fernanda Colaço Alves
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428
O coeficiente de interesse 1
α
é associado à variável de emenda. Quando a variável categórica assume
valor 1 se o Município i recebeu emenda e 0 no caso contrário, 1
α
expressa a diferença no nível de
corrupção médio, fixadas as outras variáveis independentes. Quando a variável de emenda utilizada é a
quantidade de recursos recebidos (em R$ mil), 1
α
indica a variação quanto ao nível de corrupção médio,
fixadas outras variáveis de controle, dado que um Município recebe R$1.000 a mais em emendas.
Controles corresponde a um vetor de variáveis sociodemográficas e políticas a saber: (i) população; (ii)
Índice de Desenvolvimento Humano (educação e longevidade); (iii) Índice de Gini; (iv) intensidade de
pobreza; (v) percentual de pobres na população; (vi) renda per capita; (vii) percentual de votos válidos no
primeiro turno das eleições do prefeito eleito; e (viii) um conjunto de variáveis categóricas, que assume
valor 1, se o prefeito é de determinado partido e 0 caso contrário. Desta forma, controla-se para os
principais fatores sociodemográficos e político-partidários que podem afetar simultaneamente o
recebimento de emendas (ou o seu valor) e o nível de corrupção.
A tabela 4 mostra os resultados dos modelos econométricos para a variável categórica de emenda. O
coeficiente da variável de emendas na regressão com número de constatações como variável dependente é
da ordem de 11,37, significativo a 1%. De fato, o tamanho do coeficiente é bastante próximo daquele
achado no exercício de diferenças de média (11,49 – Tabela 2).
Tabela 4
Modelo de Regressão Linear – Variável Categórica de Recebimento de Emendas e Quantidade de
Recursos Transferidos via Emenda Parlamentar
Variável Dependente Variável Dependente
Constatações
(1)
Problemas
Administrativos
(2)
Problemas
Graves
(3)
Constatações
(4)
Problemas
Administrativos
(5)
Problemas
Graves
(6)
Variável Categorica
de recebimento de
emendas (Colunas (1)-
(3)) / Quantidade de
Emendas Recebidas
em R$ mil (Colunas
(4)-(6)).
11,37
(4,41)***
2,68
(1,18)**
3,25
(2,49)
0,001
(0,003)
0,0001
(0,0005)
0,001
(0,001)
População (milhares) 0,14
(0,10)
0,02
(0,02)
0,05
(0.04)
0,13
(0.09)
0,02
(0,02)
0,03
(0,05)
IDH: Educação -36.42
(46,46)
3,46
(12,07)
10,22
(26,08)
-34,09
(47,32)
3,54
(12,42)
11,92
(26,43)
IDH: Longevidade 56,06
(56,20)
5,60
(11,67)
30,97
(29,59)
34,10
(57,08)
0,29
(11,74)
25,00
(28,24)
Índice de Gini 4,25
(53.80)
0,61
(13,70)
-14,12
(29.13)
15,88
(54,26)
3,45
(13,72)
-11,01
(28,43)
Intensidade de
Pobreza
0,03
(0,24)
0,02
(0,07)
0,10
(0,12)
0,09
(0,22)
0,03
(0,07)
0,13
(0,12)
Percentual de Pobres
na População
0,66
(0,45)
0,15
(0,12)
0,27
(0,29)
0,44
(0,45)
0,10
(0,11)
0,20
(0,27)
Continua
Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de
Fiscalização da Controladoria-Geral da União
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429
Tabela 4 (continuação)
Variável Dependente Variável Dependente
Constatações
(1)
Problemas
Administrativos
(2)
Problemas
Graves
(3)
Constatações
(4)
Problemas
Administrativos
(5)
Problemas
Graves
(6)
Renda Per Capita 0,02
(0,09)
0,00
(0,02)
0,00
(0,05)
-0,02
(0,09)
-0,01
(0,02)
-0,01
(0,05)
Percentual de Votos
Válidos dos Prefeitos
Eleitos no 1o. turno
0,27
(0,18)
-0,06
(0,05)
0,07
(0,10)
0,26
(0,17)
-0,06
(0,05)
0,05
(0,06)
Dummies para
Partido do Prefeito? Sim
R² 0,26 0,18 0,13 0,24 0,16 0,13
Número de
Observações 240
Nota. Fonte. Corrupção: fiscalizações de 03/2006 a 05/2007 (Controladoria-Geral da União. (2007). Relatórios de fiscalização de sorteios
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*=significante a 10%, **=significante a 5%, ***=significante a 1%. Todas as regressões contém uma constante. Erros-padrões robustos a
heterocedasticidade reportados entre parênteses.
Isto indica que, mesmo controlando uma série de características municipais relevantes, Municípios que
recebem emendas apresentam cerca de 25% a mais de constatações de irregularidade do que aqueles que
não recebem recursos desta maneira. O coeficiente também é significativo estatisticamente para problemas
graves; seu tamanho também é considerável. O mesmo não ocorre somente com problemas administrativos.
Isto significa que os problemas administrativos, relativos a falhas formais menos graves, não parecem ter
relação com o recebimento de emendas. Já os problemas graves e constatações de irregularidades em geral
demonstram relação com o recebimento de emendas parlamentares. Finalmente, a mesma tabela mostra que
não existe relação estatisticamente significante entre a quantidade de recursos recebidos via emenda
parlamentar e corrupção nos Municípios analisados, conforme já sugerido pela análise de diferenças de
média.
Além disso, quando utilizamos como variável de emenda o volume de recursos liquidados, todos os
coeficientes são bastante reduzidos. Por exemplo, o coeficiente de 0,0001 obtido na regressão com a
variável dependente problemas graves indica que um aumento de R$ 1 milhão em emendas se associa, em
média, ao crescimento no número de problemas em cerca de 0,1.
De maneira geral, tanto os testes de hipótese como as análises de regressão indicam que existe uma
relação entre o nível de corrupção municipal e o recebimento de emendas parlamentares. Todavia a
corrupção não parece aumentar linearmente com a quantia recebida de emendas.
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Caso o aumento da corrupção fosse gerado pelo aumento no ganho potencial do ato corrupto ou pelo
aumento do poder discricionário local seria esperado que não somente o recebimento, mas o volume da
transferência, fosse correlacionado com o número de irregularidades. Desta forma, os resultados empíricos
deste estudo dão maior suporte as outras duas hipóteses levantadas: conluio com a corrupção federal e ação
de grupos privados rent-seekers.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo defende que uma das causas que contribuem para o aumento da corrupção é a existência de
transferências de recursos financeiros federais na forma de emendas parlamentares sem o devido controle
sobre sua gestão, configurando grave falha institucional.
A análise empírica demonstra a existência de relação entre transferências intergovernamentais via
emendas parlamentares e corrupção em Municípios brasileiros. Municípios que receberam recursos de
emendas parlamentares apresentaram, em média, 25% mais episódios de corrupção.
Embora o estudo não estabeleça, por meio das técnicas empregadas, uma relação causal entre emendas e
corrupção, os resultados apontam a urgente e necessária ampliação da transparência e do controle sobre as
aprovações e execuções de emendas parlamentares, sob pena de corroborar a persistência da corrupção no
país e perpetuar a distorção de um dos principais instrumentos de descentralização de recursos aos governos
locais.
A inexistência de accountability ou controle efetivo, com consequente aplicação de penalidades,
enfraquece o ideal democrático do governo, acirra o descrédito social em relação à atuação do governo e
impacta na sua governabilidade. Além disso, ao favorecer inescrupulosos e aqueles que dispõem de maior
rede de contatos, a corrupção deforma os papéis alocativo e redistributivo do Estado.
Porém não há consenso, entre governantes ou estudiosos, quanto à melhor estratégia para combater esta
situação. A análise das hipóteses explicativas apresentadas neste estudo, juntamente com os resultados
empíricos, contribuem neste processo, uma vez que possibilitam uma avaliação de potencial efetividade das
possíveis medidas a serem tomadas por meio da reflexão das hipóteses de relacionamento entre os fatores
emenda e corrupção.
Os dados demonstram que o aumento da corrupção parece estar mais relacionado ao fato de um
Município receber alguma emenda do que ao valor total das emendas repassadas a ele, mesmo quando este
valor é considerado em termos per capita. Isto corrobora o pressuposto de que embora as emendas
influenciem o grau de corrupção da gestão local, elas, por si sós, não a explicam em sua totalidade.
Adicionalmente, esta constatação possibilita analisar as hipóteses de relacionamento entre corrupção e
emendas parlamentares.
Dentre as quatro alternativas explicativas, não-excludentes entre si, de relacionamento entre emendas e
corrupção, apresentadas neste estudo, os resultados empíricos parecem dar maior suporte a duas hipóteses
explicativas levantadas: (iii) ação de grupos privados rent-seekers e (iv) conluio com a corrupção federal.
Por exemplo, se supomos que o aumento da corrupção advém de conluio com a corrupção federal, isto é,
do fato de parlamentares corruptos escolherem Municípios com uma administração corrupta ou facilmente
corruptível para serem os receptores de emendas, o simples fato de um Município ser selecionado para
receber uma emenda já seria suficiente para ser observado, em média, um maior índice de corrupção. Este
resultado independeria do valor efetivamente repassado.
Caso o aumento da corrupção fosse gerado (i) pelo aumento no ganho potencial do ato corrupto ou (ii)
pelo aumento do poder discricionário local, seria esperado que não somente o recebimento, mas o volume
da transferência fosse correlacionado com o número de irregularidades constatadas.
Relação entre Emendas Parlamentares e Corrupção Municipal no Brasil: Estudo dos Relatórios do Programa de
Fiscalização da Controladoria-Geral da União
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Não obstante não competir a este estudo uma análise aprofundada das estratégias de controle existentes
ou cabíveis, cabe pelo menos ilustrar a utilização dos resultados encontrados neste estudo para avaliação
das alternativas de controle das emendas parlamentares. Por exemplo, o aumento da transparência em
relação ao processo de proposição e aprovação das emendas seria grande auxílio no combate à pressão dos
grupos rent-seekers, que atuam por meio de lobby no Congresso, e na dissolução de corrupções articuladas
em nível federal, pois exporiam os agentes públicos ao controle por um maior número de instituições.
Outra estratégia de grande importância seria a fiscalização federal constante e concomitante da execução
das emendas. Esta fiscalização deveria não somente analisar individualmente as emendas e seus
instrumentos de execução, mas realizar cruzamentos de dados que permitissem a identificação de conluios
por área de governo, tipo de gastos previstos, propositor da emenda no Congresso etc.
A breve análise dos resultados do estudo tende a inferir que a alternativa de capacitação de agentes
públicos municipais não ataca tão diretamente o problema da corrupção via emendas parlamentares como
as alternativas descritas acima. Isto porque esta solução se relaciona mais fortemente às hipóteses i e ii, não
corroboradas pela análise empírica. Porém deve-se considerar que o estudo é limitado pela dificuldade de
diferenciação precisa entre irregularidades de gestão e corrupção propriamente dita, ou seja, de atribuição
de intencionalidade aos agentes. Neste sentido, a capacitação para o aprimoramento da gestão local pode
ser entendida como uma das alternativas mais importantes de combate à corrupção no âmbito de governo
local.
Não há estratégias única para o combate à corrupção, mesmo quando nos detemos num problema
específico, como o caso da disvirtualização do instrumento de emendas parlamentares. Deter-se, porém, na
análise pormenorizada de causas e relações com as estruturas e instituições de governo existentes facilita
em muito a busca de alternativas com maior potencial de efetividade.
Por fim, cabe destacar outras análises pertinentes relacionadas ao tema, mas que fogem ao escopo deste
estudo. Estas podem ser entendidas como uma indicação de agenda de possíveis estudos futuros. A
primeira, citada apenas superficialmente neste estudo, é a discussão dos programas de controle de recursos
em relação ao impacto e efetividade alcançados, o que depende, conforme argumentado, de um estudo mais
aprofundado sobre os mecanismos da corrupção.
Outro estudo pertinente seria a superação da dificuldade de verificação da intencionalidade do agente, por
meio de uma análise fenomenológica, de forma a separar constatações de má gestão pública daquelas de
desvios e fraudes intencionais.
Artigo recebido em 01.12.2008. Aprovado em 09.06.2009.
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Impactos da Participação Privada no Sistema Prisional: Evidências a partir da Terceirização de Prisões no Paraná

Impactos da Participação Privada no Sistema Prisional: Evidências
a partir da Terceirização de Prisões no Paraná
Impacts of Private Participation on Prison Services: Evidence from the Outsourcing of
Correctional Activities in Paraná State, Brazil
Sandro Cabral *
Doutor em Administração pela UFBA.
Professor Adjunto da UFBA, Salvador/BA, Brasil.
Sergio G. Lazzarini
Doutor em Administração pela Washington University, EUA.
Professor Associado do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo/SP, Brasil.
* Endereço: Sandro Cabral
Av. Reitor Miguel Calmon, s/n, 3º andar, Vale do Canela, Salvador/BA, 40110-903. Email: scabral@ufba.br
Copyright © 2010 RAC. Todos os direitos, inclusive de tradução, são reservados. É permitido
citar parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Sandro Cabral, Sergio G. Lazzarini
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 1, pp. 395-413, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
396
RESUMO
O presente trabalho objetiva discutir os impactos decorrentes da participação de atores privados na provisão de
serviços de utilidade pública, tomando como referência o processo de terceirização de prisões ocorrido no Estado
do Paraná. Em meio a uma perspectiva agente-principal, a partir de uma análise comparativa entre prisões
gerenciadas integralmente pelo poder público e prisões terceirizadas no período de 2001 a 2006, é possível
avaliar se a delegação de atividades a atores privados contribuiu para a melhoria do desempenho do sistema
prisional e, por consequência, analisar a eficácia das ações engendradas. De acordo com os referenciais teóricos
de suporte, as decisões estratégicas dos governos ao envolverem a participação privada no sistema prisional,
implicariam a redução dos custos em detrimento da qualidade dos serviços oferecidos. No entanto, contrariando
esta previsão, os resultados obtidos apontam que as unidades prisionais terceirizadas não somente apresentam
menores custos como também exibem melhor desempenho em aspectos de qualidade, em relação às prisões
públicas tradicionais. O estudo discute os possíveis mecanismos organizacionais que geram este resultado.
Palavras-chave: terceirização; sistema prisional; provisão de serviços públicos.
ABSTRACT
This paper aims to discuss the impacts of private companies on public service provision by analyzing the
outsourcing of prison services in Paraná State, Brazil. By using a principal-agent approach, the present work
compares privately operated prisons with traditional prisons wholly managed by the state 2001 to 2006. It
evaluates whether or not outsourcing impacted the performance indicators of prisons and, consequently, analyzes
the effectiveness of outsourcing. In accordance with the theoretical references, the strategic decisions of
governments when involving the private sector in the prison system would lead to reduced costs in detriment of
the quality of services. However, the results show that outsourced prisons did not only show cost savings but
also increased quality standards in comparison with traditional public prisons. The study concludes by discussing
the organizational mechanisms that might generate such results.
Key-words: outsourcing; prisons; public service provision.
Impactos da Participação Privada no Sistema Prisional: Evidências a partir da Terceirização de Prisões no
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INTRODUÇÃO
Seguindo a tendência de diminuição da participação do agir estatal na provisão de serviços de
utilidade pública, diversos governos ao redor do globo vêm promovendo o redesenho de suas
atividades (Flynn, 2007), mediante decisões estratégicas relacionadas à delegação de autoridade a
agentes privados, por meio de processos de terceirização, concessões e privatizações (Guasch, 2004).
Inicialmente abrangendo setores de infra-estrutura, tais como energia e transportes, a participação de
atores privados espraiou-se para atividades até então consideradas como funções de Estado, como o
sistema prisional (Cabral, 2007).
A gestão e a operação de prisões com atores privados apresentam diferentes modalidades, desde a
privatização completa, a exemplo dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e África do Sul;
passando pelos modelos de gestão compartilhada, inspirados sobretudo pelas iniciativas francesas
iniciadas em 1990, em que funcionários do governo e de organizações privadas atuam conjuntamente
na provisão dos serviços prisionais (Cabral & Azevedo, 2008). A opção por uma ou outra modalidade
representa, dessa maneira, uma escolha estratégica realizada por parte dos governos, com implicações
distintas no desempenho deste serviço público.
Nos moldes do modelo francês, observa-se no Brasil em 1999 o início da terceirização de prisões no
Estado do Paraná. Apesar de ter interrompido o modelo em 2006, a experiência paranaense espraiouse
para outras unidades da federação, entre elas: Santa Catarina, Espírito Santo, Bahia, Ceará e
Amazonas; no final de 2008, eram 16 os estabelecimentos penais operados por empresas privadas no
país. No modelo de terceirização atualmente em curso no Brasil, cabe ao Estado a construção e a
execução das funções de direção (executadas por funcionários públicos lotados nas unidades penais) e
segurança externa da unidade (realizada pela Polícia Militar). A empresa privada é responsável pelo
fornecimento dos demais serviços necessários ao funcionamento do estabelecimento penal, o que
inclui alimentação, vestuário, serviços de vigilância interna (executados por agentes penitenciários da
empresa contratada), assistência médica, jurídica e social, bem como atividades que visam à reinserção
do interno: trabalho prisional, cursos profissionalizantes, ensino fundamental e médio, dentre outros.
As operadoras são remuneradas mediante o pagamento de montantes fixos, correspondentes ao
número de internos custodiados no estabelecimento penal.
Neste sentido, o objetivo do presente estudo consiste em avaliar os impactos decorrentes da
participação de atores privados na provisão de serviços de utilidade pública, por meio da comparação
do desempenho entre prisões geridas integralmente pelo Estado e prisões operadas por operadores
privados com supervisão pública, em termos de indicadores de custos e qualidade dos serviços
ofertados. No Brasil e no exterior, defensores (D’Urso, 1996; Logan 1990; Oliveira, 2002) e críticos
da participação privada (Minhoto, 2000; Nathan, 2003; Wacquant, 2001) divergem quanto à eficácia
das formas privadas de operação de prisões. Hart, Shleifer e Vishny (1997) propõem um modelo
formal para analisar as consequências da privatização para o desempenho das prisões sob o ponto de
vista teórico. Uma das implicações do modelo dos autores é que sistemas prisionais privatizados
tenderão a ter uma redução na qualidade dos serviços ofertados (por exemplo, menor nível de
assistência médica ou jurídica aos presos), ainda que apresentem, em contrapartida, menores custos
por detento. Isto decorre, no modelo dos autores, da impossibilidade de estabelecer cláusulas
contratuais precisas sobre qualidade de serviço. Como se trata de um indicador difícil de ser medido
com precisão, e dado que a remuneração pelas atividades transferidas tenderá a ser fixa, os agentes
privados podem buscar unicamente reduções de despesas operacionais, com menor qualidade nos
serviços.
Nenhum dos trabalhos acima, no entanto, focaliza as dimensões de custo e qualidade das
experiências existentes, em perspectiva comparativa e metodologicamente estruturada. De forma mais
geral, este estudo preenche esta lacuna, ao lançar luz numa questão ainda pouco explorada: como tratar
e analisar decisões governamentais, como aspectos estratégicos que têm impacto efetivo e mensurável
sobre desempenho. McGahan (2007), por exemplo, chama a atenção para a necessidade de estudos na
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área de administração que analisem casos distintivos e de impacto. Citando especificamente o caso da
terceirização de prisões, a autora coloca que este processo “sinaliza uma mudança fundamental na
relação entre empresas e governos com os governos suprindo somente a supervisão para garantir que
os serviços atendam à especificação pública” (McGahan, 2007, p. 751).
O presente artigo estrutura-se da seguinte maneira. Primeiramente, definem-se os indicadores de
desempenho no sistema prisional e seus condicionantes. Em seguida, procura-se compreender, sob o
ponto de vista teórico e, dentro do contexto do sistema prisional, alguns fatores que conformam a
tomada de decisões estratégicas orientadas à revisão das fronteiras de atuação dos governos.
Posteriormente, são realizadas análises empíricas, tomando como referência uma base que contém
dados do sistema prisional do Estado do Paraná, a partir de análises de regressão em painel. Uma
seção de conclusões encerra o trabalho.
INDICADORES DE DESEMPENHO NO SISTEMA PRISIONAL
A análise dos impactos das decisões dos governos no sistema prisional requer, primeiramente, uma
discussão sobre quais seriam os indicadores de desempenho relevantes para o setor. Em função da
inexistência de registros na literatura sobre desempenho em termos de gestão prisional, empreendemse
esforços neste trabalho para sua construção, tendo como ponto de partida os marcos legais e
institucionais que envolvem o setor.
De acordo com a Lei de Execuções Penais do Brasil nº 7210 de 1984, o processo de execução penal
tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para
a harmônica integração social do condenado e do internado (Lei nº 7210, 1984). Assim, além das
funções retributivas, preventivas e intimidativas das penas de privação de liberdade, a questão da
ressocialização do indivíduo deve ser levada em conta na conformação dos indicadores de
desempenho do setor prisional. Esquematicamente, os indicadores do setor podem ser divididos, de
forma genérica, em termos de custos e qualidade. Indicadores de custos revestem-se de importância,
devido sobretudo às restrições fiscais de grande parte dos governos. Tais indicadores podem ser
desdobrados em subdimensões, como custos com mão-de-obra, energia, materiais de consumo, dentre
outros itens administrativos e financeiros observados de forma desagregada.
Em seguida, devem ser incorporados à análise indicadores de qualidade do serviço. Uma vez
admitido o alinhamento com os princípios legais, os estabelecimentos penais devem ser avaliados em
função de sua capacidade de: conter o indivíduo delituoso, isolando-o da sociedade; prover os meios
para que o indivíduo retorne à sociedade sem voltar a cometer outros atos ilícitos no futuro; promover
as condições necessárias para que o cumprimento da pena ocorra de forma digna e em consonância
com os direitos humanos básicos. Em relação a este último aspecto, destacam-se o direito à
alimentação, à saúde e a um ambiente seguro no interior do cárcere – ou seja, que não coloque em
risco a integridade física e moral de internos, funcionários do estabelecimento, visitantes e outros
membros da sociedade.
Vistos sob este ângulo, os indicadores de ordem qualitativa no setor prisional, porém passiveis de
mensuração quantitativa, podem ser agrupados em a) indicadores de reincidência criminal; b)
segurança e ordem do estabelecimento (fugas, rebeliões, mortos, agressões sexuais); e c) serviços
oferecidos aos internos (assistência médica, jurídica, social, psicológica etc.).
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FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA PRISIONAL: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS.
Uma vez compreendidos os indicadores de desempenho relevantes para a comparação entre
possíveis formas de organização de atividades prisionais, nessa seção discutem-se algumas
contribuições teóricas úteis no processo de escolha organizacional.
Como pano de fundo, as prisões podem ser entendidas como bens públicos puros, uma vez que as
externalidades geradas são coletivas e as possibilidades de exclusão de indivíduos que não contribuem
para a manutenção do serviço são quase inexistentes (Ostrom & Ostrom, 1977). No entanto, apesar
destas características sugerirem a provisão do serviço por meio de agentes governamentais, não é
incomum a existência de bens públicos fornecidos e operados por empresas privadas, tal como
ilustrado por Coase (1974) em seu trabalho sobre os faróis marítimos.
Neste aspecto, um amplo corpo teórico, valendo-se das ciências econômicas como eixo central, tem
contribuído para a discussão da eficiência de formas alternativas de provisão de serviços públicos –
desde o enfoque tradicional das falhas de mercado (Pigou, 1932; Samuelson, 1954), passando pelas
teorias de regulação (Demsetz, 1968, Stigler & Friedland, 1962), de incentivos (Aghion & Tirole,
1997; Laffont & Martimort, 2002) e de direitos de propriedade (Hart et al., 1997). No caso específico
do setor prisional, entretanto, não há muitas referências que tratem dos aspectos empíricos da
participação de empresas privadas. As referências restringem-se à realidade estadunidense (Bayer &
Pozen, 2005; Lukemeyer & McCorkle, 2006) e mais recentemente à experiência brasileira (Cabral &
Azevedo, 2008).
Neste estudo, será discutida em mais detalhes a vertente teórica que analisa a relação entre o
provedor do serviço prisional e o Estado como relação agente-principal sujeita a padrões de incentivos
que afetam o desempenho final do sistema, tanto em termos de custos, quanto de qualidade.
Contratos de Delegação de Serviços Prisionais como uma Relação Agente-principal
O ato de delegar alguma atividade específica pode ser entendido sob o prisma da teoria do agenteprincipal,
ou seja, entre aquele que confia (principal) a outrem a responsabilidade de executar
determinada tarefa (agente). Considerando que a obtenção de informações apresenta custos e que cada
uma das partes pode agir de forma oportunista, no intuito de maximizar suas preferências, a emersão
de conflitos é uma possibilidade bastante concreta (Jensen & Meckling, 1976).
No caso particular da gestão de estabelecimentos penais, os operadores da unidade (sejam eles
funcionários públicos ou operadores privados) emblematizam a figura dos agentes, cujo
comportamento pode afetar a sociedade, os internos e o governo. Este último estaria no papel de
principal, ou seja, daquele que delega a autoridade ao agente.
Assumindo-se que, em função das assimetrias de informação existentes, as condutas empreendidas
pelos agentes não são de fácil observação pelo principal (Hart, 1995), verifica-se um cenário marcado
pelo descompasso entre aqueles que possuem o direito de estabelecer as diretrizes e aqueles que
possuem o controle efetivo das ações necessárias ao cumprimento dos planos delineados em instâncias
superiores. Deste modo, a autoridade formal não significa necessariamente a autoridade real, na
medida em que um principal desinformado pode delegar informações a um subordinado mais bem
informado e detentor de facto da autoridade real (Aghion & Tirole, 1997).
A delegação favorece o aumento da autoridade real dos agentes, uma vez que, em função do grande
número de subordinados, se verificam dificuldades por parte do principal para acompanhar todos os
aspectos correlatos à sua responsabilidade formal e neles intervir. Como consequência, a delegação
pode implicar custos decorrentes da perda do controle pelo principal em relação às resoluções e
decisões empreendidas por terceiros (Aghion & Tirole, 1997; Laffont & Martmort, 2002). Seguindo
este raciocínio, o ordenamento legal e os projetos concebidos pelos governos – neste caso detentores
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da autoridade formal – podem ter sua materialização comprometida na prática, se os benefícios dos
agentes para implementarem diretrizes recebidas do governo forem inferiores aos benefícios auferidos
a partir da implementação de condutas distintas (Cabral, 2007). Dito de outra forma, para o setor
prisional o governo pode, por exemplo, ensejar a ressocialização dos internos por meio do binômio:
cumprimento das regras do estabelecimento e respeito aos direitos humanos nas prisões. Os agentes
encarregados da custódia podem, porém, por diversas razões, desejar perpetuar o statu quo ilegal de
concessões de benesses aos internos: entrada de telefones celulares, aparelhos eletrônicos, armas,
drogas etc. Como são diminutas as possibilidades efetivas de controle, monitoramento e punição de
condutas indesejáveis dos agentes por parte do principal (Tirole, 1994), há descompasso entre o plano
ideal e a realidade, entre o discurso e a prática.
Um dos motivos para a delegação de autoridade está diretamente ligado à impossibilidade física de
acompanhar de perto as ações dos diversos subordinados (Weber, 1968). Transpondo esta linha de
raciocínio para a problemática da direção de um estabelecimento penal qualquer, na provisão pública
tradicional os gestores da unidade, a fim de resolver os problemas cotidianos, necessitam de recorrer a
uma série de interlocutores, nem sempre a ele subordinados hierarquicamente (Martimort, De Donder,
& De Villemeur, 2005). Por exemplo, para tratar da questão da educação dos internos é preciso
interagir com membros da Secretaria de Educação, para contratar mais agentes é necessário demandar
aos órgãos administrativos responsáveis e assim por diante. Por outro lado, em formas organizacionais
com a participação de atores externos (operadores privados ou Organizações Não-Governamentais), o
operador é responsável, contratualmente, pela provisão de todos os serviços necessários ao
funcionamento da unidade (educação, saúde, assistência jurídica, atividades de lazer aos internos etc.),
o que faz com que o número de interlocutores se limite ao gerente da empresa contratada responsável
pelas questões operacionais da unidade. Tal fato pode propiciar mecanismos mais eficazes ao
principal, em termos de controle e de redução dos níveis de informação assimétrica, eventualmente
gerando padrões superiores de desempenho (Cabral & Azevedo, 2008).
Como forma de dirimir os problemas, tanto de delegação da autoridade quanto de omissão de
informações por parte dos agentes, as concessionárias de serviços de utilidade pública ou os
funcionários públicos encarregados de sua provisão direta podem ser impelidos a revelar suas
informações, racionalizar seus investimentos e realizar esforços adicionais mediante mecanismos de
incentivos, os quais serão discutidos a seguir.
A Importância das Estruturas de Incentivos na Provisão de Serviços Prisionais
A preocupação com os incentivos aos agentes econômicos vem de longa data, remontando à emersão
da divisão do trabalho e das trocas entre os indivíduos e as organizações. Mais recentemente, seguindo
uma visão utilitária para mitigar distorções entre agente e principal na delegação de atividades, Laffont
e Martimort (2002) apontam a importância da capacidade dos contratos firmados em incitar os agentes
a revelar suas informações privadas, o que só poderia ser feito mediante a sinalização de benefícios.
No caso da concessão de serviços públicos, é intuitiva a idéia de que os agentes apresentem
indicadores de desempenho diferenciados, caso seus objetivos estejam associados às recompensas que
eles podem vir a receber (Laffont & Martimort, 2002). Da mesma forma, um desempenho abaixo do
previsto em contrato significaria a aplicação de punições, na forma de multas, não pagamento de
bônus ou não renovação do contrato de concessão. Complementarmente, a credibilidade em torno do
cumprimento dos compromissos firmados entre contratante e contratado ocupa um papel central nas
condutas dos atores envolvidos (Shirley & Ménard, 2002). Aspectos ligados à reputação de empresas,
governos e do setor judiciário são igualmente relevantes para o desempenho do sistema, na medida em
que podem afetar o grau com que o agente segue seus próprios interesses, ao invés do interesse
público (Stigler & Friedland, 1962).
Entretanto a natureza dos mecanismos de incentivo se distingue nas estruturas públicas e privadas de
governança. Williamson (1999) fornece uma pista, ao identificar que os atributos centrais da
governança privada estão ligados justamente à maior intensidade dos incentivos, aos menores
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controles administrativos e ao uso da justiça para a resolução dos conflitos. Na administração
governamental, por sua vez, os incentivos possuiriam menor intensidade, enquanto os controles seriam
mais rígidos e as próprias organizações se configurariam como a última instância para resolução das
disputas. O exposto acima se aplica perfeitamente ao caso brasileiro, no qual os funcionários públicos
não dispõem de mecanismos de recompensa no caso de superação de metas de desempenho: em
verdade, na maior parte das vezes, nenhuma meta é estabelecida. Por outro lado, em função das
limitações impostas pelo estatuto do funcionalismo público, um agente governamental dificilmente
sofre alguma punição em decorrência de algum tipo de conduta que leve a padrões inferiores de
desempenho.
A criação de mecanismos de incentivo a concessionários de serviços de utilidade pública pode ser
resolvida contratualmente, por meio da criação de padrões de desempenho, atrelados à percepção de
recompensas e sanções (Guasch, 2004). A intenção consiste, neste caso, em estimular os encarregados
pela provisão a maximizarem seus esforços na direção do bem-estar coletivo, por meio do
empreendimento de condutas capazes de equilibrar os benefícios a serem auferidos e os riscos
associados a comportamentos socialmente indesejáveis, naturalmente considerando um ambiente em
que as ameaças de rompimento contratual sejam críveis. Destarte, seguindo essa lógica, as chances de
operadoras privadas no setor prisional apresentarem padrões superiores de desempenho, em
comparação com a gestão pública tradicional, tendem a ser maiores em função dos incentivos a que
estão submetidas (Desrieux, 2006).
No entanto, Hart et al. (1997) apresentam ressalvas importantes a esta linha de raciocínio. Utilizando a
abordagem de contratos incompletos para analisar a privatização de prisões, os autores argumentam que os
direitos residuais de controle do operador privado poderiam contribuir para a redução de custos em
detrimento da qualidade. Em relação ao fator custo, por exemplo, governos podem contratar um agente
(terceiro) para administrar unidades prisionais por determinado preço; se o agente não apresentar custos
substancialmente inferiores a este preço, não estará remunerando adequadamente sua atividade. Assim, o
agente possui incentivos para reduzir custos e obter maior lucro no seu processo de administração da
unidade prisional. No entanto, de acordo com o modelo dos autores, devido aos custos e aos investimentos
necessários, o operador privado possuiria maiores incentivos para prover níveis inferiores de qualidade.
Ocorre que os serviços providos pelo operador, embora sejam observáveis, são de difícil especificação
contratual. Como especificar, por exemplo, o nível de força a ser empregado pelos agentes de disciplina
para conter os internos no caso de quaisquer anomalias? Nesta linha, os autores defendem que as formas
públicas de provisão seriam preferíveis em relação às modalidades privadas, quando existir algum
indicador de desempenho que seja difícil de ser medido e escrito em contratos: no caso, indicadores de
qualidade do serviço. As assimetrias de informação entre agente e principal seriam, neste caso,
determinantes para o comprometimento do bem-estar coletivo.
Logo, o modelo de Hart et al. (1997) assevera que unidades prisionais sob gestão privada, em
comparação a unidades prisionais sob gestão pública, apresentarão menores custos operacionais, no mesmo
tempo em que deverão exibir menor nível de qualidade de serviço para os detentos. Esta é a hipótese básica
que será avaliada, a partir de dados de unidades prisionais no Paraná, para avaliar os impactos das decisões
tomadas pelos governos ao optarem pela delegação da operação de prisões a atores privados.
PESQUISA EMPÍRICA: A TERCEIRIZAÇÃO DE PRESÍDIOS NO ESTADO DO PARANÁ
Dados e Método de Pesquisa
Para executar a comparação entre as modalidades de organização de serviços prisionais (pública e
com a participação de empresas privadas), toma-se como referência o caso do Estado do Paraná,
unidade da federação pioneira na adoção do modelo de gestão e operação compartilhada de prisões
com empresas privadas. Além disso, a escolha por amostras presentes em uma mesma região
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geográfica permite tornar os efeitos das variáveis institucionais mais homogêneos nas diferentes
amostras observadas, na medida em que as regras formais e informais que permeiam o setor são as
mesmas (Cabral & Azevedo, 2008). O trabalho alinha-se, dessa forma, à proposta de equifinality de
Gresov e Drazin (1997), pela qual resultados particulares podem ser obtidos, nesse caso níveis de
desempenho, por meio de distintas estruturas organizacionais.
A base de dados utilizada foi construída por meio de informações constantes nos relatórios de gestão
do Departamento Penitenciário Estadual do Paraná [DEPEN-PR] e nos contratos firmados entre a
Secretaria de Justiça [SEJU-PR] e as empresas contratadas para realizar a operação dos
estabelecimentos penais. Analisam-se 65 observações relativas a 13 unidades destinadas a indivíduos
no regime fechado, referentes ao período 2001-2006. De maneira complementar, realizaram-se
também 11 entrevistas em profundidade (Malhotra, 2001) junto a gestores das unidades públicas e
terceirizadas, diretores das empresas e membros do próprio DEPEN-PR. A mescla de métodos
quantitativos e qualitativos, nas ciências sociais aplicadas, tem sido apontada como alternativa eficaz
para a obtenção de maior robustez e confiabilidade das análises (Yin, 1994).
Por questão de disponibilidade das informações, neste trabalho somente serão tratadas
quantitativamente as dimensões de segurança e ordem e serviços aos internos. Em relação à dimensão
custos, obtiveram-se somente dados relativos ao ano de 2004, muito mais em função da ausência de
consolidação das informações relacionadas aos outros períodos que de comportamentos pouco
cooperativos por parte dos funcionários da administração prisional paranaense. No período, os custos
médios mensais por detento das unidades terceirizadas variaram de R$ 894 a R$ 1649. Assim,
executando-se o rateio do total gasto sobre o número de indivíduos custodiados pelas operadoras
privadas, verificou-se, no período, um custo médio mensal da ordem de R$ 1266 por interno,
equivalente a 4,22 salários mínimos da época. Utilizando os mesmos componentes de custo (pessoal,
materiais de consumo, despesas com energia, água e comunicação, outros serviços), tem-se para as
prisões geridas integralmente pelo poder público um custo médio mensal por preso de R$ 1387,00, ou
seja, um valor aproximadamente 10% superior. Assim, embora sem dados para comparar
individualmente cada unidade prisional durante o período 2001-2006, o exercício acima fornece
evidência de que, de fato, o custo da operação privada é menor. Essa percepção, mesmo para os outros
anos, foi corroborada pelas entrevistas realizadas junto aos atores relevantes do setor. Os dados acima
e os cálculos efetuados constam em relatórios do próprio DEPEN-PR, tendo sido disponibilizados por
funcionários do órgão. Resta saber o que ocorre com respeito aos indicadores de qualidade do serviço.
As tabelas abaixo resumem as características das variáveis a serem investigadas, contemplando
informações relacionadas às médias gerais e às diferenças das médias observadas entre as duas
modalidades de provisão (pública e terceirizada) realizadas pelo teste t bi-caudal – objetivando
basicamente saber se as médias entre os dois grupos diferem significativamente. Todos os valores
demonstrados foram obtidos por meio da utilização do software Stata 8.0.
Tabela 1
Variáveis Dependentes Analisadas (Indicadores de Qualidade do Serviço)
Tipo do
Indicador Variável Obs. Média
Média
Público
(n= 38)
Média
Terceir.
(n=27)
p-valor
(teste t) Descrição
Seg. e
ordem FUGAS1 64
65
0.56
0.8
0.895
0.895
0.077
0.667
0.0251**
0.7081
Número de internos
evadidos da unidade
durante o ano.
Seg. e
ordem MORTOS 65 1.06 1.47 0.48 0.0976*
Número de internos
mortos na unidade
durante o ano.
Continua
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Tabela 1 (continuação)
Tipo do
Indicador Variável Obs. Média
Média
Público
(n= 38)
Média
Terceir.
(n=27)
p-valor
(teste t) Descrição
Serviços
aos
internos
MED_ASSIST2. 43
65
4.51
5.14
3.44
5.18
5.87
5.07
0.002***
0.9221
Número de atendimentos
médicos por interno-ano
na unidade
Segurança
e ordem ADV_ASSIST. 43
65
7.26
8.11
6.94
8.72
7.66
7.25
0.6904
0.2957
Número de atendimentos
jurídicos por interno-ano
na unidade
Nota. Níveis de significância utilizados: + ≤ 15%; *≤10%; **≤5% ; ***≤1%. Erros-padrão em parênteses.
Tabela 2
Variáveis Independentes Analisadas
Caract. da
variável Variável Obs. Média
Média
Público
(n= 38)
Média
Terceir.
(n=27)
p-valor
(teste t) Descrição
Ligada à
Estrutura de
Governança
adotada
Outsourc 65 0.415 – – –
Variável dicotômica
relacionada ao modo de
gestão; =1, se prisão
terceirizada; =0 se prisão
operada pela forma
tradicional.
Referente à
unidade penal Num_inter 65 538.65 646,47 386.89 0.0025*** Número de internos, presentes
na unidade (média anual)
Referente à
unidade penal Idade 65 17.18 27.68 2.41 0.0002***
Quantidade de anos de
funcionamento da unidade
quando da observação
Referente à
unidade penal Superpop 65 1.038 1.06 1.01 0.0795* Fração de superpopulação da
unidade
Referente à
unidade penal Localiza 65 0.569
Variável dicotômica
relacionada à localização do
estabelecimento penal; =1, se
localizada no interior do
Estado; =0 se localizada na
região metropolitana de
Curitiba.
Referente à
unidade penal Provisorio 65 0.338
Variável dicotômica; =1, se
destinada a presos
provisórios; =0 se destinada
a presos já condenados.
Referente à
população
custodiada na
unidade
Int_facil 65 0.527 0.47 0.607 0.0637* Fração de internos de fácil
convivência
Referente à
população
custodiada na
unidade
Int_trab 65 0.468 0.465 0.473 0.118 Fração de internos que
trabalham
Nota. Níveis de significância utilizados: + ≤ 15%; *≤10%; **≤5% ; ***≤1%.
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A variável independente dicotômica (dummy) OUTSOURC é fundamental para capturar diferenças
entre unidades prisionais públicas e terceirizadas.
Analisando a tabela relacionada às variáveis dependentes, observa-se que não há diferenças
significativas, do ponto de vista estatístico, entre as duas modalidades de provisão no que se refere à
média do número de atendimentos jurídicos oferecidos aos internos. Todos os outros indicadores
sinalizam melhor desempenho das formas de provisão com a participação de atores privados.
No que se refere ao grupo de variáveis de controle, as prisões públicas abrigam mais internos e são
mais antigas em relação aos estabelecimentos penais com gestão terceirizada, em nível de significância
bastante elevado (p <0,01). Tais resultados em verdade refletem as decisões do governo paranaense,
durante a segunda gestão de Jaime Lerner (1999-2002), quando se inauguraram todos os
estabelecimentos penais com gestão terceirizada presentes neste exercício comparativo, cujos padrões de
construção privilegiam unidades de menor porte, seguindo as atuais tendências de arquitetura prisional.
Apesar das análises bivariadas revelarem algumas características importantes, ligadas às diferenças
nas duas modalidades de provisão de serviços prisionais, faz-se necessário avaliar se tais resultados se
mantêm em um contexto de regressão que envolva variáveis múltiplas, incluindo variáveis de controle.
Pelo fato de os dados disponíveis serem longitudinais, ou seja, representarem um conjunto de dados
construídos de cortes transversais, repetidos ao longo do tempo, os dados utilizados nas regressões a
serem demonstradas adiante são conhecidos como dados de painel. No caso específico deste trabalho,
como algumas prisões foram inauguradas após o ano de 2001, tem-se um painel não equilibrado
(Wooldridge, 2006), pois algumas unidades não aparecem em determinados períodos de tempo.
A análise da matriz de correlação entre as variáveis (não exibida por questões de espaço, porém
disponível sob requisição) demonstrou não haver casos de correlação forte das variáveis entre si,
afastando o problema da multicolinearidade.
Modelo de Regressão
O desempenho para a prisão i, no ano t, em cada uma das dimensões de desempenho – custo,
reincidência, segurança e ordem, e serviços aos internos (d=1….4) – pode ser escrito como uma
função da modalidade de gestão (capturada pela variável OUTSOURC), controlada por aspectos
inerentes ao estabelecimento penal em si, ψi,t, e pelas características da população custodiada, φi,t,
conforme abaixo:
yi, t, d = f (OUTSOURCi ,ψi, t,φi, t) (1)
Resta ainda definir qual o modelo de regressão a ser adotado. A escolha do modelo mais adequado
requer o exame da natureza dos dados e da maneira como estão distribuídos. Dada a natureza dos
dados, adotam-se regressões de painel com efeitos aleatórios. Esse método assume que os efeitos nãoobserváveis
não possuem correlação com as demais variáveis independentes (Wooldridge, 2006).
Tomando-se como referência o desempenho em termos de serviços prestados aos internos, estes
podem ser tratados por meio do método tradicional de mínimos quadrados ordinários em painel. A
proposição de Hart et al.(1997) sugere que os coeficientes relacionados às modalidades de gestão
utilizadas no estabelecimento (OUTSOURC) sejam negativos.
No entanto as características dos dados ligados à dimensão de segurança e ordem sinalizam
precaução na escolha do modelo de regressão adequado, na medida em que se referem justamente a
dados de contagem oriundos de eventos raros, que assumem números inteiros não negativos, incluindo
grande quantidade de zeros. Diante disso, um modelo linear clássico pode não proporcionar o melhor
ajuste, razão pela qual McCullagh e Nedler (1989) sugerem, nestas condições, a utilização do modelo
linear generalizado de Poisson. Com os coeficientes estimados pelo método de máxima
verossimilhança, a variável de resposta numa regressão de Poisson segue uma função de distribuição
de probabilidade de cunho exponencial.
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Mais uma vez, pela proposição de Hart et al. (1997), discutida na seção 3, espera-se que o valor de
OUTSOURC esteja positivamente relacionado às variáveis dependentes relacionadas a fugas e mortos
no interior dos cárceres.
Um tema que suscita preocupações é a presença de efeitos não-observáveis que pode potencialmente
engendrar relações espúrias entre a escolha da forma organizacional (pública ou terceirizada) e o
desempenho observado. Nessa linha, há quem possa alegar que as prisões terceirizadas, por exemplo,
podem ser favorecidas, ao abrigarem presos de menor grau de periculosidade, ou seja, unidades
terceirizadas poderiam apresentar maior nível de serviços porque seriam, em tese, mais fáceis de
gerenciar, e não porque a modalidade de gestão colaboraria, por si só, para a melhoria destes serviços.
Além disso, as unidades terceirizadas tendem a ser mais novas em relação às unidades públicas
tradicionais, de modo que os objetivos de desempenho poderiam ser mais facilmente atingidos. A
inclusão de variáveis de controle, descritas na Tabela 2, visa justamente evitar este tipo de relação
espúria. Além das variáveis incluídas no presente estudo, desconhecem-se outros atributos disponíveis
que possam induzir relações espúrias entre escolha da forma de organização do serviço e desempenho.
Assim, por meio de controles adequados, a eficácia do modelo com efeitos aleatórios é garantida,
aumentando a probabilidade de os estimadores serem consistentes e não-viesados (Wooldridge, 2006).
Análise dos Indicadores de Segurança e Ordem
A Tabela 3 demonstra os resultados obtidos por meio de regressões de Poisson com efeitos
aleatórios para os indicadores de desempenho ligados à segurança e ordem: número de fugas e de
mortos por ano observados em cada unidade.
Tabela 3
Resultados para os Indicadores de Segurança e Ordem: Estimativas Obtidas por meio de
Regressões de Poisson
FUGAS MORTOS
Regressões (1) (2) (3) (4) (5) (6)
OUTSOURC -3.327***
(0.865)
-2.076***
(0.767)
-1.874**
(0.802)
-0.662+
(0.429)
-0.844**
(0.387)
-0.616*
(0.367)
IDADE -0.012
(0.016) 0.0151
(0.0134)
0.002
(0.008) 0.010*
(0.006)
SUPERPOP -0.262
(2.141) -1.915
(2.019)
0.306
(1.45) 0.735
(1.280)
LOCALIZA 0.361
(0.989) 0.452
(0.672)
-0.827*
(0.462) -0.243
(0.378)
PROVISORIO 0.098
(1.017) -0.509
(0.577)
-0.626
(0.455) -0.78***
(0.293)
INTER_TRAB 0.384
(1.103)
0.557
(1.167) -1.424**
(0.699)
-1.56**
(0.618)
INTER_FACIL -5.569***
(1.262)
-6.692***
(1.671) -0.431
(0.730)
-0.914
(0.636)
Intercepto 0.615
(2.518)
1.630***
(0.451)
3.60*
(2.130)
0.415
(1.613)
0.998**
(0.401)
0.615
(1.454)
Num. Observações 64 64 64 65 65 65
Wald χ2 15,22*** 28.96*** 27.90*** 9.33* 10.41** 48.39***
Nota. Níveis de significância utilizados: + ≤ 15%; *≤10%; **≤5% ; ***≤1%. Erros-padrão em parênteses.
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Em ambos os casos realizam-se sucessivas estimativas, como forma de observar os efeitos
decorrentes da adição de novas variáveis.
Percebe-se que, mesmo sucessivamente adicionando variáveis de controle ligadas ao
estabelecimento penal em si (ψi,t) e às características dos internos custodiados (Φi,t), nas estimativas
realizadas as formas organizacionais com a participação de atores privados apresentaram correlação
negativa com o número de mortos e de fugas de forma significativa. No caso do número de mortos,
nota-se que a fração de internos que trabalham na unidade contribui para a redução dos óbitos,
indicando a pertinência das atividades laborais no sistema prisional, ao passo que, como era de se
esperar, prisões com maior percentual de internos de fácil convivência experimentam, de forma
altamente significativa, reduções no número de fugas. Surpreendentemente, a superpopulação das
unidades não apresenta impactos significativos sobre o número de mortos e fugas. Assim, calculandose
o efeito da mudança decorrente de uma variável binária, tem-se que para uma prisão terceirizada,
destinada a indivíduos condenados, situada no interior do Estado, as chances de ocorrência de mortes
são 41% menores em relação a uma prisão gerenciada pela forma pública tradicional nas mesmas
condições situada na capital ou região metropolitana, levando-se em conta os valores médios amostrais
descritos nas Tabelas 1 e 2. Na mesma linha, a chance de fugas em unidades com gestão terceirizada é
99% menor3.
De acordo com o teste de Wald, em todas as estimativas rejeita-se fortemente a hipótese de que as
variáveis explicativas do modelo não possuem efeito sobre o número de mortos e evadidos das prisões.
Análise dos Indicadores de Serviços de Assistência Oferecida aos Internos
A tabela 4 demonstra os resultados obtidos para os indicadores de serviços oferecidos aos internos,
tomando como base o número de consultas médicas e jurídicas oferecidas em média a cada interno por
ano, por meio de modelo de regressão em painel com efeitos aleatórios.
Tabela 4
Resultados para a os Indicadores de Serviços Oferecidos aos Internos: Regressão em Painel com
Efeitos Aleatórios
ASSISTÊNCIA MÉDICA ASSISTÊNCIA JURÍDICA
Regressões (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8)
OUTSOURC
1.526*
(0.923)
0.945
(0.859)
3.716***
(0.528)
1.473
(1.395)
-2.892
(2.996)
-2.143
(2.655)
0.4363
(2.373)
-3.099 +
(1.927)
NUM_INTER -0.0106**
(0.005) -0.016***
(0.003)
-0.006
(0.004)
-0.032*
(0.017) -0.008
(0.0137)
-0.0042
(0.006)
IDADE (0.231)**
(0.093) 0.350***
(0.0542)
0.005
(0.051)
0.271
(0.319) 0.109
(0.244)
-0.0077
(0.070)
SUPERPOP 7.095**
(2.915) 10.38***
(2.269)
10.25**
4.20
37.40***
(9.289) 23.70**
(10.20)
16.18***
(5.79)
LOCALIZA
-0.307
(2.274)
0.133
(0.811)
-0.727
(2.035)
-7.240
(8.312) 1.472
(3.645)
-1.01
(2.816)
PROVISORIO 0.050
(2.545) 1.955
(3.524)
Continua
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Tabela 4 (continuação)
ASSISTÊNCIA MÉDICA ASSISTÊNCIA JURÍDICA
Regressões (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8)
INTER_TRAB
3.51**
(1.48)
2.743**
(1.354)
2.317
(2.928) 4.509
(5.237)
2.92
(6.087)
5.26
(4.039)
INTER_FACIL -4.051***
(1.425)
-5.68***
(0.95)
-1.47
(2.639) 2.185
(4.508)
0.724
(4.272)
2.20
(3.642)
Intercepto
0.181
(3.573)
4.572***
(1.172)
-0.525
(2.459)
-1.812
(5.728)
-8.828
(11.876)
4.672
(3.104)
-16.496
(11.055)
-8.461
(7.90)
Num.
Observações 43 43 43 65 43 43 43 65
R2 0.5349 0.2867 0,8230 0.2574 0.1577 0.088 0.2496 0.2564
Wald χ2 11.85** 12.46** 162.78*** 12.37 + 18.64*** 1.58 11.64 + 17.59**
Nota. Níveis de significância utilizados: + ≤ 15%; *≤10%; **≤5% ; ***≤1%. Erros-padrão em parênteses.
Da mesma forma que no item anterior verificam-se os efeitos decorrentes da adição de variáveis
explicativas. No caso dos serviços de assistência médica, observa-se que os coeficientes são positivos,
mais uma vez divergindo das proposições de Hart et al. (1997), na medida em que as formas públicas
de provisão proveem menor número de consultas médicas aos internos, conforme expresso nas
regressões (1) e (3). Nessa última estimativa, particularmente, o teste de Wald aponta que as variáveis
explicativas utilizadas possuem em conjunto efeitos altamente significativos sobre o indicador de
desempenho analisado. Exceto quanto à localização da unidade, as demais variáveis independentes
causam impacto no número de atendimentos médicos de forma assertiva. A estimativa (4) demonstra
que o desempenho observado entre as duas modalidades de provisão não diferem entre si, ao
considerar concomitantemente as unidades penais para indivíduos condenados e provisórios.
Diferentemente dos outros indicadores de desempenho, no que tange ao número de atendimentos
jurídicos oferecidos aos internos, em nenhuma das estimativas realizadas se verificaram diferenças
significativas entre as modalidades públicas e privadas de provisão, corroborando as estatísticas
bivariadas demonstradas na Tabela 1. Dentre as variáveis de controle, observou-se que apenas a fração
de ocupação da unidade em relação à capacidade (representada por SUPERPOP) apresenta impacto
significativo com o aumento do número de atendimentos jurídicos.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS À LUZ DOS REFERENCIAIS TEÓRICOS DE SUPORTE
Das análises acima, apreende-se que, no setor prisional, as modalidades de provisão com a
participação de empresas privadas apresentam indicadores de desempenho, em termos de custos e
qualidade, superiores em relação às formas tradicionais de provisão do serviço, com exceção dos
serviços de assistência jurídica, nos quais não há diferenças significativas entre as duas estruturas de
governança, naturalmente considerando os limites do caso estudado. Os resultados, portanto, não
apoiam a previsão do modelo de Hart et al. (1997) de que, apesar de apresentarem menores custos,
unidades prisionais com participação privada apresentariam também queda nos indicadores de
qualidade. Nesse sentido, emerge a seguinte questão: quais os fatores que explicam tais disparidades?
Os aportes teóricos desenvolvidos anteriormente podem ser úteis nesta empreitada.
Primeiramente, as várias cadeias de comando nos governos criam potenciais problemas de agência,
que se materializam na perda de controle e na emersão de custos de transação (Martimort et al., 2005).
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Isto faz com que, nas modalidades públicas, os custos de monitoramento das condutas individuais
sejam elevados, em função das dificuldades para obtenção e processamento das informações,
sobretudo quando estas se encontram nos níveis administrativos mais operacionais (Aghion & Tirole,
1997). No caso do sistema prisional paranaense, a delegação da autoridade por meio da terceirização
de atividades operacionais viabiliza a redução do número de interlocutores para resolução de
problemas, possibilitando aos gestores das unidades penais um maior foco sobre questões de cunho
tático e estratégico. A esta maior capacidade de controle devem-se somar também as possibilidades de
cumprimento contratual (enforcement) propiciadas por tais estruturas híbridas de governança (Ménard,
2004). Ocorre que a separação formal entre operação e gestão facilita a efetivação de sanções no caso
do descumprimento contratual (Cabral & Azevedo, 2008), na medida em que o diretor da unidade
pode simplesmente não autorizar o pagamento da fatura de serviços prestados do operador no caso de
alguma não-conformidade. Neste caso, o operador privado entende como críveis as ameaças
sinalizadas pelos representantes do Estado, mitigando, assim, as chances do uso auto-interessado da
informação assimétrica.
Em adição, verifica-se a existência de mecanismos de controle por parte dos gestores estatais que
permitem o acompanhamento contábil da operação contratada. Cópias das guias de recolhimento de
impostos, das contribuições sociais e dos pagamentos efetuados são demandadas pelo governo aos
operadores privados, permitindo também aos agentes estatais uma idéia da estrutura de custos da
empresa, essencial para negociações futuras. Por fim, aos operadores privados interessa preservar um
histórico de conduta ilibada em face dos seus interlocutores presentes no Estado, uma vez que a
manutenção da reputação é essencial em rodadas futuras do jogo, seja para renovação dos contratos ou
em novos processos licitatórios, até mesmo em outras unidades da federação (Cabral & Azevedo,
2008). Portanto, para as prestadoras de serviço a criação e manutenção de boa reputação representam
incentivo implícito para o atendimento dos critérios de qualidade, mesmo quando estes não são
perfeitamente especificados contratualmente (Baker, Gibbons, & Murphy, 1994).
O exame das passagens acima sinaliza a importância da supervisão das condutas das empresas
privadas por parte de agentes governamentais, estejam eles lotados diretamente nas unidades penais ou
nos escritórios dos órgãos executivos de administração penitenciária. Suscita-se daí o dilema: “quem
supervisiona o supervisor?” (Alchian & Demsetz, 1972, p. 782). Afinal, o que garante que os
funcionários públicos responsáveis pelo monitoramento dos contratos não entrarão em colusão com as
empresas privadas, sobretudo em ambientes em que contratos de remuneração pautados no
desempenho observado inexistem? Além dos mecanismos de reputação, mencionados anteriormente
sob a ótica da empresa, a existência de normas sociais pode ser invocada para responder a tais
questionamentos (Lazzarini, Miller, & Zenger, 2004).
Considerando que as interações de agente e principal se repetem ao longo do tempo e que as ações
empreendidas são detectáveis por níveis superiores ou externos de controle, os funcionários públicos
tendem a promover esforços para preservar sua reputação e, com isso, sua posição, evitando
retaliações por parte do principal: neste caso, dirigentes da administração prisional. Isso é verdade,
sobretudo quando informações sobre o histórico das condutas dos agentes são compartilhadas entre os
vários principais, existentes e potenciais, com poder de decisão ou de veto. Entre estes destacam-se
os diversos membros da administração prisional e empresários atuantes no setor. Naturalmente, a
credibilidade dos mecanismos de recompensas e punições aplicados é dependente da disponibilidade
de informações sobre o que sucede nas prisões. A experiência brasileira recente demonstra que casos
de maus tratos a presos e eventos relacionados a fugas e rebeliões são amplamente divulgados pela
mídia, diminuindo as chances de os diretores das unidades prisionais envolvidos em irregularidades de
obterem promoções futuras ou até mesmo de preservarem sua posição atual.
Normas sociais, por outro lado, engendram contratos implícitos baseados nas convicções
internalizadas dos indivíduos em relação aos impactos de suas condutas, principalmente quando
valores institucionalizados estão presentes (Meyer & Rowan, 1977). No sistema prisional, conforme
observado nas entrevistas, a execução de atos ilícitos, tais como envolvimento com corrupção,
ocasiona reprovação pelos demais membros do grupo. Nesse caso, o ostracismo é a modalidade de
retaliação mais frequentemente utilizada. Para evitar o custo político, decorrente da indicação de
Impactos da Participação Privada no Sistema Prisional: Evidências a partir da Terceirização de Prisões no
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indivíduos que não estejam alinhados com os princípios de integridade e honestidade do funcionalismo
público, para posições de comando em unidades prisionais os governos tendem a nomear profissionais
sem registros de problemas dessa natureza, sobretudo em prisões com operação terceirizada. No caso
de tais estabelecimentos, em função da polêmica existente em torno da participação privada em
serviços prisionais (Nathan, 2003), a fiscalização por parte de instituições externas (imprensa,
organizações religiosas, ONG´s e sindicatos) tende a ser mais intensa, exigindo atenção especial dos
dirigentes da administração prisional. Assim, no caso dos representantes do Estado lotados nas prisões,
as normas sociais internalizadas conjugadas com a ausência de incentivos para reduções de custos
podem contribuir para a não-deterioração dos indicadores de qualidade nas prisões com operação
terceirizada, sobretudo em função das diferentes estruturas de incentivos existentes entre as duas
modalidades de provisão aqui estudadas.
Nessa seara, mecanismos de punições e recompensas dificilmente podem ser utilizados de maneira
assertiva nas formas públicas de gestão, nas quais os funcionários gozam de estabilidade e somente
podem ser demitidos após processos administrativos morosos. Além disso, a substituição na saída de
um colaborador não é automática, em função da necessidade de concursos públicos, em verdade
escassos por conta das limitações impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal, ao passo que nas
empresas privadas, provedoras de serviços prisionais, a substituição se dá por meio de critérios de
mercado, pela demissão ou saída voluntária de um colaborador. Alterações nos turnos ou nos métodos
de trabalho são mais difíceis de serem implantadas com funcionários do setor público. Além disso,
desobrigadas de cumprir os ritos da lei de licitações (Lei 8666/94), os critérios de compras mais ágeis
nas modalidades híbridas com a participação de empresas privadas não priorizam necessariamente o
menor custo de aquisição na tomada de decisões, incorporando com maior facilidade as dimensões
qualitativas associadas.
Das discussões acima, apreende-se o papel relevante jogado pelas instituições, em seus aspectos
formais e informais na conformação das estruturas de incentivos e, logo, dos indicadores de
desempenho que determinam a eficácia das decisões estratégicas tomadas. Na medida em que balizam
as interações dos indivíduos e organizações (North, 1990), as restrições institucionais impostas pelos
regulamentos e procedimentos administrativos muitas vezes inviabilizam a criação de mecanismos de
recompensas e punições, além de contribuir para que as ações empreendidas não sejam de todo
eficazes. Estabelecem-se, assim, conjuntos de barreiras muito particulares à forma pública de gestão,
as quais se reproduzem com menor intensidade nas estruturas híbridas, representando impactos
negativos diretos no desempenho, conforme se observa na presente análise em todos os indicadores,
afora os atendimentos jurídicos.
A explicação para a ausência de diferença entre as duas modalidades de provisão no número de
consultas jurídicas está ligada à maneira como o serviço é provido pelo governo. Diferentemente de
outros Estados, onde a assistência jurídica é realizada por meio de defensores públicos, na maior parte
das vezes em número insuficiente para as demandas do sistema prisional e, em alguns casos, não
exclusivos para o setor, no Estado do Paraná o serviço é provido por advogados de carreira do próprio
Departamento Penitenciário, em grande parte profundos conhecedores dos meandros das varas de
execuções penais das regiões onde atuam. Verificou-se que as políticas de valorização da carreira
contribuem significativamente para a retenção dos funcionários e consequentemente para que a
experiência adquirida seja acumulada em prol dos internos, contrariando aqueles que enxergam a
provisão pública como algo intrinsecamente ineficiente.
No entanto as análises realizadas permitem afirmar que, em linhas gerais, a participação privada no
setor aporta diminuição dos custos e aumento nos indicadores de qualidade, diferindo da proposição de
Hart et al. (1997), de modo que, dentro dos limites deste trabalho, a proposição dos autores não se
confirma.
Sobre este ponto, alguns comentários são necessários. Em verdade, o modelo de Hart (Hart et al.,
1997) foi estruturado tendo como referência uma estrutura de governança totalmente hierárquica, em
que os direitos de decisão e controle estariam dicotomicamente alocados, ao governo ou ao operador
privado; não prevendo o compartilhamento de decisões entre os funcionários públicos e a empresa
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privada, ignorando, assim, a possibilidade de mitigação de condutas auto-interessadas dos operadores
contratados, a partir de um monitoramento mais assertivo.
Por fim, apesar dos resultados obtidos apontarem a superioridade das prisões com operação
terceirizada, o Governo do Estado do Paraná reverteu este processo de delegação em 2006,
reincorporando as operações das unidades terceirizadas. Discutir a pertinência dessa medida encontrase
além das possibilidades e ambições deste trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo ressaltou os impactos das decisões estratégicas efetuadas pelos governos, tomando
como referência o processo de terceirização de prisões no Paraná. As análises aqui empreendidas,
nesse setor em que são raros os estudos da área (McGahan, 2007), demonstraram que, além de
apresentarem menores custos, as prisões terceirizadas são mais seguras que as prisões operadas na
modalidade tradicional. As prisões terceirizadas na nossa amostra apresentam relativamente menor
incidência de fugas e mortos, além de proverem mais consultas médicas. As razões para os resultados
distintos estão relacionadas aos incentivos a que as operadoras privadas estão submetidas e às suas
habilidades para contornar as restrições institucionais, notadamente ligadas ao número de controles
administrativos para contratação de pessoal, execução de mecanismos de recompensas e punições e
aos procedimentos de compras. A delegação de atividades a operadores privados, ao mesmo tempo
que permite maior agilidade nas operações, ao que parece permite aos gestores públicos nas unidades
terceirizadas um papel de supervisão das atividades, garantindo maior focalização em tarefas de maior
valor agregado, tais como atividades de coordenação com o judiciário e com serviços de inteligência.
Além disso, a presença de funcionários públicos no interior das unidades terceirizadas pode ser
apontada como um dos fatores preponderantes para evitar condutas dos operadores privados, de modo
que os resultados obtidos refutam a hipótese de Hart et al. (1997), pela qual empresas privadas
tenderiam a diminuir os indicadores de custo em detrimento da qualidade. Normas sociais e aspectos
ligados à reputação podem contribuir para que o gestor prisional, lotado nas unidades terceirizadas, aja
em defesa do interesse público, fiscalizando as condutas do operador privado.
A importância do monitoramento das unidades por parte dos funcionários públicos demonstra, em
particular, que a mera escolha entre público ou privado, por si só, não parece ser suficiente para a
obtenção de melhorias no setor prisional. Mais do que isso, o presente trabalho demonstrou que os
indicadores de desempenho observados em termos da superior qualidade dos serviços prestados estão,
em verdade, fortemente condicionados ao desenho de estruturas de governança capazes de estabelecer
níveis ótimos de delegação de autoridade, bem como de prover os fatores de incentivos adequados, sob
à ótica do bem-estar coletivo, a cada uma das partes envolvidas no processo de concepção e execução
contratual. Enquanto a gestão privada gera elevados incentivos para redução de custos, o
monitoramento público garante a elevação dos níveis de serviço. Além disso, tem-se também que os
atores privados reagem aos incentivos que são colocados pelo Estado e pelo ambiente institucional, de
modo que padrões de desempenho, positivos ou negativos, não podem ser associados exclusivamente à
modalidade de provisão de serviços prisionais em análise, seja pública, privada ou híbrida. Uma
relevante implicação deste resultado para a tomada de decisões estratégicas dos governos nos
processos de revisão de suas fronteiras de atuação consiste na importância dada à observação das
formas de alinhamento dos incentivos dos agentes e do Estado, para que sejam obtidos indicadores
adequados na delegação de serviços de utilidade pública.
Artigo recebido em 28.11.2008. Aprovado em 17.07.2009.
Impactos da Participação Privada no Sistema Prisional: Evidências a partir da Terceirização de Prisões no
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NOTAS
1 Uma observação foi omitida nos cálculos da variável fugas. O evento não considerado em questão é relacionado ao resgate
orquestrado de alguns presos pertencentes a uma facção criminosa paulista [PCC]. A inclusão desta observação gera
distorções, comprometendo a análise
2 Os números de atendimentos médicos e jurídicos tendem a ser maiores nas prisões provisórias em função da alta
rotatividade de indivíduos. A comparação restringe-se aqui a estabelecimentos destinados a presos já condenados, totalizando
43 observações (24 em unidades públicas e 19 em unidades terceirizadas)
3 A interpretação dos coeficientes se dá por meio de seus respectivos anti-log. No caso de xk ser uma variável binária que se
altere de 0 para 1, a mudança esperada será exp (βk) -1 (Wooldridge, 2006).
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O LADO OCULTO DAS MUDANÇAS: A VERDADEIRA INOVAÇÃO REQUER MUDANÇA DE PERCEPÇÃO

O LADO OCULTO DAS MUDANÇAS: A VERDADEIRA INOVAÇÃO REQUER MUDANÇA DE
PERCEPÇÃO
Luc de Brabandere. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2006, 182 pg. ISBN 85-352-2153-0.
Por Edemilson Messias dos Santos (UFPR)
Esta obra de Luc de Brabandere, ‘The Forgotten Half of Change’, traduzida pelo professor Ricardo
Bastos Vieira, chegou às nossas livrarias em 2006 em forma muito didática e humorada para tratar
assuntos como: mudança, inovação e percepção. Comenta o autor a necessidade contínua de mudanças
e alerta que não é fácil a mudança de paradigma; mas temos de quebrá-lo, pois até mesmo a mudança
está mudando, grandes mudanças incrementais estão acontecendo e quase sempre apoiadas nos
ombros de gigantes, informando aos leitores a importância do aprendizado e da fundamentação
teórica. O livro faz uma viagem teórica com Heráclito, Francis Baccon, Sócrates, Isaac Newton e
outros, buscando fundamentação para este fantástico e complexo tema ‘mudanças’. O filósofo
Heráclito advogava que ‘mudança era algo impossível’; já Baccon ‘que mudança não era inevitável’,
‘mas que sua natureza podia ser investigada por nós e fazê-la acontecer’, necessitando assim mudar
duas vezes: a realidade que o cerca, mas também a percepção desta realidade.
Brabandere parece dizer às pessoas que chegam atrasadas: não vai ser a agenda, nem acordar mais
cedo e organizar bem o tempo de cada compromisso que resolverão o problema. Relacionar a
mudança apenas como a ação de chegar no horário também não resolve, porque logo a pessoa vai
chegar atrasado de novo. É preciso que se modifique o modo como se compreende a pontualidade. No
mundo empresarial não é diferente. As coisas levam tempo para acontecer; é necessária a percepção
para que ocorram mudanças mentais.
O autor europeu de grandes Best-sellers sobre inovação e sócio vice-presidente da Boston
Consulting Group, empresa multinacional, viu oportunidades no que realmente gostava de fazer,
transformando o prazer em profissão, criativo e transformador de uma nova idéia em uma boa idéia,
alertando que o inovador cria algo novo para o sistema, enquanto o ser criativo pensa em novo sistema
com interpretação ímpar de indivíduo para indivíduo e que o Non Finito, as atividades não acabadas
poderiam ser uma forma de despertar nas gerações futuras o pensamento crítico e, consequentemente,
a inovação, deixando as estruturas fixas e priorizando os projetos.
Advoga o autor: como na natureza, quando uma grande mudança está prestes a acontecer ocorrem
avisos. O problema é que a maioria das pessoas tende a ignorá-los ou responde tão lentamente que é
pega desprevenida. É o que ocorreu com a indústria de aço americana. Muitos foram os sinais:
concorrentes na Europa com altos fornos conversores de oxigênio, Japoneses e Alemães com
tecnologia radical (nova), a laminação direta a quente, enquanto a gigante empresa americana de aço
permanecia cega nas suas convicções, desprezava as concorrências, tratando-as meramente como ‘anãs
Resenhas Bibliográficas: O Lado Oculto das Mudanças: A Verdadeira Inovação Requer Mudança de Percepção 573
atrevidas’, ‘que a maré vai virar’, ‘não mexer no que está dando certo’. Assim foi surpreendida, e
abrindo espaços para os pequenos que se tornaram grandes.
O mundo muda, porém a maneira de pensar continua a mesma e a ruptura quase sempre não é
provocada pela empresa detentora da tecnologia anterior, assim diferenciando-se o gerente de
negócios do estrategista: o primeiro administra a continuidade e o outro lida com a descontinuidade.
Convergência e divergência são a chave do sucesso. As parcerias devem ter os mesmos valores, mas
diferentes habilidades de pensamento, como Bill Hewlett e Dave Packard (HP), Charles Rolls e
Frederick Royce (Rolls-Royce). Sozinho, o capital não é suficiente para o sucesso de um novo
empreendimento e a natureza é a única incerteza. Devemos prever e estar atento às mudanças: fique
perplexo, contagie o próximo, mude a rotina, mesmo que não leve a lugar algum. Isso faz bem e
poderá surpreendê-lo. A rachadura em um edifício pode ter duas explicações possíveis: teve problemas
de construção ou foi abalado por forças externas, como terremoto, porém é aviso. Nas empresas é
rotineira e incessante a procura por culpados, o que não é necessariamente a coisa certa, pois se deve
encontrar a causa do problema, encontrar soluções, tomar medidas preventivas e corretivas.
O tempo trouxe mudanças no mundo dos negócios. O ambiente era calmo, chamávamos os
concorrentes de colegas, a palavra valia mais que o crédito bancário e cada entrega terminava com um
ritual até a próxima vez, na certeza de que realmente haveria uma próxima vez. Isso mudou e
pertence apenas ao passado. As empresas estão diante de novo desafio: gerenciar idéias. Para isto
necessitam utilizar as palavras certas, desenvolver a criatividade: passo individual para a inovação,
processo coletivo.
O autor iniciou o livro apresentando três filósofos. Depois citou outros, como estão à procura
constante de resposta. Isto contribui e muito para o campo da administração. Se podemos prever o que
é certo, poderemos também preparar-nos para a incerteza.
O livro é organizado em oito capítulos recheados de exercícios, como seqüência numérica, desenhos,
buscando mostrar que enxergamos o que queremos ver. Lembre-se que mudança não é algo fácil. No
final de cada capítulo traz um resumo dos principais assuntos, visando fixar os conceitos, refrescar a
memória e preparar para o próximo capítulo.
Em determinado momento Luc de Brabandere faz um desafio: induz o leitor a parar a leitura, caso
não acredite nos conceitos tratados. Confesso, mesmo tratando-se de um escritor, consultor e
empresário de sucesso, que ele não conseguiu resultados positivos (fazendo com que parasse a leitura)
e a cada página estava mais fascinado. Acredito que foi uma excelente estratégia, assunto também
tratado nesta obra.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, pp. 572-573, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
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GESTÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS DE BASE TECNOLÓGICA

GESTÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS DE BASE TECNOLÓGICA
Antonio Valério Netto. Barueri, SP: Minha Editora; Brasília, DF: SEBRAE, 2006. 236 p.
ISBN 85-98416-31-2.
Por Sandra Tornieri (UFPR)
A gestão do conhecimento é conquistada e alimentada por profissionais que utilizam suas próprias
experiências e contribuem para a disseminação do conhecimento, compartilham acertos e erros e no
final são os maiores beneficiados com o intento. A obra em questão é um exemplo disto. O advento da
globalização e da competição acirrada colocou no mercado inúmeros pequenos empresários com e
sem experiência de gestão organizacional. As PEBTs ou Pequenas Empresas de base tecnológica no
Brasil são exemplo desta realidade.
O autor Antonio Valério Netto é doutor em computação e matemática computacional pela
Universidade de São Paulo [ICMC/USP] e mestre em engenharia pela Universidade de São Paulo
[EESC/USP]. Em 2003, fundou a Cientistas Associados Desenvolvimento Tecnológico, empresa
focada no desenvolvimento de produtos tecnológicos, da qual é seu principal dirigente. Possui em
torno de 75 publicações entre livros (Realidade Virtual: Conceitos e Aplicações, VisualBooks, 2002;
Estratégias Competitivas para Pequenas e Médias Empresas de Tecnologia, Qualitymark, 2007).
Recebeu diversos prêmios e menções honrosas, como a do Society of Automotive Engineer [SAE]
Brasil 2001 – melhor artigo técnico na categoria Projetos. Em 2008 foi finalista do prêmio
Empreendedor de Sucesso promovido pela revista PEGN e FGV.
A obra é dividida em 8 capítulos, incluindo nestes a introdução, que faz a apresentação da obra e sua
importância para os leitores. No capítulo 2 – Estratégias de Negociação, orienta a prospecção de
negócio e estratégia de vendas. Na sequência o capítulo 3 – Marketing orientado a resultados é uma
colaboração da autora Danielle Magierski Valério, mestre em Engenharia de produção pela
Universidade Metodista de Piracicaba [Feau/UNIMEP], na área de Estratégias e Organizações.
Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade
Regional de Blumenau [Furb]. Durante dois anos trabalhou no departamento de Marketing da Herco e
dois anos no departamento de Marketing & Inteligência e Mercado da empresa Cientistas Associados
Desenvolvimento Tecnológico Ltda. No capítulo 4 – Inteligência de mercado como fator diferencial,
aborda a questão da necessidade das PEBTs terem maior conhecimento do mercado. O capítulo 5 –
Gestão de projetos tecnológicos em pequenas empresas, trata da colaboração de Cláudio Adriano
Policastro, pesquisador e Doutor em Ciência da Computação e Matemática Computacional pela
Universidade de São Paulo [ICMC/USP] desde 2008. No capítulo 6 – Gestão de competências e
pessoas, discorre sobre uma das questões mais críticas das PEBTs: o desafio de pessoal altamente
qualificado. No capítulo 7 – Estudo de caso, o autor expõe a experiência da empresa que ele mesmo
fundou. Por último, o capítulo 8 apresenta – O desafio da pequena empresa tecnológica no Brasil.
Resenhas Bibliográficas: Gestão de Pequenas e Médias Empresas de Base Tecnológica 571
Antonio Valério aponta duas principais características distintivas das EBTs, como o porte da
empresa e o grau de evolução da tecnologia do mercado e têm como principal fator de competição no
mercado o lançamento de novos produtos ou serviços. Apresenta a problemática principal das PEBTs:
se por um lado existe qualificação na formação em ciências exatas, por outro lado são escassos os
conhecimentos de gestão e de experiência em negócios.
A principal contribuição desta obra é devida ao seu caráter teórico-prático, ou seja, após o autor (e
colaboradores) apresentar todo o embasamento necessário para a gestão de PEBTs, apresenta um
estudo de caso, colocando em prática as próprias indicações e apresentando os resultados delas. Outro
aspecto relevante é a explicitação de um problema a ser enfrentado dentro das PEBTs, em relação à
necessidade de alta capacitação do quadro de pessoal, sendo este o seu diferencial competitivo. Neste
contexto expõe a dificuldade de contratar mestres doutores experientes pelo fato de que estes têm
expectativas de receber altos salários, segurança de crescimento profissional e prestígio, condição que
dificilmente uma PEBT poderá oferecer. Para a solução apresenta a necessidade de líderes da EBTs e
doutores trabalharem em conjunto com um único objetivo: o fortalecimento e o crescimento da
empresa.
De igual modo foram percebidas algumas falhas ou deficiências na obra: ao tentar abordar assunto
de tamanha complexidade, tornou-se superficial em diversos aspectos e até repetitivo em outros. Este
aspecto foi observado em vários capítulos, mas principalmente no de número 6: quando trata da
questão de gestão de pessoas, torna-se muito distante da realidade, ao apresentar diferentes perfis de
empreendedores, líderes e liderados. Contudo é uma obra de grande valia, pelo ineditismo do tema
quanto à realidade das PEBTs no Brasil.
Recomendo este livro aos tecnólogos, mestres e doutores de áreas técnicas ou exatas, com ou sem
perfil empreendedor, que têm por objetivo trabalhar numa PEBT, como gerente-proprietário ou
prestador de serviços. É recomendado também aos docentes de graduação que ministram disciplinas
ligadas ao Empreendedorismo.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, pp. 570-571, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
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Afinal, Quantas Empresas tem esta Cidade?

Afinal, Quantas Empresas tem esta Cidade?
After All, How Many Companies are there in This Town?
Rosane Rivera Torres *
Doutora em administração de empresas pela FEA/USP.
Professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, São Paulo/SP, Brasil.
Andréa Leite Rodrigues
Doutora em administração de empresas pela FGV-EAESP.
Professora da FGV-EAESP, São Paulo/SP, Brasil.
Endereço: Rosane Rivera Torres *
Av. Dr. Cardoso de Melo, 122, apto. 82, Vila Olímpia, São Paulo/SP, 04548-000. Email: rosanetorres@usp.br
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citar parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Afinal, Quantas Empresas tem esta cidade? 559
INTRODUÇÃO
Sentadas na sala dos professores, Helena e Sofia olhavam com desânimo os resultados do trabalho
da última semana. Ambas, naquela época, docentes do Curso de Administração de Empresas do
Centro de Ciências Sociais e Aplicadas [CCSA] da Universidade Presbiteriana Mackenzie, tanto no
câmpus na cidade de São Paulo, quanto no câmpus de Barueri, município situado na grande São Paulo.
Naquele momento, conversavam mais uma vez sobre as dificuldades em obter dados primários para o
projeto de pesquisa que desenvolviam no Câmpus de Tamboré, em Barueri. Um ano antes, quando
propuseram o projeto ao Mackpesquisa(1), não imaginavam as dificuldades que encontrariam para
definir o universo de empresas no município de Barueri. Depois de tanto trabalho, as docentes ainda
não conseguiam responder a questões que lhes pareciam tão simples no começo: Quantas empresas
existem no município de Barueri? Quais suas características: setores de atividade, tamanho em volume
de venda e em faturamento? Quantos funcionários e qual perfil de cargos e funções?
O PROJETO DE PESQUISA
A unidade do CCSA – Tamboré, contava aproximadamente 1000 alunos, que frequentavam dois
cursos de graduação no período noturno: Administração de Empresas e Administração de Empresas
com Habilitação em Comércio Exterior. Naquele ano, o câmpus passara a ter turmas para ambos os
cursos também no período da manhã. Além disso, havia cerca de 150 alunos que frequentavam cursos
de pós-graduação lato sensu.
Como parte do planejamento do CCSA – Tamboré, um grupo de docentes, liderados por Helena,
desenvolveu um projeto de pesquisa, utilizando a prática de pesquisa-ação, com vistas a gerar
informações sobre características dos ambientes interno e externo daquela unidade de ensino. Tais
informações seriam a matéria prima para a geração de mudanças no currículo escolar e no projeto
pedagógico dos cursos de graduação, pós-graduação e extensão, em administração de empresas,
oferecidos no CCSA – Tamboré. Entende-se por projeto pedagógico um conceito amplo que se refere
ao conjunto de disciplinas e a todas as outras atividades desenvolvidas, tendo em vista a formação do
aluno(2). Como líder do projeto, Helena acreditava que mudanças no projeto pedagógico deveriam
acontecer a partir de duas premissas, explicitadas abaixo.
1) Todos os atores sociais relevantes para o CCSA – Tamboré, deveriam estar envolvidos. Portanto
docentes, discentes e representantes da comunidade empresarial circunvizinha deveriam participar
da construção de um novo projeto pedagógico. Não bastava repetir em Tamboré o projeto
pedagógico do Câmpus do Mackenzie em São Paulo. O objetivo do trabalho era consolidar um
espaço de ensino e pesquisa pertinente à identidade do público daquela região.
2) Ao planejar projetos pedagógicos, deve-se começar pelas reflexões de qual o perfil do aluno que
se quer formar. Tal ideia está em sintonia com as últimas diretrizes curriculares definidas pela Lei
nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, popularmente conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional ou simplesmente LDB/1996. Seguindo a ideia explícita na lei, só se poderia
pensar no aluno a formar, se o contexto social e econômico de todos os atores sociais envolvidos
com aquele espaço escolar fosse conhecido. Portanto o trabalho começaria por conhecer pessoas,
lugares, fatos e contextos que envolviam o CCSA – Tamboré.
Com base em tais premissas, surgiu o projeto de pesquisa Conhecendo Tamboré: uma análise do
ambiente que utiliza pesquisa-ação, projeto definido como proposta de investigação destinada a
gerar conhecimento sobre empresas da circunvizinhança, comunidade, docentes e discentes do CCSA
– Tamboré. Tal projeto recebeu fundos de apoio do Mackpesquisa e foi definido, originalmente, em
duas fases.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, pp. 558-569, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
Rosane Rivera Torres, Andréa Leite Rodrigues 560
Fase 1. Levantamento de características de empresas localizadas na circunvizinhança da unidade do
CCSA – Tamboré. Para fins operacionais, denominou-se como ambiente externo o conjunto de
organizações empresariais localizadas nos municípios de Barueri e adjacências. Dados quantitativos
seriam levantados por meio de questionário estruturado, disponibilizado eletronicamente para gestores
que trabalhassem em empresas da região. Levantar-se-ia um rol de informações junto a organizações,
potenciais parceiras da unidade, considerando os imensos parques industriais localizados nos
municípios de Barueri e vizinhos. A ideia era estabelecer estratégias de relacionamento, a partir de
programas de parceria para incentivo do intercâmbio entre empresas e universidade. Ao final desta
fase, os dados levantados deveriam ser suficientes para responder às seguintes questões:
1) Quais as empresas localizadas no município de Barueri?
2) Quais os setores da indústria, números gerais do faturamento e quantidade de funcionários?
3) As empresas identificadas na questão a oferecem incentivos à realização de cursos de graduação e
pós-graduação a seus funcionários? Em caso positivo, quais? Quais as características do público
potencial de alunado ligado ao quadro de funcionários destas organizações?
Que sabem os profissionais de gestão acerca das pessoas presentes nestas organizações sobre o
Mackenzie? E sobre o Mackenzie Tamboré?
Fase 2. Dedicada ao conhecimento da opinião de alunos e docentes do CCSA – Tamboré, quanto ao
currículo e projeto pedagógico da unidade. Entrevistas em profundidade e focus groups, técnicas
apropriadas à coleta de dados para pesquisas qualitativas, viabilizariam o conhecimento mais profundo
das impressões desses atores sociais.
O produto final do trabalho realizado nas duas fases seria um arcabouço de conhecimento para o
desenvolvimento de mudanças no currículo e no projeto pedagógico dos cursos de graduação e pósgraduação
em Administração de Empresas do CCSA – Tamboré.
O TRABALHO DAS PESQUISADORAS
No momento em que Helena e Sofia conversavam na sala dos professores, a realização da Fase 1
excedia em muito o tempo que fora planejado no cronograma do projeto, e ainda não havia resultados
confiáveis. Sofia, professora-doutora, com formação em métodos quantitativos de pesquisa, docente
em disciplinas de estatística e pesquisa em marketing, assombrava-se com a dificuldade em definir o
próprio universo! Sendo Barueri um município que oferece benefícios fiscais a empresas que lá se
estabelecem, ao tentar definir quantas empresas estão localizadas no município, as pesquisadoras
depararam-se com as chamadas empresas de papel, ou seja, apesar dos registros de uma empresa
constarem formalmente da relação das que estão localizadas no município, não raro suas operações e
atividades acontecem em outro lugar. Considerando que o objetivo do projeto de pesquisa era gerar
conhecimento sobre empresas vizinhas, com o fim de realizar parcerias, as empresas de papel não
ofereceriam nenhuma contribuição importante. Como definir, então, quantas empresas estavam, de
fato, em Barueri?
Helena e Sofia concluíram que, ao iniciar o projeto de pesquisa, não tinham a menor ideia da
dificuldade que enfrentariam para localizar empresas em Barueri, pois, transcorridos oito meses de
trabalho, ainda era alto o nível de dificuldade para concluir pelo menos a Fase 1. Vejamos como o
trabalho aconteceu.
Inicialmente, pensaram que o contato com a Prefeitura seria suficiente, porquanto esta já organizara
um sitio eletrônico (website), que continha um banco de dados com todas as empresas registradas no
município. Ao acessar http://www.barueri.sp.gov.br é possível obter facilmente uma lista com a relação das
empresas cadastradas no município, apresentadas em banco de dados com aproximadamente 19.000
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Afinal, Quantas Empresas tem esta cidade? 561
empresas, classificadas em 46 ramos ou setores econômicos. A partir disto, as professoras pensaram
em definir uma amostra probabilística estratificada. No entanto duas questões inviabilizaram esta
opção durante o trabalho de pesquisa.
Primeiramente, o banco de dados englobava todo tipo de empresa, o que gerava uma imensa
variedade de organizações, em tamanho e setor de atuação. Por conseguinte, havia registros de
empresas que variavam de ambulantes a filiais de empresas multinacionais de grande porte, como é o
caso da americana Hewlett Packard [HP]. Concluiu-se que não se poderia considerar o total de
registros do banco como equivalente ao universo de organizações para fins de definição da amostra,
pois o objetivo do projeto de pesquisa requeria entender as relações entre o ambiente circunvizinho e o
próprio CCSA – Tamboré. Consequentemente, o universo de organizações considerado deveria ser tal
que contivesse apenas organizações passíveis de estabelecer relações com o Mackenzie Tamboré. Este
não seria o caso, por exemplo, de farmácias, açougues ou cabeleireiros, para citar apenas alguns. Fezse,
então, um primeiro trabalho de seleção, restando 2973 empresas consideradas como potenciais
parceiros.
Em segundo lugar, empresas de papel não interessavam, por definição, pois não representariam
potenciais parceiros. Em outras palavras, dos 2973 registros resultantes da (ampla) eliminação de
microempresas do banco de dados, ainda deveriam ser desconsiderados todos aqueles relacionados a
organizações cujas fábricas e escritórios não estavam localizadas no município. Aqui residiu a maior
de todas as dificuldades do trabalho de pesquisa. Como saber se determinada razão social registrada
em Barueri representava ou não uma organização com atividade efetivamente desempenhada no
município?
Para lidar com estes obstáculos, as professoras precisaram de novos métodos para seleção.
Começaram tentando gerar listas telefônicas e realizar contatos. O procedimento mostrou-se moroso e
improdutivo, como se poderia esperar. O levantamento dos números de telefones já implicava listas
incorretas, incompletas ou que resultavam em contatos sem qualidade. Não raro, um número de
telefone correto estabelecia o contato com um escritório de contabilidade, contratado pela empresa de
papel para representá-la em Barueri.
As professoras, então, começaram a realizar levantamentos com os alunos, tentando gerar listas com
registros de local, endereço e telefone de contato profissional, com o objetivo de arregimentar nomes
de empresas (de verdade!) no município. Esse procedimento resultou bem mais produtivo; afinal os
próprios alunos começaram a promover apoio ao projeto de pesquisa dentro das empresas em que
trabalhavam ou estagiavam. Apesar da boa vontade e empenho de todos, o número de empresas que
aderiram por esta via de contato foi pequeno, em torno de 20 nomes apenas.
Helena e Sofia continuavam, portanto, diante de uma tremenda dificuldade em realizar a Fase 1 da
pesquisa. Como estabelecer o universo e o plano amostral de empresas que efetivamente estivessem
localizadas em Barueri? Como localizá-las? Qual seu perfil de atividade? Passados oito meses de
trabalho, estas perguntas ainda continuavam sem resposta e as pesquisadoras já cogitavam a hipótese
de deixar de lado a ideia de amostragem probabilística e pensavam fazer levantamentos por critérios
de acessibilidade às empresas. Outro problema: se assim procedessem, não seria possível avaliar as
reais possibilidades do CCSA – Tamboré, em termos de parcerias com empresas na região. Diante
deste cenário, as pesquisadoras se perguntavam: quais seriam os impactos da mudança de estratégia de
coleta de dados para a elaboração do novo projeto pedagógico?
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NOTAS DE ENSINO
Resumo do Caso
Barueri é um municipio da Grande São Paulo, localizado a oeste da capital. A cidade oferece alíquotas
diferenciadas para impostos a empresas que ali se instalam, tornando-se importante polo de atração industrial.
Em virtude da oferta de tais benefícios, o município ficou repleto de empresas de papel, ou seja, empresas se
estabelecem formalmente na cidade, mas não desenvolvem ali sua operação. Tal fato torna difícil a tarefa de
identificar organizações cujas operações aconteçam efetivamente no município. O contato telefonico com uma
empresa com sede em Barueri resulta, frequentemente, em tratar com um escritório de contabilidade que a
representa, uma vez que a operação está em outros lugares. A Universidade Presbiteriana Mackenzie pretendeu
produzir um trabalho de aproximação com empresas da região, em face dos planos de desenvolvimento
estabelecidos para o câmpus Tamboré, localizado em Barueri. Desta feita, era imprescindível definir universo e
plano amostral com empresas cujas operações ocorressem na circunvizinhança, com vistas a estabelecer
programas de parcerias. Deu-se, então, o desafio de encontrar quais organizações estavam efetivamente no
municipio, uma vez que as empresas de papel não interessavam para os propósitos de desenvolvimento do
campus. Como encontrá-las?
Palavras chave: método de pesquisa; pesquisa de campo; dados primários e plano amostral.
ABSTRACT
Barueri is a small country town, located to the west of São Paulo City. The town offers tax exemptions to
companies that set up business there, becoming an important industrial area and cluster. As a consequence,
Barueri has filled up with paper companies, that is, companies that exist only for formal burocratic purposes,
but which do not really conduct their operations there. The task of identifying which companies really conduct
their operations in the town is difficult. Frequently, a contact with a company with headquarters in Barueri
results in dealing with a professional accounting office professional which represents it, with the organization
effectively being located outside the town. The Presbyterian Mackenzie University intended to establish
relationships with companies of the region, considering the plans of development for the Tamboré Campus,
located in Barueri. Consequently, it was essential to define a universe and a sample of companies whose
operations occurred in the surrounding area of the Campus in order to establish partnership programs. It was
therefore faced with the challenge of finding which companies were effectively located in Barueri, since paper
companies have no interest in the development of the campus. How to find them?
Key words: research method; field research; primiry data; sample plan.
Objetivos educacionais do Caso
a) Proporcionar uma experiência vicariante para desenvolvimento de competências no levantamento
de dados primários confiáveis e pertinentes.
b) Possibilitar aos alunos enfrentar uma situação real na qual dados disponíveis publicamente não são
adequados para os objetivos de um estudo. Há, portanto, necessidade de desenvolver estratégia de
coleta alternativa.
Utilização Recomendada
O presente caso destina-se a disciplinas que tratem diretamente de questões básicas de um desenho
de pesquisa. É o caso, por exemplo, de Metodologia de Pesquisa, Pesquisa de Marketing,
Amostragem, entre outras. Sugere-se que seja material didático de apoio para a discussão de conteúdos
que requeiram definição de plano amostral, que envolve dados primários e secundários. Destina-se a
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promover debates sobre as formas eficientes e eficazes de se conduzir uma pesquisa de campo
segundo a moderna teoria de planejamento e condução de procedimentos amostrais.
QUESTÕES PARA DISCUSSÃO
Para que o debate flua, propomos que algumas questões sejam levantadas para iniciar discussão.
1) Que tipo de amostragem você recomendaria, considerando os objetivos do projeto de pesquisa e as
dificuldades em definir o universo e o plano amostral de empresas localizadas em Barueri?
2) Considerando as seguintes fontes de dados: respondentes, situações análogas, experimentação e
dados secundários, que tipos de fontes de dados são adequados para o objetivo a que o projeto
Conhecendo Tamboré se propõe?
3) Considerando as seguintes formas de abordagem: observação pessoal, observação mecânica,
auditoria, análise de conteúdo, análise de traço, entrevista pessoal, entrevista telefônica e
entrevista postal, que formas você utilizaria no projeto de pesquisa em questão?
4) Quais as limitações e erros trazidos aos dados, que essas fontes e abordagens podem ocasionar?
Como contornar estes problemas?
5) A que erros alheios à amostragem esta pesquisa está exposta?
Análise do Caso
Pode-se começar a discussão abordando a constante necessidade de obter dados sobre o ambiente no
qual uma organização qualquer esteja inserida. Isto é válido para atividades de planejamento
empresarial em geral, seja marketing, gestão de pessoas ou para estratégias de negócio ou
corporativas. Conhecer o ambiente é a primeira grande atividade de um trabalho de planejamento
estratégico.
Deve-se destacar quão difícil é obter dados primários, vide as tentativas das pesquisadoras. Mesmo
bases de dados públicas, como a do município de Barueri, requerem análise antes de serem
consideradas como recurso disponível para um processo decisório. Há que pensar nos limites e nos
erros em que se pode incorrer. Portanto, cabe a mesma atenção tanto para definir quais informações
são relevantes quanto para estabelecer como serão conseguidos os dados; ambos são momentos
cruciais para obtenção de dados íntegros, válidos e confiáveis para um processo decisório. Em vista
disto, vamos analisar as estratégias adotadas no estudo e as relações com a teoria.
As pesquisadoras planejaram, inicialmente, utilizar como fonte de dados para a pesquisa, dados
secundários provenientes do site http://www.barueri.sp.gov.br, assim como informações coletadas com os
gestores das empresas da região (respondentes). Segundo Kinnear e Taylor (1996), são quatro as
fontes básicas de dados: respondentes, situações análogas, experimentação e dados secundários. De
acordo com o exposto, você concorda com a estratégia adotada ou pode sugerir outra(s) fonte(s) de
dados?
A técnica de coleta de dados e forma de abordagem adotada foi levantamento por meio de entrevista
postal. Segundo Malhotra (2001) e Aaker, Kumar e Day (1995), existem duas formas de coleta de
dados: levantamento e observação. Os autores afirmam que as formas de abordagem para a técnica de
observação são: observação pessoal, observação mecânica, auditagem, análise de conteúdo e análise
de traços. Já as formas de abordagem para a técnica de levantamento são: entrevista pessoal, entrevista
telefônica e entrevista postal. Considerando essas informações, que técnica de coleta de dados e forma
de abordagem você utilizaria? E ainda, considerando que é possível combinar as formas de
abordagem, conforme sugere Aaker et al. (1995) na figura 2, que combinação de abordagem você
utilizaria para o caso proposto?
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Quanto ao tipo de amostragem, as pesquisadoras propuseram, inicialmente, amostragem
probabilística estratificada (estratificada por setor econômico); no final da pesquisa, já estavam
cogitando a possibilidade de utilizar amostragem não-probabilística por acessibilidade. Sabemos que
existem dois grandes grupos de amostragem: a amostragem probabilística, que permite generalizações
para a população; e a amostragem não-probabilística, que não garante a representatividade da
população. Sabemos ainda que os tipos de amostragem probabilística mais usuais são: aleatória
simples, estratificada, sistemática e conglomerado. Já os tipos de amostragem não-probabilística são:
acessibilidade, julgamento e cotas. Considerando todas essas possibilidades de tipos de amostragem,
que tipos de amostragem você utilizaria?
Durante o desenrolar da pesquisa, as pesquisadoras encontraram algumas dificuldades na coleta de
dados, que poderiam ser potenciais fontes de erro. Sabemos também que o erro total de uma pesquisa
é composto por erros de amostragem e por erros alheios à amostragem, segundo Pérez (1999),
conforme mostra a figura 3. Utilizando como base a figura 3, a que erros alheios à amostragem a
pesquisa estava exposta?
Como vimos, é de fundamental importância estabelecer, com base nos objetivos do projeto, quais
serão as formas para a coleta das informações, quais os critérios de amostragem e quais são os
possíveis limites e erros em que se pode incorrer, considerando o que cada forma de coleta e análise
implica, lembrando que uma das principais competências do gestor contemporâneo é a capacidade de
tomar decisões rápidas, porém com pertinência.
Conteúdo Teórico Relevante
Fontes Básicas de Dados de Pesquisa
Para Kinnear e Taylor (1996), há quatro fontes básicas de dados de pesquisa: respondentes, situações
análogas, experimentação e dados secundários. Essas fontes são acessadas por meio de técnicas de
coleta, que podem ser de duas naturezas: observação e levantamento. Cada uma dessas técnicas utiliza
abordagens distintas. Na observação, segundo Malhotra (2001), podemos utilizar as seguintes
abordagens: observação pessoal, observação mecânica, auditoria, análise de conteúdo e análise de
traço. No levantamento, segundo Aaker et al. (1995), há três abordagens básicas: entrevista pessoal,
entrevista telefônica e entrevista postal. (Figura 1)
Figura 1. Dados: Fontes, Técnicas de Coleta e Formas de Abordagem
Essas classificações de fontes de dados, técnicas de coleta e formas de abordagem estão
apresentadas a seguir.
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Fontes de Dados
As quatro fontes de dados relacionadas por Kinnear e Taylor (1996) constituem famílias amplas.
Segundo esses autores,
. Os respondentes são as maiores fontes de dados. Há dois métodos principais de se obter dados dos
respondentes: comunicação e observação. Comunicação requer que o respondente tenha um papel
ativo de prover informação, enquanto que a observação requer o registro do comportamento
passivo do respondente.
. O exame de situações análogas é forma lógica de estudar uma situação de decisão e inclui os
estudos de caso e simulações.
. A experimentação é fonte relativamente nova de dados. Os dados de um experimento são
organizados de tal forma que podem ser testadas premissas em relações de causa e efeito. Um
experimento é realizado quando uma ou mais variáveis independentes são premeditadamente
controladas ou manipuladas, e seus efeitos na(s) variável(eis) dependente(s) são medidos.
. Dados secundários são aqueles já publicados e podem ser classificados como originários de fontes
internas ou externas.
Técnicas de Coleta
Para Malhotra (2001, p. 193), a “observação envolve o registro sistemático de padrões de
comportamento das pessoas, objetos e eventos, a fim de obter informações sobre o fenômeno de
interesse. O observador não interroga as pessoas que estão sendo observadas, nem se comunica com
elas”.
Já o levantamento, segundo Aaker et al. (1995), é a principal escolha dos pesquisadores para a coleta
de dados primários. Sua principal vantagem é a capacidade de coletar uma grande quantidade de dados
sobre um respondente individual, de uma só vez. Para vários tipos de dados, o levantamento é o único
modo de coleta. A segunda vantagem dessa técnica é a versatilidade, sendo adaptável para pesquisas
tanto do tipo descritivo quanto causal.
Formas de Abordagem
Na visão de Malhotra (2001), a técnica da observação pode classificar-se, segundo sua forma de
abordagem, em observação pessoal, observação mecânica, auditagem, análise de conteúdo e análise de
traços. De modo resumido, o autor apresenta essas formas como segue.
. Observação pessoal é a estratégia de pesquisa de observação em que os observadores humanos
registram o fenômeno em análise tal como ele ocorre.
. Observação mecânica é a estratégia de pesquisa observacional em que dispositivos mecânicos, e
não observadores humanos, registram o fenômeno que está sendo observado.
. Auditoria é a forma de abordagem na qual o pesquisador coleta os dados examinando os registros
físicos ou fazendo análise do inventário.
. Análise de conteúdo é a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo efetivo de uma
comunicação.
. Análise de traço é a abordagem em que a coleta de dados está baseada em traços físicos, ou
evidências, de um comportamento passado.
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Rosane Rivera Torres, Andréa Leite Rodrigues 566
Segundo Aaker et al. (1995), as três modalidades de abordagem relacionadas aos levantamentos
podem ser sintetizadas da seguinte forma.
. Entrevista pessoal é a abordagem em que o processo é caracterizado pela interação de quatro
entidades: pesquisador, entrevistador, entrevistado e ambiente de entrevista. Coletivamente essas
características influem no processo de entrevista e, em última análise, na entrevista em si. Durante a
entrevista pessoal, entrevistador e entrevistado interagem e simultaneamente influenciam um ao
outro.
. Entrevista telefônica é uma abordagem cujo processo é, geralmente, bastante similar à entrevista
pessoal. Há somente alguns aspectos únicos da entrevista telefônica, tais como a seleção de números
telefônicos, a resposta a chamadas, a apresentação, o momento da chamada e os relatórios de
chamada que exigem técnicas específicas.
. Entrevista postal pode ser realizada tanto via correio tradicional, quanto por fax ou correio
eletrônico. Nesta abordagem, tradicionalmente têm sido enviados questionários a potenciais
participantes do estudo, que os completam e devolvem. Ao contrário da entrevista pessoal e
telefônica, a entrevista postal requer ao menos alguma identificação do indivíduo participante da
amostra antes que a coleta de dados se inicie, uma vez que é necessário um endereço – físico ou
eletrônico – para o questionário ser postado.
Uma vez que cada uma das abordagens tem características próprias, algumas vezes é útil combinálas
para alcançar o melhor de cada uma delas e minimizar suas limitações. Algumas combinações ou
sequências factíveis foram relacionadas por Aaker et al. (1995) e estão ilustradas na Figura 2.
Figura 2. Combinações ou Sequências de Abordagens
Fonte: Aaker et al. (1995, como citado em Guimarães, R. T. (2005). Avaliação de marca das instituições de ensino superior
no segmento de mestrado e doutorado em administração: uma abordagem multivariada. Tese de doutorado, Universidade de
São Paulo, São Paulo, Brasil, p. 120).
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Afinal, Quantas Empresas tem esta cidade? 567
Classificação dos Tipos de Amostragem
Nas pesquisas, em geral, são utilizados diversos tipos de amostragens, que são classificadas em dois
grandes grupos: amostragens probabilísticas e não-probabilísticas. A amostragem probabilística exige
que cada elemento da população possua determinada probabilidade de ser selecionado, e os elementos
que irão compor a amostra são sorteados aleatoriamente. Ao utilizarmos um procedimento de
amostragem probabilística, é possível a generalizar os resultados da pesquisa para a população. Os
tipos mais comuns de amostragem probabilística são aleatória simples, estratificada, sistemática e por
conglomerado. Já na amostragem não probabilística, há escolha deliberada dos elementos da amostra e
não é possível generalizar os resultados das pesquisas para a população, pois as amostras nãoprobabilísticas
não garantem a representatividade da população. Os procedimentos da amostragem
não-probabilística mais usuais são por acessibilidade, por julgamento e por quotas. Segundo Osuna
(1991), os procedimentos não-probabilísticos são muito mais críticos em relação à validade de seus
resultados; todavia apresentam algumas vantagens, sobretudo no que se refere ao custo e ao tempo
despendido.
Segundo Pérez (1999), quando executamos uma pesquisa, devemos ter em mente que estamos
sempre sujeitos a erros. Esses erros ocorrem por diversas causas e podem ser classificados em erros de
amostragem (ou erros aleatórios) e erros alheios à amostragem (ou erros sistemáticos). Como exemplo
de erros de amostragem, podemos citar o erro originário da variabilidade dos valores obtidos no
processo de amostragem; como exemplo de erros alheios à amostragem, há os erros produzidos por
métodos tendenciosos de medição. (Figura 3)
Figura 3. Erro Total
Fonte: Pérez (1999, como citado em Torres, R. R. (2000). Estudo sobre os planos amostrais das dissertações e teses em
Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo e da Escola de
Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: uma contribuição crítica. Dissertação de mestrado,
Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, p. 148).
Podem ocorrer erros nos resultados, em uma amostra particular, segundo Pérez (1999), causados
pelos respondentes, entrevistadores, codificadores ou outros sujeitos envolvidos com a pesquisa, assim
como é possível que o motivo do erro compreenda mais de um destes. O entrevistado, por exemplo,
pode não compreender a pergunta, não conhecer as respostas ou ser influenciado pelo entrevistador.
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Os erros de amostragem e os erros alheios à amostragem têm, em geral, distintas fontes, efeitos e
métodos de medida. A redução dos erros de amostragem pode ser assegurada com o aumento do
tamanho da amostra; entretanto, para reduzir os erros alheios à amostragem, é preciso algo mais,
como, por exemplo, uma supervisão ou um programa de controle. Para Malhotra (2001), é importante
salientar que há muitas fontes de erro e que, em pesquisa, o pesquisador deve tentar minimizar o erro
total e não somente uma única fonte de erro em particular.
DESDOBRAMENTOS DO PROJETO DE PESQUISA
Para fins de esclarecimento, cabe fazer saber aos docentes que utilizarem este Caso de Ensino que as
pesquisadoras lançaram mão de várias tentativas para estabelecer amostragem probabilística, tal qual
haviam proposto no projeto de pesquisa aprovado pelo MackPesquisa. Vistas todas as dificuldades
para conseguir dados sobre empresas que estivessem de fato em Barueri, as docentes fizeram o
seguinte.
Tendo em mãos o banco de dados elaborado pela Prefeitura de Barueri, ambulantes, farmácias,
açougues, bancas de jornais, cabeleireiros, entre outros setores, foram imediatamente excluídos,
considerando improvável encontrar ali profissionais relacionados a uma instituição de ensino superior
de administração de empresas. Analogamente, excluíram microempresas [ME], retirando das listagens
todos aqueles registros que contivessem ME na razão social. Com estas determinações, chegaram a um
universo de 2973 nomes, aproximadamente; houve sensível diminuição em relação aos 19.000 iniciais,
mas ainda havia um universo muito grande e, pior ainda, desconhecido.
Saíram pelo município de automóvel e tomaram nota do nome das empresas ao passar por elas, nas
vias públicas. Este método é perfeito para garantir que o contato seria mesmo feito com empresas que,
de fato, estão localizadas em Barueri. Porém ainda restava o trabalho de contato e de convencimento à
participação da organização na pesquisa, além de ser método caro, dispendioso e que exige muito
tempo.
Obter do IBGE uma lista de empresas selecionadas via censo empresarial. Após obter algumas
respostas a questionários enviados eletronicamente, as pesquisadoras concluíram que havia uma
relação positiva entre tamanho da empresa, em termos de quantidade de funcionários e possibilidades
de parceria, com uma Instituição Superior de Ensino. Empresas com mais funcionários têm, em geral,
mais chance de se interessar por aproximação com organizações que proporcionem formação e
treinamento. As docentes entraram, então, em contato com o IBGE para que disponibilizasse os nomes
e o contato de empresas com mais de 100 funcionários trabalhando em Barueri. Com esta tentativa, foi
possível conseguir uma lista com 214 nomes de empresas localizadas no município.
Após todas estas tentativas, o trabalho de levantamento resultou em 115 registros, dos quais 89
foram considerados válidos. A amostra, inicialmente definida como probabilística estratificada,
precisou ser redefinida, tornando-se uma amostra não-probabilística por acessibilidade. Com estas
empresas, foram realizadas análises exploratórias, certos das limitações que estes resultados podem ter
em função das dificuldades para definir o próprio universo de pesquisa.
NOTAS
1 Fundo Mackenzie de Pesquisa, abreviadamente MackPesquisa, foi criado em 1997 e é regulado por regimento próprio,
aprovado em 28 de novembro de 1998 pelo Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano Mackenzie. O MackPesquisa
tem como objetivo básico incentivar a prática da investigação, pura ou aplicada, financiando projetos de pesquisa de interesse
institucional, de acordo com a viabilidade econômica do Fundo e da relevância científica do projeto. (Fonte:
http://www.mackenzie.br/mackpesquisa).
2 Tal entendimento sobre o conceito de projeto pedagógico está contido em obras como Masetto, M. T. (2003). Competência
pedagógica do professor universitário. São Paulo: Summus e Zabalza, M. A. (2004). O ensino universitário: seu cenário e
seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Sons.
Guimarães, R. T. (2005). Avaliação de marca das instituições de ensino superior no segmento de
mestrado e doutorado em administração: uma abordagem multivariada. Tese de doutorado,
Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
Kinnear, T. C., & Taylor, J. R. (1996). Marketing research: an applied approach (5th ed.). New York:
McGraw-Hill.
Malhotra, N. K. (2001). Pesquisa de marketing: uma orientação aplicada. Porto Alegre: Bookman.
Osuna, J. R. (1991). Métodos de muestreo. España: CIS.
Pérez, C. (1999). Técnicas de muestreo estadístico: teoría, práctica y aplicaciones informáticas.
Madrid: RA-MA.
Torres, R. R. (2000). Estudo sobre os planos amostrais das dissertações e teses em Administração da
Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo e da
Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: uma contribuição
crítica. Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
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Estilos de Comportamento de Profissionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I)

Estilos de Comportamento de Profissionais de Ciência, Tecnologia
e Inovação (C,T&I)
Professional Behavioral Styles in Science, Technology and Innovation (STI)
Roberto Coda *
Livre-Docente em Administração pela USP.
Professor da USCS, São Caetano do Sul/SP, e da FEA/USP, São Paulo/SP, Brasil.
Maria Filomena Fontes Ricco
Doutora em Administração pela USP.
Professora de Pós-graduação (UNITAU), Taubaté/SP, e na (UNIFA), Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
* Endereço: Roberto Coda
Universidade Municipal de São Caetano do Sul. R. Santo Antonio, 50, Centro, São Caetano do Sul/ SP, 09521-
160. E-mail: roberto.coda@uscs.edu.br
Copyright © 2010 RAC. Todos os direitos, inclusive de tradução, são reservados. É permitido
citar parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Estilos de Comportamento de Profissionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) 517
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 7, pp. 516-531, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
RESUMO
A partir dos conceitos de Orientação Motivacional e de Estilo de Mobilização, criados com base no pensamento
de Erich Fromm sobre personalidade, e à luz de estudos voltados para a gestão de pessoas em ambiente de
C,T&I, este trabalho visa identificar padrões de comportamento no trabalho de profissionais que atuam em
organizações de C,T&I, intencionando, dessa forma, fornecer subsídios para a contratação, desenvolvimento e
alocação de profissionais, hoje denominados trabalhadores do conhecimento. Em uma abordagem
empíricoanalítica, utiliza-se o Diagnóstico M.A.R.E. para coletar dados de amostra de 643 profissionais de
organizações de C,T&I e os compara com os de outra amostra, composta por 4.981 casos, previamente coletados
em organizações de diferentes áreas de atuação e em âmbito nacional. Diferentemente do que ocorre em relação
à amostra nacional, os resultados indicam haver predominância, nas organizações alvo do estudo, dos estilos de
mobilização Especialista e Competidor, e um decréscimo de representatividade dos estilos de mobilização
Mantenedor e Conquistador, sugerindo haver peculiaridades de comportamento e de cultura organizacional para
os profissionais e organizações estudados, o que os caracteriza como grupo diferenciado, com padrões
comportamentais específicos.
Palavras-chave: estilo comportamental; gestão estratégica de pessoas; ambiente de C,T&I.
ABSTRACT
Using the constructs of Motivational Orientation and Mobilization Style based on Erich Fromm´s thoughts on
personality and considering studies related to people management in STI environments, this paper aims to
identify behavioral work patterns of professionals operating in STI organizations as a way to provide insights for
the hiring, development and staffing of knowledge workers. The empirical research uses the M.A.R.E.
Diagnostic to gather data of a sample of 643 professionals performing research duties mainly in R&D institutes
and compares them to those of a sample composed of 4,981 cases collected nationwide and in organizations of
different kinds. Results show predominance of the Mobilization Styles named Specialist and Competitor as well
as a reduction in the styles denominated Maintainer and Conqueror, as behavioral work patterns, suggesting the
existence of different and specific behaviors and organizational culture for the professionals and organizations
involved in the study.
Key-words: behavioral style; strategic people management; STI environment.
Roberto Coda, Maria Filomena Fontes Ricco 518
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 7, pp. 516-531, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
INTRODUÇÃO
Objetivos do Trabalho
Em ambientes organizacionais, a conscientização e a identificação de padrões ou estilos
comportamentais contribuem para o reconhecimento de tendências nas ações dos profissionais,
facilitando seu gerenciamento, orientando seu treinamento e desenvolvimento, bem como sua alocação
no trabalho por mediação da garantia de um equilíbrio entre preferências individuais e necessidades ou
requisitos dos cargos que ocupam.
Este trabalho pretende utilizar uma abordagem concebida especialmente dentro do contexto cultural
das organizações brasileiras, a partir de contribuições de especialistas em comportamento humano,
para identificar e descrever padrões de ação de profissionais em situações de trabalho, aplicando-a em
organizações atuantes na área de C,T&I.
A contribuição pretende verificar se há estilos ou padrões dominantes de comportamento dos
profissionais que estão construindo suas carreiras nessa área, o que poderá vir a fornecer subsídios
para a sua contratação, retenção e desenvolvimento, por meio do respeito e consideração dos inerentes
pontos fortes e fracos associados ao estilo representativo.
Especificamente, em comparação com os resultados da amostra brasileira, pretende-se verificar se
nas organizações de C,T&I os profissionais apresentam os sete Estilos de Mobilização Brasileiros e se
existe predominância de algum deles. Tal confirmação os caracterizaria diferentemente dos
respondentes da amostra nacional, entre os quais não há prevalência de padrão de comportamento,
contribuindo para maior compreensão das peculiaridades da área e sugerindo características que
podem ser utilizadas na incorporação, capacitação e organização de equipes de pesquisa.
GESTÃO DE PESSOAS EM AMBIENTE DE C,T&I
O pressuposto desse tópico é tecer considerações sobre particularidades da gestão de pessoas em
organizações que lidam com ciência, tecnologia e inovação, no que diz respeito a temas tais como
motivação, retenção e eficácia no aproveitamento de talentos, bem como buscar subsídios para a
identificação de perfis comportamentais profissionais mais presentes nessas instituições e suas
respectivas características.
Recente pesquisa teve como objetivo caracterizar o que representa um ambiente de pesquisa
favorável, a partir de levantamento realizado com três importantes laboratórios do Departamento de
Energia do governo americano. Jordan (2005) identifica, em primeiro lugar, que há
surpreendentemente poucos dados empíricos disponíveis para ajudar gestores de institutos de pesquisa
na tarefa de atrair e reter trabalhadores eficazes na área de Pesquisa e Desenvolvimento [P&D]. A
maioria das pesquisas sobre atitudes e satisfação desses trabalhadores não contempla os atributos
específicos que cientistas e engenheiros consideram ser particularmente importantes para organizações
de pesquisa. Esses estudos não consideram, por exemplo, que pesquisadores trabalham menos por
dinheiro e mais por glória, isto é, pelo desafio de superar problemas científicos ou técnicos, bem como
pela satisfação de exercitar sua criatividade e obter aprovação do seu trabalho da parte dos seus pares.
O estudo aponta que a qualidade dos profissionais de pesquisa é o fator mais importante para a
excelência nas atividades de P&D. O elenco completo de fatores para retenção e motivação de
pesquisadores revelados neste trabalho inclui os seguintes aspectos: visão e estratégia de pesquisa
existentes no instituto, investimento em competências futuras, senso de desafio e de entusiasmo,
indicadores de sucesso em nível de projeto, estilo de gestão informal e decisivo, reconhecimento e
recompensas baseados no mérito, identificação de novas oportunidades, valorização a longo prazo da
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pesquisa fundamental e cuidadosa interpretação dos resultados (Jordan, 2005). A presença, portanto,
desses diferentes fatores configura aquilo que, na visão dos pesquisadores consultados, seria o
ambiente de pesquisa adequado, uma vez que a presença desses fatores alavancaria a satisfação e o
desempenho dos pesquisadores.
Maccoby (2005) considera que expressiva parcela do trabalho do gestor de P&D é compreender as
pessoas com quem trabalha, não somente fazendo uma avaliação de como elas se desempenham da
função, mas principalmente tentando prever como irão atuar em novos papéis ou funções. Sugere que,
diferentemente do que ocorre nas ciências naturais, a dificuldade apontada encontra-se no fato de que
não é possível realizar experimentos controlados e em laboratório com pessoas e, mesmo que fosse
possível, o número de variáveis envolvidas seria de tal ordem, que ficaria inviável avaliar todas elas.
Por outro lado, indica como saída a utilização de teorias e tipologias psicológicas para o desafio de
compreender pessoas nas organizações, até mesmo nas organizações de ciência, tecnologia e inovação.
Embora existam diferentes abordagens e metodologias para a avaliação de traços de personalidade,
como, por exemplo, o diagnóstico Myers-Briggs Type Indicator [MBTI], que toma por base a
contribuição do psicanalista C. G. Jung, Maccoby (2005) considera particularmente útil, para a
compreensão de pessoas e de comportamentos gerenciais no trabalho, as contribuições de Freud e as
de seu revisionista, à luz do aspecto cultural, Eric Fromm, que propôs as orientações Receptiva,
Acumuladora, Exploradora e Mercantil, como formas de interação do indivíduo, as quais definem sua
maneira de ser.
A contribuição de Fromm para estudos posteriores, em especial aos voltados para os estilos de
comportamento, centra-se em quatro comportamentos básicos: Aceitar, Tomar, Conservar e Permutar,
com seus aspectos positivos e negativos, resultantes da combinação de orientações identificadas com
base no processo de assimilação (Fromm, 1990, p. 116; Cf. Ricco, 2004, pp. 31-38). Para ele, todas as
orientações se encontram na bagagem humana. Se há o predomínio de qualquer uma delas, é sobretudo
em função da peculiaridade da cultura em que o indivíduo vive (Fromm, 1983, p. 74).
Destaca-se também a contribuição do estudo de Beck e Wade (2004), traçando um perfil das
personalidades de jovens profissionais que atuam na área técnica e de pesquisa. As características
citadas nesse último estudo são especialização (ser competente em algo e saber recuperar-se do
fracasso); considerar tudo possível (sempre há uma resposta que é encontrada na base da tentativa e
erro); competição como estado natural (não esperar por nada); trabalho em equipe (desde que
estruturado de tal modo que cada um tenha seu papel específico); visão global, ambição, preferência
por recompensas, baseadas em resultados e desconsideração da liderança.
Sem dúvida, contar com grupo de profissionais técnicos altamente motivados é um dos ingredientes
essenciais para aumentar o desempenho inovador necessário, para que a organização continue
sobrevivendo no atual ambiente competitivo global (Cf. Mangelsdorf, 2009). Katz (2005), ao aplicar o
modelo de enriquecimento do trabalho de Hackman e Oldham (1980) a profissionais que atuam na
área de pesquisa e desenvolvimento, aponta que estabelecer uma identidade profissional é o primeiro e
crítico passo na direção da construção de uma carreira técnica de sucesso.
É importante também destacar que, ao aplicar o modelo da excelência em negócios ao contexto de
dois laboratórios de pesquisa, desenvolvimento e inovação, como forma de descobrir o que significa
uma gestão de qualidade em pesquisa, Weggeman e Groeneveld (2005) operacionalizam uma série de
recomendações tangíveis, as quais se revelaram úteis para uma administração eficaz das atividades de
pesquisa. No âmbito do presente trabalho, é de especial interesse a sugestão de efetuar a mensuração
de papéis preferidos ou existentes dentro dos diferentes grupos de pesquisa, identificando aqueles que
são mais responsáveis pela geração de idéias técnicas de valia, quais os que questionam
sistematicamente as idéias geradas, quais os que conduzem os experimentos mais críticos, quais os que
contribuem para a construção de parcerias eficazes, quais os que estabelecem conexões com o
negócio, e assim por diante, de modo a permitir e incentivar que cada um possa desempenhar o papel
que conhece melhor ou aquele a que melhor se adapta.
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Para Maccoby (2006) ninguém parece ter encontrado a maneira perfeita de gerenciar trabalhadores
do conhecimento, especialmente aqueles dos quais é esperada a criação de novos conhecimentos. Em
sua visão, quanto mais complexa a natureza do trabalho científico desempenhado pelo pesquisador,
mais a produtividade irá depender das qualidades apresentadas pelos diferentes indivíduos que atuam
como cientistas. Cita, ainda, resultados encontrados por Davenport (2005) voltados para configurar o
perfil dos trabalhadores eficazes do conhecimento. Esse perfil indica que pesquisadores eficazes são
aqueles que, em primeiro lugar, são bons aprendizes. Em segundo lugar, conseguem estabelecer redes
de relacionamento internas e externas do instituto onde atuam, baseadas não na busca de melhores
oportunidades de carreira, mas em oportunidades de aumentar seu conhecimento. Finalmente,
considera que os profissionais com desempenho superior são aqueles que conseguem tempo para ler,
falar com pessoas, refletir e pensar, adotando como postura pessoal eu sei, eu faço. Este autor também
afirma que trabalhadores do conhecimento apresentam melhor desempenho, quando compreendem o
ramo de negócios no qual sua organização se insere. Para ele uma organização de P&D é parte de um
sistema sociotécnico, que tem propósito e estratégia empresarial claramente definida. Novamente,
citando Davenport (2005), deixa claro que trabalhadores do conhecimento ou pesquisadores,
especialmente os mais qualificados, são profissionais difíceis de gerenciar. São pessoas que detestam a
burocracia e que criticam mudanças organizacionais emanadas da cúpula da organização. Querem
trabalhar numa cultura que contemple a colaboração; a melhor maneira de engajá-los em novas
políticas e processos é envolvê-los no desenho de seu próprio trabalho. Por outro lado, podem
necessitar de educação voltada para a eficácia educacional, como, por exemplo, saber conduzir uma
reunião para obter bons resultados, usar tecnologia pessoal, organizar a informação eficientemente e
ensinar aos outros aquilo que sabe. Nesta missão de gerenciar esse tipo de profissional, enfatiza, ainda,
a importância, para os líderes de equipes, de entender a personalidade dos pesquisadores da equipe,
levando em conta as diferenças individuais por eles apresentadas.
Conduzido por Vojak, Griffin, Price e Perlov (2006), outro estudo, voltado para explorar as
características que mais frequentemente aparecem em profissionais técnicos que atuam em pesquisa
industrial e que são percebidas como aquelas que mais contribuem para que seja obtido sucesso nas
atividades desempenhadas, aponta que o principal traço desses profissionais é incorporar, de modo
eficaz, múltiplas tecnologias à estratégia empresarial, identificando inovadoras aplicações para
produtos e processos. A amostra utilizada foi de 418 pesquisadores americanos e ingleses e o estudo
fornece também considerações a respeito do perfil e das características e traços desses profissionais.
Além da reconhecida profundidade e amplitude de seu conhecimento técnico, esse tipo de profissional
encontra-se emocionalmente envolvido com o que faz, demonstra grande energia no trabalho, é
persistente na busca e realização de objetivos e conta com habilidades de relacionamento interpessoal.
Profundo conhecedor do negócio de sua organização, detentor de elevada competência para explorar
as oportunidades que seu ambiente lhe oferece e idealista, são as outras características com as quais
tais profissionais se apresentam e que, muitas vezes, acabam contribuindo para o sucesso alcançado,
mais do que suas próprias competências técnicas.
A LINHA DE PESQUISA M.A.R.E. E OS ESTILOS DE MOBILIZAÇÃO BRASILEIROS
Iniciada com a construção e validação de um instrumento de coleta de dados, denominado
Diagnóstico M.A.R.E. de Orientação Motivacional, a linha de pesquisa M.A.R.E. vem avançando no
que concerne ao mapeamento de perfis comportamentais brasileiros, sua identificação e aplicações.
Apresentada como uma metodologia nacional desenvolvida para identificar comportamentos nas
organizações de trabalho, os estudos baseiam-se nas contribuições psicanalíticas de Erich Fromm
sobre a personalidade humana e em teorias sobre liderança e motivação no trabalho (Coda, 2000).
O Diagnóstico M.A.R.E. se baseia em quatro orientações motivacionais, cujas iniciais compõem o
seu nome. São elas: Mediadora, Analítica, Receptiva e Empreendedora. A Tabela 1 apresenta uma
síntese das principais características de cada uma das orientações motivacionais aqui tomadas como
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referencia e já com as adaptações realizadas para o contexto das organizações de trabalho, bem como a
visualização do paralelo estabelecido entre a classificação proposta por Coda (2000) e aquela
originariamente desenvolvida por Fromm (1990).
Tabela 1
Principais Características das Orientações M.A.R.E.
Mediadora
Mercantil (Fromm)
Analítica
Acumuladora (Fromm)
Receptiva
Receptiva (Fromm)
Empreendedora
Exploradora (Fromm)
Orientado para
relacionamentos
Busca de harmonia e de
integração entre visões
conflitantes em
situações de trabalho
Compreensão das
necessidades das
pessoas
Hábil para vender novas
idéias
Facilidade para atuar em
grupos, naturalmente
gregário, sociável e
afetuoso
Orientado para estratégias
Busca continuidade nas
ações e processos
Orientado para elevados
padrões de qualidade em
tarefas e procedimentos
Guiado pela lógica e
racionalidade
Excelente visão de longoprazo
Impessoal, objetivo e
sincero
Evita riscos
Orientado para pessoas
Identificador dos talentos
das pessoas
Grande interesse em
desenvolver suas próprias
habilidades e
competências, bem como
aquelas dos demais
Reconhece o valor da
diversidade
Viabiliza coisas em lugar
de dificultá-las
Orientado para resultados
Prefere mudanças e
desafios constantes
Grande capacidade de agir
e obter aquilo que dele é
esperado
Movido por poderosa e
expressiva imaginação
Explora novos mercados e
oportunidades de negócio
Nota. Fonte: elaborado com base em Coda, R. (2000, March). Understanding intrinsic motivation: a research among
Brazilian professionals. Proceedings of Annual Research Conference of Academy of Human Resource Development, Raleigh-
Durham, North Carolina, USA, pp. 8-11.
Importante salientar que a abordagem considera que os profissionais no trabalho apresentam todas
essas orientações durante o exercício de suas atividades; as diferenças ocorrem na quantidade e ordem
de preferência de utilização de cada uma delas.
De acordo com Coda (2000), uma versão preliminar do Diagnóstico foi administrada a 540 gerentes
e profissionais técnicos e os dados foram tratados com análise dos fatores comuns e com análise
discriminante, o que possibilitou detectar os eventos mais relevantes e as alternativas mais sensíveis
para a avaliação de cada uma das orientações. Os resultados desta fase identificaram, então, os 16
eventos ou questões e também as 64 alternativas mais adequadas para avaliar as 8 variáveis
resultantes, ou seja, cada uma das 4 orientações motivacionais, tanto em condições normais, quanto
em trabalho sobre pressão.
Para melhor compreensão do instrumento, a Tabela 2 apresenta as instruções para o seu uso e o
Tabela 3 apresenta fragmentos do seu conteúdo. Uma versão completa do Diagnóstico M.A.R.E. pode
ser encontrada em Sápia (2009).
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Tabela 2
Diagnóstico M.A.R.E. – Instruções para Preenchimento
Para cada uma das questões apresentadas você encontrará uma afirmativa inicial que deve ser complementada
pelos 4 finais descritivos que a seguem.
Exemplo:
QUESTÃO 01 01 GOSTO MUITO DE PESSOAS QUE SÃO:
a. 2 a. Sinceras, honestas e que inspiram confiança.
b. 4 b. Rápidas no agir e diretas.
c. 3 c. Lógicas e ponderadas.
d. 1 d. flexíveis e sociáveis.
Assim, se a descrição apresentada como complemento da afirmativa proposta que mais se aproxima daquilo
que você considera ser verdadeiro sobre você mesmo for aquela contida na letra ‘b’, atribua a ela nota 4; se a
descrição contida na letra ‘c’ for quase inteiramente parecida com você, dê-lhe nota 3; se aquela apresentada
na letra ‘a’ for muito pouco parecida com você, atribua-lhe nota 2; e finalmente, se a descrição contida em ‘d’
não for em nada semelhante à situação que mais favorece a sua motivação no trabalho, coloque nota 1 à frente
dessa alternativa de descrição, conforme indicado no exemplo acima.
Nota. Fonte: extraído de Miguel, L. F. (2009). Estilos comportamentais dos profissionais da área de relações com
investidores. Dissertação de mestrado, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul, SP, Brasil, p. 45,
e Sápia, T. (2009). Perfis comportamentais e estilos de mobilização de enfermeiros gestores de um serviço de medicina
diagnóstica. Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil, p. 146.
Tabela 3
Fragmentos do Diagnóstico M.A.R.E.
Afirmação Complemento apresentado para escolha
1. Prefiro realizar meu trabalho em
situações onde posso:
a. Ter independência, autonomia e liberdade para agir.
b. Adaptar e integrar meus conhecimentos às necessidades da
empresa e do grupo com o qual trabalho.
c. Aplicar as técnicas mais adequadas, gerando soluções de
qualidade e dentro dos padrões estabelecidos.
d. Interagir com um grupo que possui grande afinidade.
13. Não gosto de conviver no
trabalho com pessoas que:
a. São dependentes, sem iniciativa e não gostam de ampliar seus
horizontes.
b. São rígidas em seus pontos de vista e insensíveis aos valores e
necessidades do grupo.
c. Deixam-se guiar mais pela intuição e gostam de atuar em
ambiente de constante mudança.
d. São muito individualistas, além de muito críticas em relação ao
grupo.
Nota. Fonte: Ricco, M. F. F. (2004). Construindo perfis comportamentais em ambiente organizacional: os estilos de
mobilização dos gestores brasileiros. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil, p. 43.
Obtido com amostra significativa, postula-se que um bom valor do indicador estatístico de
fidedignidade de um instrumento, ou o coeficiente de fidedignidade de uma escala, dado pelo Alpha de
Cronbach, também conhecido como consistência interna do teste, seria acima de 0,70. Assim, o
Diagnóstico M.A.R.E. é instrumento confiável, pois apresentou os seguintes coeficientes Alpha: 0,80
para M, 0,82 para A, 0,83 para R, 0,80 para E e um coeficiente Alpha global de 0,91.
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Essa versão, cujo coeficiente Alpha de Cronbach indica medir o que intenciona, foi aplicada em uma
amostra de 1.703 respondentes e validada em 2000, conforme indicam os resultados de diferentes
procedimentos estatísticos.
As medidas de posição ou de tendência central — média, moda e mediana — por serem iguais ou
similares, indicaram que as ditribuições (global e de cada uma das variáveis) são possivelmente
normais. O que foi corroborado pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, que apresentou p values > .05,
indicando aderência das variáveis a uma distribuição normal.
Outro índice, o Fator de Inflação da Variância que, quando maior do que 10, indica
multicolinearidade, indicou não haver correlação entre nenhuma das variáveis, pois apresentou
VIF < 1.032, sugerindo que cada variável mede o que se propõe.
Como as distribuições se mostraram normais e as variáveis não correlacionadas entre si, buscou-se,
por meio da Análise de Variância [ANOVA], verificar se os grupos condições normais e sob pressão
eram significativamente diferentes. Os resultados dos dois grupos foram diferentes — para condições
normais o F value foi de 404.020 e para o trabalho sob pressão o F value foi de 124.238 — sugerindo
provável existência de diferença estatisticamente significante entre eles. Como a ANOVA foi realizada
com um nível de significância de 0,5% e os valores de p foram menores do que isso — condições
normais com p< .0001 e trabalho sob pressão com p< .000 — pode-se confiar nos resultados que
indicam tratar-se de dois grupos distintos.
A aplicação desse instrumento – Diagnóstico M.A.R.E. – possibilitou a construção de uma base de
dados que já ultrapassa 6.500 casos que, por sua vez, contribuiu para que os estudos avançassem de
forma a confirmar que as pessoas podem apresentar orientação motivacional diferente, se as condições
de trabalhos apresentarem pressão para a sua realização e que tais comportamentos podem ser
agrupados formando padrões comportamentais (Coda, Ricco, & Garcia, 2005a).
Incrementando a base conceitual da linha de pesquisa M.A.R.E., o estudo realizado por Ricco
(2004), onde foram identificados estilos gerenciais brasileiros, considera também a relação entre
orientação motivacional e escolhas preferenciais de competências de liderança, em contexto
organizacional, na busca por resultados. Nesse estudo, como base teórica, são usados os trabalhos
realizados por Coda (2000), quanto às orientações motivacionais, e também o trabalho de Hitt (1993),
no que concerne às competências de liderança, sendo ambas as abordagens oriundas das contribuições
de Fromm (1990). Compuseram a amostra 4.981 casos coletados em 16 diferentes unidades
federativas do Brasil em situações de aprendizagem: treinamentos, cursos de pós-graduação e
programas in company.
Segundo Ricco (2004), com relação ao aspecto metodológico, o uso de análise de dados
multivariada permitiu a identificação dos padrões comportamentais e a classificação posterior dos
respondentes; mas os dados foram preparados antes do uso das técnicas propriamente ditas.
Na preparação dos dados, as estatísticas básicas dos dados brutos indicaram que as variáveis
apresentavam tendência de se distribuírem normalmente, pois os indicativos de média, moda e
mediana estavam muito próximos entre si, e os indicativos de curtose e de assimetria estavam
próximos de 0 (zero), sugerindo que, por se apresentar tão proximamente de uma distribuição normal,
o banco de dados utilizado provavelmente possuía uma representatividade real da população. Também
pode ser corroborado, segundo os graus de multicolinearidade apresentados (extensão na qual uma
variável pode ser explicada pelas outras variáveis na análise), que cada uma das oito variáveis do
Diagnóstico M.A.R.E. tem um efeito preditor único (Cf. Ricco, 2004, p. 113). Mesmo assim, para
assegurar simetria e ganhar homocedasticidade, normalidade multivariada e linearidade, os dados
foram transformados para uma distribuição normal padrão.
A identificação dos padrões ocorreu por meio de análise de conglomerados, sendo conduzida em
duas fases: método hierárquico, aplicado às variáveis de pesquisa, para definir o número de grupos
existentes e método não-hierárquico, aplicado aos casos, para se definir os grupos. Para a validação
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dos resultados foi extraída uma amostra randômica de aproximadamente 50% dos casos e realizado o
procedimento de agrupamento.
Já para a classificação dos respondentes do Diagnóstico M.A.R.E. nos grupos identificados, utilizouse
análise discriminante múltipla, sendo uma amostra randômica e proporcional aos grupos de 80%
dos casos para se encontrar as funções discriminantes; e no restante dos casos, uma amostra de 20%,
para confirmar e validar o resultado encontrado. A classificação correta de 96,8% dos casos da
amostra original foi confirmada pela classificação correta de 96,7% dos casos da amostra de validação
(Cf. Ricco, 2004, p. 120).
Em seguida, de acordo com o referencial teórico utilizado, os padrões comportamentais foram
descritos e nomeados como os sete Estilos de Mobilização Brasileiros (EMB): Especialista,
Colaborador, Conquistador, Mantenedor, Competidor, Negociador e Realizador.
Com base nos Estilos de Mobilização propostos por Ricco (2004), Cestari (2005) investiga as relações
entre o perfil comportamental do indivíduo e seu desempenho, diante de uma estratégia motivacional
composta pelo estabelecimento de metas, remuneração variável e concessão de promoções por
desempenho. O estudo, realizado com 119 gerentes de um banco de varejo, indica que os diferentes
estilos apresentam diferença estatisticamente significativa em relação ao cumprimento das metas
estabelecidas pela instituição e sugere que os indivíduos com o EMB Conquistador apresentam melhor
desempenho em relação aos demais EMB, enquanto os indivíduos de EMB Colaborador e Especialista
apresentam pior desempenho, quando comparados aos demais estilos comportamentais.
Dando continuidade à linha de pesquisa, com a utilização do Diagnóstico M.A.R.E. e dos Estilos de
Mobilização Brasileiros, outros estudos têm sido realizados, explorando-se, em contextos
diferenciados, a questão dos padrões de comportamento e a descrição das competências a eles
associados (Cf. Coda, César, & Faria, 2009; Coda & Cestari, 2005; Coda, Faria, César, & Ricco, 2008;
Coda, Faria, César, & Silva, 2008; Coda et al., 2005a, 2005b; Eschberger, 2006; Maciel, 2006;
Miguel, 2009; Sápia, 2009; Silva, Rodrigues, Matiy, Matos, & Rewa, 2005).
Os Estilos de Mobilização Brasileiros (EMB)
Estilo de Mobilização, como constructo, não existe na literatura sobre comportamento
organizacional. A expressão foi criada para atender à necessidade de nomear os padrões
comportamentais encontrados por Ricco (2004), resultantes do Diagnóstico M.A.R.E., concebido por
Coda (2000). O conceito se refere ao modo peculiar e intencional de agir, nas organizações de trabalho
na busca de resultados e é resultante da interação das orientações motivacionais com as escolhas
preferenciais de competências de liderança do profissional. Algumas das características dos Estilos de
Mobilização Brasileiros estão apresentadas na Tabela 4.
Tabela 4
Características dos Estilos de Mobilização Brasileiros
EMB
Conceito
Chave
Principal
Propulsor do
Comportamento
Sentido
da Ação Principais Padrões Comportamentais
Especialista
Excelência
do saber
Desafios que
exijam ações
cuidadosas e que
produzam
resultados
contínuos
Tornar-se cada
vez melhor
(expoente) em sua
área de atuação
– Age como detentor da verdade e saber
– Realiza seu trabalho de modo persistente e com
cautela, método, proatividadee e independência
– Torna-se social e receptivo se a situação exigir
– Reconhecido como um profissional prático, leal e
cativante
Continua
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Tabela 4 (continuação)
EMB
Conceito
Chave
Principal
Propulsor do
Comportamento
Sentido
da Ação Principais Padrões Comportamentais
Colaborador
Compatibilização de
convivência
Atividades em
grupo que
possibilitem seu
desenvolvimento
profissional e
pessoal
Busca estabelecer
relacionamentos
que proporcionem
crescimento
mútuo
– Ajuda os outros a encontrar soluções para os
problemas
– Age de modo determinado, mas com jovialidade, e em
resposta às solicitações e demandas (responsivo)
– Apresenta abertura para novas experiências,
aprendizado (conhecimento) e inovações
– Reconhecido como um profissional devotado,
idealista e liberal
Conquistador
Produção e
comprometimento
Situações de
competição que
resultem em
crescimento
próprio
Conquistar para
ampliar seus
horizontes de
atuação
– Busca resultados contínuos para si e para a organização
– Age de modo autoconfiante, metódico e pró-ativo
– Aprecia desafios constantes para poder demonstrar
sua capacidade atingir metas
– Defende suas ideias com convicção, mas muda
conforme os argumentos
– Reconhecido como um profissional de ação, leal,
cativante e íntegro
Mantenedor
Controle para
continuidade
Relacionamentos
em que possa
exercer o controle
da situação
Assegurar a
continuidade das
atividades
– Age de modo a assegurar o cumprimento de tarefas
com qualidade
– Busca compreender opiniões e crenças das pessoas, e
identifica talentos
– Realiza seu trabalho de modo persistente, com
cautela, método e em resposta às situações e
demandas (responsivo)
– Reconhecido como um profissional idealista e leal
– Pode-se tornar um líder notável
Competidor
Comparação com
os outros
Desafios que
dependam de
atuação
competitiva,
decidida e
obstinada
Competir para
vencer
– Naturalmente se compara com os outros, podendo
estabelecer colaboração com outros para atingir
resultados
– Demonstra capacidade para executar o que dele é
esperado, chamando para si a responsabilidade de
resolver os problemas
– Realiza seu trabalho de modo autoconfiante, proativo
e impulsivo
– Reconhecido como um profissional assertivo,
orgulhoso dos próprios feitos e cativante
Negociador
Compatibilização
de interesses
Situações que
exijam articulação
para aquisição de
novos valores ou
para manutenção
dos existentes
Convencer o outro
de sua ideia e
obter algo em
troca
– Busca compreensão e equilíbrio entre pontos de vista
conflitantes
– Realiza seu trabalho de forma persitente e inovadora
– Guia-se pela lógica e pela racionalidade
– Reconhecido como um profissional jovial e avançado,
mas precavido
Realizador
Execução e
despreendimento
Gerenciamento de
situações em que
possa fazer
acontecer
Tornar real o que
foi planejado
– Focado na consecução dos seus objetivos e nos da
organização
– Age de modo determinado, flexível, jovial e proativo
– Prefere mudanças constantes para expor suas idéias,
compatibilizar divergências e realizar o planejado
– Reconhecido como um profissional produtivo e liberal
Nota. Fonte: elaborado com base em Ricco, M. F. F. (2004). Construindo perfis comportamentais em ambiente
organizacional: os estilos de mobilização dos gestores brasileiros. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo,
SP, Brasil, pp. 130-149.
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METODOLOGIA DA PESQUISA
Realizado com propósito exploratório, este estudo adota uma abordagem empiricoanalítica, uma vez
que é marcadamente quantitativo e apresenta forte preocupação com a relação entre variáveis. Foca
organizações criadas com o objetivo de conduzir atividades científicas relacionadas à educação,
pesquisa e desenvolvimento em diferentes campos — aeroespacial, certificação aeronáutica, energia
nuclear, farmacêutico, comunicação digital e petrolífero — e que apresentam significantes produções
científicas, responsáveis por avanços tecnológicos para o Brasil em seus respectivos domínios.
Com relação aos dados utilizados, os da amostra brasileira são os apresentados por Ricco (2004). Já
aqueles relativos aos profissionais da área de C,T&I, referem-se a 643 profissionais de organizações
de C,T&I, predominantemente situadas no Estado de São Paulo.
A coleta dos dados, tanto da amostra nacional quanto da amostra de C,T&I, ocorreu por meio do
Diagnóstico M.A.R.E. em programas de capacitação, incluindo-se aqueles de desenvolvimento e
treinamento in company.
Na análise dos dados, no que concerne à identificação dos EMB, faz-se uso de análise multivariada
de dados, em especial das sete equações discriminantes, conforme desenvolvido por Ricco (2004).
Para a comparação entre as duas amostras, utiliza-se apenas estatística não-paramétrica.
Resultados
Depois de aplicar o Diagnóstico M.A.R.E. em uma amostra de trabalhadores de organizações de
C,T&I, predominantemente do Estado de São Paulo, foi possível identificar seus diferentes Estilos de
Mobilização para fins de comparação, conforme mostra a Tabela 5.
Tabela 5
EMB: comparação entre as organizações de C,T&I e a amostra brasileira.
Organizações de C,T&I Amostra Nacional
Estilo de Mobilização Grupo
# % # %
Especialista 1 153 24 727 15
Colaborador 2 80 13 774 15
Conquistador 3 65 10 727 15
Mantenedor 4 65 10 717 14
Competidor 5 131 20 655 13
Negociador 6 77 12 696 14
Realizador 7 72 11 684 14
Total – 643 100 4981 100
Embora todos os EMB apresentados na amostra nacional tenham sido encontrados na amostra das
organizações de C,T&I, a distribuição dos casos da amostra nacional não apresenta diferenças
significativas, diferentemente do que ocorre nas organizações de C,T&I, uma vez que nelas os EMB
não se distribuem de forma equitativa. A maior representação — estilo Especialista com 24% — é
mais do que o dobro da representação de menor percentagem, 10%, apresentada pelos estilos
Conquistador e Mantenedor.
Estilos de Comportamento de Profissionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) 527
Os dados da Tabela 5 destacam a existência de dois EMB dominantes apresentados pelos
trabalhadores de organizações de C,T&I. Esses dois EMB já representam 44% dos pesquisados, sendo
24% de Especialistas (1) e 20% de Competidores (5). Da mesma forma, salientam-se os
Conquistadores (3) e Mantenedores (4), pela pouca representatividade, 10% cada estilo.
Sem levar em consideração a não significância estatística da diferença entre os EMB da amostra
nacional, quanto à sua distribuição, pois as porcentagens foram muito próximas (13% para
Competidores, 14% para Negociadores e para Realizadores e 15% para Especialistas, para
Colaboradores e para Conquistadores), ao se comparar os resultados das duas amostras (Tabela 5 e
Figura 1), há uma inversão na representatividade dos EMB 2 (Colaborador – 13%) e 3 (Conquistador
– 10%), que apresentam as maiores porcentagens da amostra nacional e algumas das menores da
amostra Organizações de C,T&I, e também do EMB 5 (Competidor – 20%) que de estilo menos
representativo na amostra nacional aparece como dominante nas organizações de C,T&I. Já o Estilo 1
(Especialista) se mostra dominante na amostra de organizações de C,T&I (24%) e equilibrado com os
demais na amostra nacional, embora seja um daqueles com maior percentual (15%). Assim, o fato de
haver mais Especialistas e Competidores e menos Conquistadores e Mantenedores na área de C,T&I
parece caracterizar mais o estilo do trabalhador desta área, podendo, até mesmo, sugerir um
componente específico na construção da cultura nesse tipo de organização e que se pode revelar
associado ao principal traço de identificação do ambiente de C,T&I.
Os dados da Tabela 5 estão plotados em matriz de dispersão, conforme mostra a Figura 1,
permitindo a sua visualização gráfica, na qual é possível identificar os EMB que estão acima e os que
estão abaixo da média, que curiosamente é igual para as duas amostras (média amostra nacional =
14,29% e média organizações de C,T&I = 14,29%), sendo, todavia, os desvios-padrão muito
diferentes. Enquanto para a amostra nacional o valor é de σ = 5,50, para a amostra de organizações de
C,T&I esse valor é σ = 0,76.
10
24
22
20
18
16
14
12
8
15.5
15.0
14.5
14.0
13.5
13.0
12.5
amostra nacional 7 6
5
4
3 2 1
7
6
5
4
3
2
1
organizações de C,T&I
Figura 1: EMB: Matriz de Distribuição das Amostras Nacional e de C,T&I
A linha horizontal indica os valores médios das duas amostras
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DISCUSSÃO
No que diz respeito à análise dos objetivos assumidos, o presente estudo confirmou que as
organizações de C,T&I apresentam os mesmos Estilos de Mobilização presentes na amostra brasileira,
uma vez que todos os sete diferentes estilos de mobilização foram encontrados nas organizações de
ciência, tecnologia e inovação que fizeram parte da coleta de dados. Já a distribuição percentual dos
Estilos de Mobilização encontrados nas organizações de C,T&I, não é a mesma encontrada na amostra
brasileira. Na amostra nacional há homogeneidade entre os estilos; mas, no ambiente organizacional
de ciência, tecnologia e inovação, observou-se uma predominância dos estilos Especialista e
Competidor nos profissionais, revelando, portanto, a existência de estilos de comportamentos
profissional dominantes.
Embora não seja possível tomar essa predominância como indicativo de que o estilo Especialista e o
estilo Competidor sejam ideais para profissionais que atuam nesse tipo de organização, mesmo porque
se trata praticamente de uma amostra regional, os resultados indicam, sem dúvida, que a área de
C,T&I representa uma oportunidade natural de carreira para esses profissionais, já que não só a
natureza dessa área ou das organizações voltadas para C,T&I, mas principalmente a natureza do
trabalho e das atividades por eles desempenhadas nelas mostram compatibilidade com as
características dominantes de ambos os referidos estilos, promovendo, assim, um ajustamento entre
aquilo que é favorecido como via de ação pelo profissional e aquilo que se espera que este execute
eficazmente na organização.
Além da evidente maior presença dos estilos Especialista e Competidor, já discutida, há o fato, não
menos expressivo, da menor presença dos estilos Conquistador e Mantenedor. Dentre os sete estilos
existentes, esses são os dois estilos mais atrelados à existência na organização de um trabalho bem
organizado e estruturado, contrariamente aos estilos Especialista e Competidor. Para obter realização
profissional, os conquistadores e mantenedores valorizam a liderança e voltam-se, em primeiro lugar,
para o atingimento de objetivos e metas organizacionais; comportamentos desejáveis em muitos ramos
de negócio; porém não são tão enfatizados pelos chamados trabalhadores do conhecimento que
buscam, primeiramente, aumentar seus saberes e obter inovações, pautando-se sempre pelo esmero e
qualidade técnica em suas decisões.
Comparando os resultados dessa pesquisa com aqueles de outros estudos e com as considerações de
outros estudiosos e pesquisadores do tema gestão de pessoas em organizações de pesquisa, é possível
estabelecer um primeiro paralelo com aquilo que é considerado a identidade profissional do
empregado técnico. Uma primeira fonte de comparação é o trabalho de Beck e Wade (2004), que
revela como características do profissional de pesquisa, entre outras, a especialização, o trabalho em
equipe com papéis bem definidos, a competição como estado natural, a visão de que tudo é possível, a
preferência por recompensas baseadas em resultados e o desprezo pela função de liderança. Todas são
típicas do estilo Especialista que busca o domínio de técnicas específicas associadas ao seu trabalho,
ou então a realização de aspectos particulares de sua profissão, como forma de obtenção de qualidade
e de excelência em tudo o que faz. Também são compatíveis com o estilo Competidor, a começar pela
revelação da constante comparação como um estado de ânimo valorizado por esse profissional. Além
disso, a desconsideração da liderança pode ser explicada pela forma independente de agir do
Especialista e pela característica do estilo Competidor de chamar para si a comparação com os demais,
mesmo com aqueles que estão formalmente nas posições de comando das atividades a serem
realizadas como meio de busca de desafios constantes e crescentes.
Os resultados obtidos nessa pesquisa são também compatíveis com as considerações de Davenport
(2005; citado por Maccoby, 2006) sobre as características e qualidades dos profissionais do
conhecimento. Segundo esse autor, o profissional técnico busca oportunidades de carreira que atendam
ao seu desejo de aumentar continuamente seu estoque de conhecimentos. Este ponto revela uma
interface com o estilo Competidor, sempre conectado com a identificação de novas oportunidades.
Volta-se também para o estabelecimento de desafios constantes que, no contexto das organizações de
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C,T&I, acaba traduzindo-se por uma vontade de aprender sempre mais. No que se refere ao estilo de
mobilização Especialista, o ponto de convergência está associado ao tipo de postura identificado por
Davenport (2005) como presente nos trabalhadores do conhecimento, que alicerça sua possibilidade de
atuação no domínio das técnicas e saberes associados ao seu ramo profissional. Como fazer, se não
sei? Este tipo de preocupação, embora possa ser encontrado também em profissionais que apresentam
outros estilos de mobilização, de acordo com as bases teóricas que permitiram a formação dos estilos,
é muito mais próximo do padrão Especialista.
Um último ponto de contato, entre o referencial teórico do estudo e os resultados obtidos, é
fornecido pelo trabalho de Vojak et al. (2006), segundo o qual o principal traço dos pesquisadores de
sucesso é incorporar múltiplas técnicas à estratégia empresarial, identificando aplicações para produtos
e processos como meio de fomentar a inovação. Nesse enfoque, é possível depreender uma
necessidade de combinar ou garantir a presença tanto do estilo Especialista como a do estilo
Competidor na execução das atividades de pesquisa, para que a consecução dos objetivos e o
cumprimento do papel da própria instituição fiquem facilitados.
Concluindo este trabalho, torna-se importante ressaltar a importância de conhecer os estilos de
mobilização na gestão de trabalhadores, visando poder aproveitar, com maior confiabilidade, as
características da personalidade e sua contribuição para os resultados da organização, no mesmo
tempo em que é imprescindível lembrar que saber lidar com pessoas representa não somente uma das
principais tarefas do gestor de organizações contemporâneas, mas também uma qualidade que o
aproxima do seu papel de líder e de motivador de equipes de trabalho. Esforços voltados para a
identificação de estilos de mobilização, enquanto manifestações de preferências comportamentais e da
motivação intrínseca das pessoas trabalhando em organizações, deverão contribuir para o desafio de
respeitar diferenças individuais no trabalho em lugar de simplesmente pretender mudar
deliberadamente os trabalhadores. Com base nisso, os estilos de mobilização podem também ser vistos
como a base para uma política de gestão de pessoas verdadeiramente voltada para o aproveitamento e
alocação do potencial humano, identificando competências nem sempre tão aparentes e dirigindo a
atenção para a permanente necessidade de desenvolvimento e de melhoria.
Artigo recebido em 26.01.2009. Aprovado em 16.06.2009.
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Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista

Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da
Tecnologia da Informação em uma Situação de Fusão: o Caso de
uma Rede Varejista
Enabling and Inhibiting Factors of the Strategic Alignment between Information
Technology Strategy and Entrepreneurial Strategy in a Situation of Fusion of Companies
in a Retail Environment
Christiane Maria Leite Pereira *
Mestre em Administração pela UFPE.
Professora da Pós-Graduação do CIN/UFPE, Recife/PE, Brasil.
Jairo Simião Dornelas
Doutor em Administração pela UFRGS.
Professor do PROPAD/DCA/UFPE, Recife/PE, Brasil.
* Endereço: Christiane Maria Leite Pereira
Rua General Luis Mallet, 28/2101, Boa Viagem, Recife/PE, 51021-420. E-mail:
christiane_mestrado@yahoo.com.br
Copyright © 2010 RAC. Todos os direitos, inclusive de tradução, são reservados. É permitido
citar parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Christiane Maria Leite Pereira, Jairo Simião Dornelas 496
RESUMO
Este estudo buscou identificar fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico entre a tecnologia da
informação e a estratégia empresarial em uma situação de fusão de empresas em um ambiente varejista. O caso
possibilitou identificar percepções do corpo gerencial acerca das características promotoras e inibidoras do
alinhamento. O estudo destacou eventos nos momentos antes do processo de fusão e no seu desenrolar, tal que se
pôde associar aos fatores clássicos identificados na literatura de apoio, aqui chamados de fatores recorrentes por
estarem presentes nos dois instantes da análise do caso, novos fatores vislumbrados no cenário. Foram ouvidos
gestores das áreas técnica e de negócios na estrutura resultante, respeitando-se a vinculação às empresas
originais, a fim de se ter um conjunto de fatores identificados por área e por empresa. A singularidade do estudo
de caso remonta ao fato de que embora a estrutura organizacional da empresa adquirente seja muito maior do
que o da empresa adquirida, o perfil de gestão de tecnologia da informação da empresa adquirida é muito mais
estruturado do que o da empresa adquirente, configurando um interessante cenário para a pesquisa.
Palavras-chave: alinhamento; fatores promotores e inibidores.
ABSTRACT
This study identifies both enabler and inhibitor factors to the strategic alignment of information technology with
existing entrepreneurial strategy in a takeover environment, i.e., the merger of two companies within a retail
environment. The characteristics of the enabler and inhibitor factors for alignment were identified by means of
an analysis of managerial team perceptions. The results suggest the presence of factors that are associated with
those considered classic found in the literature review. The occurrence of these factors was recorded both prior
to and during the initial merger process and they have been denominated, therefore, as recurrent elements. New
characteristics, however, were also discovered in the takeover scenario that only appeared after the merger as
formulated. Both IT managers and division heads from the post-merger business structure were interviewed. The
link of each respondent to his original company was recorded so as to produce an effective set of factors that
could be identified by both specific division and company. The uniqueness of the case study has to do with the
fact that, although the organizational structure of the acquiring company was much larger than that of the
acquired one, the profile of the IT management team of the latter was much more structured than that of the
former. This provided a very interesting research scenario.
Key words: alignment; enabling and inhibiting factors.
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Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
497
INTRODUÇÃO
O atual panorama econômico mundial está sendo moldado por duas forças poderosas: tecnologia e
globalização (Kotler, 1999). Diante desse cenário global e complexo e da concorrência acirrada, as
empresas têm-se movido no sentido de aumentar sua eficiência, sua produtividade e seus lucros
através do uso cada vez mais intenso da tecnologia da informação [TI], até mesmo, para acompanhar a
evolução dos processos e do mercado.
Agora, mais do que em qualquer tempo da história recente, as organizações encaram a necessidade
de se tornarem mais inovadoras e terem custos competitivos como previam Henderson e Venkatraman
(1991). Para tal, a informação é elemento fundamental tanto no processo de decisão, quanto na
determinação de estratégias que as tornem competitivas, além de constituir requisito para a execução
de seus processos de negócios.
Em verdade, as organizações estão enfrentando um mercado competitivo, globalizado e turbulento e,
nesse cenário, necessitam de informações oportunas que auxiliem a sua gestão de forma mais efetiva.
Requer-se, para tanto, que todas as suas estratégias estejam plenamente alinhadas (Rezende, 2002), o
que torna o alinhamento entre a estratégia de tecnologia da informação e a estratégia empresarial uma
exigência de mercado.
O alinhamento entre a tecnologia da informação e os negócios examina a relação estratégica entre as
funções de tecnologia da informação e os objetivos de negócio. Este alinhamento sofre impactos da
estrutura organizacional, da alocação de recursos, do planejamento, da tecnologia e, em especial, da
cultura organizacional vigente (Bruhn, 2004), existindo, nesse processo, elementos promotores e
elementos inibidores.
Visando compreender a busca de vantagens competitivas através do alinhamento entre estratégia da
tecnologia da informação e estratégia empresarial, a proposta deste trabalho é identificar, à luz da
percepção do corpo gerencial, fatores promotores e inibidores do alinhamento dessas estratégias, em
um estudo de caso de fusão de empresas, campo no qual a problemática em estudo ainda é pouco
discutida e pouco praticada, sendo, portanto, merecedora de aprofundamento. A estratégia de pesquisa
desse processo, rico em detalhes e de complexas relações, buscou evidenciar as percepções dos
envolvidos nos momentos que antecederam a fusão e durante a implementação do processo.
REFERÊNCIAS CONCEITUAIS
Vários autores têm estudado o alinhamento entre tecnologia da informação e estratégia empresarial.
A maioria deles aponta como principal desafio para esse alinhamento a falta de compartilhamento de
informações entre a área de TI e as áreas de negócios da organização.
Estratégia
Há muitas teorias sobre o que é estratégia e como ela pode ajudar as organizações a se manterem
competitivas. Segundo Osgood (2004), embora frequentemente os termos estratégia e plano
estratégico possuam uma única definição, constituem, na realidade, conceitos distintos. Estratégia é
aquilo que define o que a organização fará e não fará, a partir do mapeamento dos passos a serem
seguidos e que levará ao atingimento das metas organizacionais. A seu turno, o plano estratégico
descreve como as ações serão feitas e oferece as direções detalhadas para priorizar esses passos.
As crescentes dificuldades enfrentadas pelas empresas em face do ambiente externo cada vez mais
mutável e descontínuo, reconhecidas por administradores e acadêmicos, têm exigido novas regras e
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Christiane Maria Leite Pereira, Jairo Simião Dornelas 498
diretrizes de decisão para o desenvolvimento organizacional (Ansoff, 1990). Como consequência, o
interesse pelo campo da estratégia tem sido fortalecido e se consolidou, passando a ser um requisito
importante para as organizações em sua preparação para enfrentar a competição e a concorrência.
A estratégia competitiva destina atenção especial às ações que a empresa tentará utilizar para ter
sucesso em cada uma de suas áreas de negócio, visem elas à maximização da participação no mercado,
ao crescimento, à diferenciação de mercado ou diferenciação de produtos e serviços (Ansoff, 1990).
Cada organização possui, de modo implícito ou explícito, uma estratégia competitiva dinâmica e única
(Osgood, 2004), com a qual busca uma fórmula ampla para competir, definindo quais os objetivos
almejados e como fazer para alcançá-los por meios planejados ou emergentes nas atividades
organizacionais (Porter, 1986).
Outros pontos a serem destacados para aumentarem essa competitividade são as estratégias de fusão
e aquisição que estão sendo adotadas como estratégias de entrada das empresas internacionais no
mercado brasileiro.
Conceitualmente, fusão é uma estratégia por meio da qual duas firmas concordam em integrar suas
operações em base relativamente equivalente, porque têm recursos e capacidades que, juntos, podem
criar uma vantagem competitiva mais forte (Hitt, Ireland, & Hoskisson, 2002).
No caso das fusões internacionais, ocorre também uma transferência de conhecimentos e habilidades
de uma organização de um país, para outra organização de outro país, embora ocorra, em
contrapartida, um aprendizado mútuo de técnicas e conhecimentos importantes (Suen & Kimura,
1997).
Tecnologia
A tecnologia é um componente vital na atual configuração competitiva e produtiva das organizações.
Mediante o uso de componentes diversos e de distintas implementações, a tecnologia tem assegurado
maior competitividade, maior agilidade processual interna e proporcionado a produção de um arsenal
específico de informações gerenciais. Também tem influenciado decisivamente na produção de bens e
serviços e contribuído para a rentabilidade do negócio e expansão dos horizontes organizacionais.
Em curto espaço de tempo, a tecnologia ganhou força, gerando benefícios em termos de eficiência,
eficácia e transformação, atingindo indivíduos, unidades funcionais e a organização como um todo;
indo além da simples automação, provocando mudanças organizacionais e dotando as pessoas de
melhores informações, constituindo, pois, a base para o aperfeiçoamento do processo de decisão e da
produção de bens e serviços (Walton, 1993).
Dentre as tecnologias, a tecnologia da informação [TI] proporciona valor estratégico para todas as
partes do negócio e, embora ainda seja usada para reduzir custos, seu atual foco é incrementar
qualidade de produtos e serviços, melhorar operações de clientes, integrar fornecedores e tornar
possível a aprendizagem organizacional. O uso estratégico da TI produz um poderoso impacto no
negócio e amplia o valor da informação (Luftman, Lewis, & Oldach, 1993), além de influenciar os
recursos das empresas de maneira inimitável (Grover & Lederer, 2003).
Alinhamento Estratégico
Apesar de ter sido estudada e documentada desde o final dos anos 1980, a importância do
alinhamento estratégico continua ainda a ser apontada como uma das questões-chave enfrentadas pelos
executivos de negócios e de informação (Chan, 2002; Papp & Luftman, 1995). O alinhamento
estratégico permite que a tecnologia da informação e os negócios se tornem parceiros. Isso
proporciona que novas tecnologias resultem em novas oportunidades comerciais, gerando melhores
condições para se obter vantagem competitiva.
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Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
499
Alinhamento estratégico corresponde à adequação estratégica e à integração funcional entre os
ambientes externo (mercado, política, fornecedores) e interno (estrutura administrativa, recursos
financeiros, tecnológicos e humanos) para desenvolver e maximizar a performance organizacional
(Henderson & Venkatraman, 1993; Luftman et al., 1993).
Em visão mais moderna, o alinhamento estratégico é um processo evolucionário e dinâmico que
requer forte apoio da alta gestão das organizações, associado a boas relações de trabalho, liderança
forte, prioridade adequada, confiança e efetiva comunicação, além do entendimento do ambiente de
negócios (Luftman, 2000).
O alinhamento estratégico tornou-se requisito básico para as organizações, a partir da constatação de
que elas estavam desenvolvendo tecnologias que não apoiavam suas estratégias de negócios, por
priorizarem aspectos técnicos em detrimento das necessidades de negócios (Luftman et al., 1993). Tal
falta de sincronia criou muita tensão para os postos executivos, resultando em perda de retorno sobre o
investimento em tecnologia da informação.
Fatores Promotores e Inibidores
Em pesquisa longitudinal por cinco anos consecutivos, Luftman, Papp e Brier (1999) encontraram
fatores organizacionais cuja presença ou forte atenção a eles dedicada exercia papel promotor e, em
contrapartida, cuja ausência ou fraca atenção a eles prestada exercia papel inibidor no alinhamento
estratégico da tecnologia da informação com o negócio. Os principais fatores detectados naquele
estudo foram: (a) apoio da alta gestão aos assuntos de tecnologia da informação; (b) liderança na área
de tecnologia da informação; (c) entendimento do negócio pela tecnologia da informação; (d) relação
de parceria entre tecnologia da informação e negócios; (e) prioridade de projetos de tecnologia da
informação; (f) participação da tecnologia da informação no desenvolvimento da estratégia de
negócio.
Reich e Benbasat (2000) destacaram outros fatores promotores do alinhamento estratégico, quais
sejam: comunicação clara e compartilhamento de conhecimento entre executivos de negócios e de
tecnologia da informação, sucesso na implementação de TI e conexão entre processos de planejamento
de tecnologia da informação e empresarial.
Essa participação cruzada implica o compartilhamento de conhecimentos sobre ambos os métodos
de planejamento (Grover & Lederer, 2003) e ajuda a garantir que as estratégias serão implementadas
corretamente (Reich & Benbasat, 1996). Assim, a participação dos profissionais da área de TI e das
áreas de negócio, de forma equânime na construção dos planejamentos estratégicos, é vital para o uso
competitivo das estratégias.
Brodbeck, Hoppen, Oliveira e Majdenbaum (2003) consideram ainda outros elementos contribuintes
da promoção do alinhamento: comprometimento das pessoas com o atingimento das metas,
sincronização dos recursos entre as ações de negócios e de tecnologia da informação, instrumentação
da gestão para o eficiente monitoramento e ajuste contínuo dos processos e postura decisória proativa.
Por seu turno, Reich e Benbasat (2000) ressaltam como fatores inibidores a falta de participação dos
executivos de TI nos planejamentos dos processos críticos de negócio e o pouco conhecimento dos
executivos de negócio da estratégia de TI. Outro importante aspecto apontado pelos autores é a falha
na implementação dos sistemas de informação, o que reduz a credibilidade do departamento de TI e é
uma ameaça para a existência de um relacionamento entre as áreas no ambiente de trabalho.
Luftman (1997) argumenta que barreiras adicionais para o alinhamento são a dificuldade da área de
TI em acompanhar as mudanças que ocorrem no ambiente de negócio da empresa e a baixa habilidade
de se relacionar e se comprometer de forma adequada com essas mesmas áreas de negócio.
Enfim, para desenvolver a tarefa de alinhamento estratégico requer-se que as organizações focalizem
na maximização dos fatores promotores e com atenção redobrada na minimização dos fatores
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inibidores do processo (Luftman, 2000). É pelo conhecimento do grau de maturidade do alinhamento
estratégico entre TI e negócio e do impacto desse alinhamento no resultado, produtividade e
lucratividade, que as organizações podem avaliar suas atividades práticas e tomar decisões para a
ampliação das relações estratégicas entre tecnologia da informação e negócio (Chan, Huff, Barclay, &
Copeland, 1997; Luftman & Brier, 1999).
Toda argumentação contida nesta seção converge para a montagem exibida na Figura 1, a qual
resume os principais fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico entre a TI e o negócio
levantados na bibliografia de referência.
Apoio da alta gestão
Participação
Entendimento do negócio
Parceria
Prioridade
Liderança
Comunicação clara
Compartilhamento
Conexão
Comprometimento
Sincronização
Monitoramento
Postura proativa
Falta de apoio da alta gestão
Falta de participação
Falta de entendimento do negócio
Relações fracas
Falta de prioridade
Liderança fraca
Falha na comunicação
Falta de compartilhamento
Falha na conexão
Falta de comprometimento
Falta de sincronização
Dificuldade de monitoramento
Falta de postura pró-ativa
Figura 1. Principais Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico
Fonte: compilação efetuada a partir de Luftman, J. (1997). Align in the sand, leadership series computerworld. ABI/INFORM
Global, 3(2), pp. 3-4; Luftman, J., Papp, R., & Brier, T. (1999). Enablers and inhibitors of business-it alignment.
Communications of the Association for Information Systems, 1(11), pp. 4-15. Reich, B. H., & Benbasat, I. (2000). Factors
that influence the social dimension of alignment between business and information technology objectives. MIS Quarterly,
24(1), pp. 3-5; Brodbeck, A. F., Hoppen, N., Oliveira A. S., & Majdenbaum, A. (2003, setembro). Alinhamento entre
objetivos organizacionais e sistemas de informação: um estudo de múltiplos casos. Anais do Encontro Nacional da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, Atibaia, SP, Brasil, 27, pp. 6-7.
É com este aporte conceitual advindo da literatura e com o conjunto de fatores identificados na
Figura 1 que se tecem, no item seguinte, considerações sobre a metodologia adotada.
+
P I
R N
O I
M B O ALINHAMENTO TI x NEGÓCIO I
T D
O O
R R

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Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
501
METODOLOGIA DA PESQUISA
Esta pesquisa tem caráter exploratório, porque visa identificar fatores promotores e fatores inibidores
do alinhamento estratégico, a partir da percepção de um pequeno grupo de respondentes do corpo
gerencial das empresas Wal-Mart Brasil e Bompreço S.A., que estavam, e ainda se encontram, em
processo de fusão. Valeu-se de uma abordagem qualitativa e utilizou a estratégia de estudo de caso
para sua implementação.
O estudo de caso caracterizou-se como um estudo de caso único, que mirou a fusão do Bompreço
S.A. (empresa adquirida) e do Wal-Mart Brasil (empresa adquirente). Trata-se de estudo de um
processo de fusão entre empresas com características ímpares para os padrões do segmento varejista
regional, inusitado no que diz respeito à plenitude e abordagem de estudo (até onde se pôde identificar
em termos da literatura nacional) e revelador, como caracterizável a partir de Yin (2001), pelas razões
arguídas nos próximos parágrafos.
As empresas envolvidas têm grande dimensão e, guardadas as proporções, intensas e marcantes
representatividades em seus ambientes originais. Como ilustração, destaque-se que, antes da fusão, o
Bompreço tinha cerca de 22.000 associados e 118 lojas e o Wal-Mart Brasil tinha cerca de 8.000
associados e 20 lojas, e a área de TI do Bompreço S.A. tinha cerca de duzentos profissionais, enquanto
a área de TI do Wal-Mart Brasil era muito menor com cerca de vinte profissionais, conforme registros
documentais das duas empresas.
Verifica-se maior vulto da função TI na empresa adquirida; ainda assim, quando olhado o porte das
empresas, nota-se claramente que a empresa adquirente é muito maior em volume e estratégia de
negócios, especialmente considerando o aspecto multinacional. É justamente esta surpreendente
diferença que instiga a enveredar pelo estudo de caso. A empresa adquirida tinha sua área de TI muito
mais bem estruturada que a empresa adquirente, tornando bem mais complexo o processo de fusão e,
provavelmente, o do alinhamento, uma vez que a relação de poder no processo de fusão estaria em
oposição à maturidade técnica percebida.
Este é o aspecto revelador do caso: entender o alinhamento estratégico entre TI e negócio em
processo de fusão, quando a relação de poder é inversa à capacidade técnica em TI. Esperava-se que a
existência dessa característica contribuísse para a emergência de novos fatores promotores e inibidores
do alinhamento da estratégia de TI e do negócio.
A opção por observar esse fenômeno à luz de um único e revelador caso, em adição a todos os
argumentos prévios, caracteriza-se ainda por um propósito instrumental: o estudo de caso traz
elementos para um foco pouco explorado da questão. Nesses casos, como afirma Stake (1994, p. 261),
“o número de casos é secundário, servindo apenas de suporte para facilitar o nosso entendimento sobre
o ponto pouco explorado. A escolha é feita para avançar o nosso entendimento daquele ponto”.
É de se notar também que, como o estudo ocorreu em plena vigência do processo de fusão das
empresas, estavam vívidas as impressões do estágio anterior à fusão e toda tensão do processo em
andamento, suplantando, dessa forma, o eventual viés associado ao uso da tática de entrevista
retrospectiva. Assim, o aspecto de marcante presença dos eventos foi suficiente para se contrapor à
aparente disfunção aliada à recordação dos fatos e justifica a opção de imersão no caso em um único
momento, em busca de seus elementos reveladores.
Por fim, em função da acessibilidade dos pesquisadores ao fenômeno, mais um fato tornou
categórica a escolha do caso único: se não fosse nos moldes aqui revelados, dificilmente esse caso
ficaria acessível à investigação científica.
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Atores Pesquisados
Os roteiros para as entrevistas semi-estruturadas de coleta de dados foram gerados a partir do
encadeamento teórico dos fatores identificados na Figura 1. As entrevistas foram aplicadas nas
principais áreas de negócio e na área de TI, considerando a empresa já unificada. O público-alvo
totalizou 23 executivos respondentes, para os quais se observaram, sobremaneira, os seus vínculos
prévios às empresas fundidas. Na área de negócios, 8 (oito) entrevistados pertenciam ao Bompreço
S.A. e 8 (oito) pertenciam ao Wal-Mart Brasil. Já na área de TI, 4 (quatro) entrevistados pertenciam ao
Bompreço e 3 (três) ao Wal-Mart Brasil.
Desenho da Pesquisa
O desenho de pesquisa é uma forma esquemática que mostra como se empreende a execução de uma
investigação. Auxilia no avaliar o escopo temporal de realização e no sequenciar as diversas etapas
dos procedimentos. A Figura 2 exibe o desenho da presente pesquisa.
Selecionar os
entrevistados
(1.3)
Selecionar os
entrevistados
(1.3)
Negociar
o caso
Wal-Mart
Brasil
(1.1)
Negociar
o caso
Wal-Mart
Brasil
(1.1)
Construir o
roteiro das
Entrevistas
(1.2)
Construir o
roteiro das
Entrevistas
(1.2)
1. Procedimentos
Iniciais
(2 meses)
1. Procedimentos
Iniciais
(2 meses)
Realizar
Pré-teste
(1.4)
Realizar
Pré-teste
(1.4)
Realizar
entrevistas
individuais
por área – TI
e de Negócios
(2.1)
Realizar
entrevistas
individuais
por área – TI
e de Negócios
(2.1)
Fase 1
Transcrever
e enviar por
e-mail as
entrevistas
(2.2)
Transcrever
e enviar por
e-mail as
entrevistas
(2.2)
1-Enfoque antes
2-Enfoque
durante
3-Enfoque
futuro
1-Enfoque antes
2-Enfoque
durante
3-Enfoque
futuro
Receber a
aprovação
dos
entrevistados
por e-mail
(2.3)
Receber a
aprovação
dos
entrevistados
por e-mail
(2.3)
Fase 2
2. Coleta de Dados
(2 meses)
2. Coleta de Dados
(2 meses)
3. Análise dos
Dados
(4 meses)
3. Análise dos
Dados
(4 meses)
Ler as
entrevistas
transcritas e
aprovadas
(3.1)
Ler as
entrevistas
transcritas e
aprovadas
(3.1)
Categorizar/
Interpretar
os dados
(3.2)
Categorizar/
Interpretar
os dados
(3.2)
Análise de
conteúdo
(3.3)
Análise de
conteúdo
(3.3)
Obter os
resultados,
concluir e
expor
limitações
(3.4)
Obter os
resultados,
concluir e
expor
limitações
(3.4)
Fase 3
Figura 2. Desenho da Pesquisa
Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da informação em
uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
PE, Brasil, p. 66.
Procedimento de Coleta e Instrumento de Pesquisa
Um protocolo de caso foi construído, respeitando-se a sequência exibida na Figura 2, para assegurar
confiabilidade à pesquisa. Nele todos os passos e decisões foram documentados e estipuladas as
condições para possibilitar a eventual repetição do trabalho nos moldes aqui consignados.
As entrevistas foram realizadas com os executivos de negócio e de TI. O roteiro aplicado foi
dividido em quatro blocos e dentro desses blocos existiam perguntas comuns e perguntas específicas
por área ouvida (TI e negócio). Os roteiros foram pré-avaliados por docentes e mestrandos da
instituição de ensino que ancorou a pesquisa.
O primeiro bloco recolheu dados gerais do entrevistado e seu entendimento sobre o que seria
alinhamento entre a estratégia de TI e a estratégia empresarial. O segundo bloco visou identificar os
fatores que promoviam e inibiam o alinhamento entre a estratégia de TI e a estratégia de negócio antes
da fusão. Correspondeu a solicitar às pessoas que recordassem o passado recente, quando as empresas
anunciaram a convivência das operações em feição dual.
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Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
503
Já o terceiro bloco destinou-se a identificar os fatores durante a eclosão do processo de fusão. Nesse
ínterim, quando solicitado, o entrevistador relembrou ao respondente as opiniões por ele já emitidas
sobre o momento antes da fusão. Isso foi possível porque houve um intervalo de 15 minutos entre a
aplicação das questões dos blocos 2 e 3 das entrevistas. A conversa informal nesse intervalo também
serviu para a análise dos dados.
Por fim, o quarto bloco recolheu a expectativa do respondente com relação à forma como será o
alinhamento após o término de todo o processo de fusão.
A opção de realizar uma única sessão de entrevista com cada respondente impôs-se devido às
dificuldades de alocação de tempo nas pesadas agendas dos executivos entrevistados. Assim, mesmo
que algumas das percepções capturadas também tenham sido baseadas em reminiscências (às vezes
nostálgicas para os respondentes da empresa adquirida), tal variante de coleta propiciou o confronto de
caráter quase experimental das idéias e foi rica por revelar posicionamentos e reposicionamentos de
fatores no tempo e no processo.
Todas as entrevistas foram conduzidas pela equipe de pesquisa e gravadas mediante autorização.
Após a transcrição das entrevistas, os seus conteúdos foram enviados por e-mail para confirmação dos
entrevistados. Também por e-mail, os entrevistados retornaram algumas considerações e aprovaram o
conteúdo das transcrições, configurando-se então uma espécie de validação de conteúdo coletado.
Análise dos Dados
O tratamento dos dados recolhidos foi efetuado com o uso da técnica de análise de conteúdo. Na
prática, o que ocorreu foi um exercício de reconstrução do material colhido, por meio da categorização
e posterior agrupamento de palavras, temas ou itens, na busca da interpretação da mensagem,
considerando o contexto dos entrevistados. Foram feitos recortes representativos dos textos originais, a
fim de fazer emergir as categorias a serem analisadas.
Operacionalmente houve a associação entre os excertos das entrevistas e a significação dos fatores
promotores e inibidores do alinhamento entre a estratégia de tecnologia da informação e a estratégia
empresarial.
O primeiro passo da análise foi associar os recortes que continham semelhança em uma única
planilha, para posterior criação das categorias. A segunda etapa da análise, a categorização, visou
associar os conjuntos de semelhanças encontrados na planilha com os fatores provenientes da
literatura. Para tal, um pesquisador fez o enquadramento a partir dos excertos e os consolidou. Um
segundo pesquisador buscou evidenciar os excertos consolidados nos fatores provenientes da literatura
(Figura 1) e, por fim, ambos os pesquisadores fizeram o mapeamento dos fatores identificados vis-àvis
sua efetiva aparição (surgimento no momento antes da fusão e recorrência durante a fusão) ou sua
emergência (surgimento não previsto durante o processo de fusão).
Para finalizar, foi feita uma interpretação final de todo o material, a fim de identificar quais fatores
eram especificamente relacionados ao caso de fusão de empresas.
RESULTADOS DO ESTUDO
Os resultados apresentados referem-se à percepção dos entrevistados sobre dois momentos: antes da
fusão das empresas e no seu desenrolar. A partir dessas percepções, são listados fatores promotores e
inibidores do alinhamento entre a estratégia de TI e a estratégia empresarial, nos momentos relatados.
No final do relato, também é exibida a síntese da expectativa dos entrevistados sobre o eventual
alinhamento após o término de todo o processo de fusão entre as empresas.
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Fatores Identificados antes da Fusão das Empresas
Nesta seção, foi sintetizada a percepção do corpo gerencial quanto ao alinhamento entre a estratégia
de TI e a estratégia empresarial e identificados os fatores promotores e inibidores do alinhamento antes
da fusão, após a categorização das respostas dadas.
Os entrevistados, tanto do Bompreço quanto do Wal-Mart Brasil, concordavam que existia
alinhamento entre a estratégia de TI e a estratégia empresarial. De fato, a expressiva maioria dos
entrevistados (20) respondeu que existia alinhamento em suas respectivas empresas antes do processo
de fusão, enquanto uma minoria concentrada em áreas não-chave do negócio, em ambas as empresas,
ponderou pela não existência do alinhamento. Essa é a primeira evidência de que o alinhamento é mais
forte nas áreas-chave do negócio.
Os fatores que afetavam o alinhamento da estratégia de TI com a estratégia de negócio identificados
nas entrevistas, quando o foco foi o momento antes da fusão, agrupados por empresa, são exibidos na
Tabela 1, no qual há sete grupos de percepções distintas, identificáveis pela mesma configuração de
símbolos nas respectivas linhas do quadro.
Tabela 1
Fatores que Afetavam o Alinhamento antes da Fusão
Fatores Identificados – Antes da fusão Bompreço Bompreço Wal-Mart
(TI)
Wal-Mart
(TI) (Negócio) (Negócio)
Apoio da alta administração 􀀹 􀀹
Conhecimento das metas 􀀹 􀀹
Qualificação dos profissionais 􀀹 􀀹
Autonomia da área de TI 􀀹 􀀹
Planejamento 􀀹 􀀹
Postura dos profissionais 􀀹 􀀹
Prioridade do negócio 􀀹
Sinergia entre as áreas 􀀹 􀀹 􀀹
Limitação dos recursos 􀀹 􀀹 􀀹
Comunicação 􀀹 􀀹
Tratamento das necessidades locais 􀀹 􀀹
Centralização da TI 􀀹 􀀹
Uso de metodologia nos projetos 􀀹
Gestão de Projetos 􀀹 􀀹 􀀹
Nota. Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da
informação em uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de
Pernambuco, Recife, PE, Brasil, p. 82.
A análise dos grupos remete à compreensão de efeitos que são notados pela adquirida em suas duas
áreas (apoio da alta administração, conhecimento das metas, qualificação dos profissionais e
autonomia da área de TI), ou notadamente visíveis pela empresa adquirente também em ambas as
áreas (comunicação, tratamento das necessidades locais e centralização da TI). Não existe um fator
que seja percebido igualmente pelas 4 áreas pesquisadas, embora haja aquele que é massivamente
atrelado à área de TI da adquirida (uso de metodologia nos projetos) e outro que aparece só na área de
negócio da adquirente (prioridade do negócio).
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505
Há, ainda, os fatores que só aparecem na área de TI da adquirida e na área de negócio da adquirente
(planejamento e postura dos profissionais), como também os que são visíveis em todo o Bompreço e
só na área de negócio do Wal-Mart Brasil (sinergia entre as áreas e limitação dos recursos). O último
grupo aparece em todo o Bompreço e só na área de TI do Wal-Mart Brasil (gestão de projetos).
Assim, considerando a análise das entrevistas de todas as áreas das duas empresas para o período
antes da fusão, os fatores levantados foram rotulados como promotores ou inibidores, em aderência ao
caso (emergentes) e à literatura (pré-definidos), como exibido na Figura 3.
Qualificação dos profissionais
Postura dos profissionais
Uso de metodologia nos projetos
Apoio da alta administração
Conhecimento das metas
Sinergia entre as áreas
Limitação de recursos
Autonomia da área de TI
Tratamento das necessidades locais
Planejamento
Prioridade do negócio
Comunicação
Gestão de projetos
Centralização da TI
Figura 3. Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento antes da Fusão
Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da informação em
uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
PE, Brasil, p. 85.
Os fatores qualificação e postura dos profissionais foram citados como promotores pelos respondentes
de ambas as empresas, haja vista a importância das pessoas no processo de alinhamento. O fator uso de
metodologia nos projetos só foi citado como promotor pela área de TI do Bompreço, que usava
fortemente essa técnica nos seus projetos, não sendo sequer citado pelos entrevistados do Wal-Mart
Brasil. Já os fatores planejamento e gestão de projetos foram comentados pelos respondentes das áreas
de TI das duas empresas como inibidores do alinhamento. Tal fato também foi percebido com o mesmo
matiz inibidor pela área de negócio do Bompreço; no entanto, as áreas de negócio do Wal-Mart Brasil
não conseguiram visualizar o fator gestão de projetos, pois as estratégias das suas áreas tinham de se
adequar à realidade dos sistemas globais do Wal-Mart e, por isso, havia poucos projetos de TI no Wal-
Mart Brasil antes da fusão com o Bompreço. Já os fatores prioridade do negócio, comunicação e
centralização da área de TI só foram citadas pelos entrevistados do Wal-Mart Brasil, que tinham
dependência dos sistemas globais e não tinham suas necessidades locais priorizadas.
Ainda no período antes da fusão, notou-se certa indefinição de posicionamento da maioria dos
fatores identificados em relação à promoção ou inibição do alinhamento, gerando o conjunto tachado
de fatores indefinidos.
De fato, detalhando os aspectos de tal indefinição percebeu-se que só os entrevistados do Bompreço
citavam os fatores: existência da autonomia da área de TI, apoio da alta administração e conhecimento
das metas, algo típico de uma empresa que tinha autonomia local maior que a empresa adquirente na
área de TI. Já o fator sinergia entre as áreas foi citado como o mais importante para garantir o
alinhamento e o fator limitação de recursos foi citado como o mais forte entrave para obtê-lo.
Finalizando a observação sobre os fatores ditos indefinidos no período antes da fusão, relata-se que só
P
R
O
M
O
T
OR
+
I
N
I
B
I
D
O
R
+ –

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os entrevistados do Wal-Mart Brasil visualizaram que havia dificuldade no tratamento das
necessidades locais.
Na próxima seção, será tratada a informação atinente ao período durante a fusão e analisados os
fatores sob duas óticas: aqueles que foram mantidos, a partir de seu surgimento antes da fusão, e os
novos fatores que surgiram no período da fusão das duas empresas.
Fatores Emergentes durante a Fusão das Empresas
Ambas as empresas concordavam que existiam fatores específicos que afetavam o alinhamento
apenas durante o processo de fusão e que estes coexistiriam com os fatores identificados antes da
fusão, doravante tratados como fatores recorrentes.
Em relação aos fatores recorrentes, apenas o fator apoio da alta administração não foi citado
novamente, talvez por já ser um pré-requisito para a realização de processos de fusão. Os demais
fatores foram citados e, mais uma vez, reagruparam-se em 7 grupos de percepções. No entanto, para os
novos grupos formados, há divergências entre o arranjo atual e aquele obtido na análise antes da fusão.
De fato, os novos arranjos mostram fatores em três grupos de maior representatividade e quatro fatores
em ambiência isolada. O primeiro grupo congrega cinco fatores (conhecimento das metas, sinergia entre
as áreas, comunicação, tratamento das necessidades locais e centralização da TI), que têm visibilidade
em todas as áreas das duas empresas. Repetem-se, em relação à Tabela 1, as percepções referentes aos
fatores comunicação, atenção às necessidades locais e centralização da tecnologia no nível da adquirente,
caracterizando-se tal fato como expansão da visão inicial para a empresa adquirida. No que concerne ao
momento antes da fusão, o fator conhecimento das metas passou a ter visão ampla, migrando de visão
apenas Bompreço para a visão Bompreço e Wal-Mart Brasil. Significativamente o fator sinergia passou
também a ser percebido pela área de TI do Wal-Mart Brasil.
O outro grande arranjo corresponde a dois grupos de percepção, cada qual com dois fatores. O
subgrupo dos fatores planejamento e postura dos profissionais e o subgrupo dos fatores qualificação
dos profissionais e autonomia da área de TI projetam rigorosamente os mesmos enfoques percebidos
no momento antes da fusão, valendo, então, a interpretação já apresentada.
Também três fatores isolados (limitação de recursos, uso de metodologia nos projetos e gestão de
projetos) mantêm rigorosamente o mesmo posicionamento do momento antes da fusão e, por fim, o
fator prioridade do negócio, que antes era visível exclusivamente pelas áreas de negócio do Wal-Mart
Brasil, agora passou a ser também visível pelas áreas de negócio do Bompreço.
A Tabela 2 incorpora os dados da Tabela 1 e sintetiza o exame feito sobre os fatores recorrentes no
processo de fusão. A simbologia adotada deixa antever, na posição mais à esquerda, a ocorrência do
fator antes da fusão, ao passo que, na posição mais à direita, se mostra o posicionamento do fator
durante o processo de fusão.
Tabela 2
Fatores Recorrentes que Afetam o Alinhamento durante a Fusão
Fatores mantidos durante fusão Bompreço Bompreço Wal-Mart Wal-Mart
(fatores recorrentes) (TI) (Negócio) (TI) (Negócio)
Conhecimento das metas 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 / 􀀹 / 􀀹
Sinergia entre as áreas 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Comunicação / 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Tratamento das necessidades locais / 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Continua
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Tabela 2 (continuação)
Fatores mantidos durante fusão Bompreço Bompreço Wal-Mart Wal-Mart
(fatores recorrentes) (TI) (Negócio) (TI) (Negócio)
Centralização da TI / 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Planejamento 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Postura dos profissionais 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Qualificação dos profissionais 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Autonomia da área de TI 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Prioridade do negócio / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Limitação de recursos 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Uso de metodologia nos projetos 􀀹 / 􀀹
Gestão de projetos 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹 􀀹 / 􀀹
Nota. Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da
informação em uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de
Pernambuco, Recife, PE, Brasil, p. 88.
Ainda, no que diz respeito ao momento durante a fusão, uma diretriz foi sondar se os entrevistados
realmente percebiam a existência de fatores específicos de alinhamento estratégico entre a tecnologia da
informação e o negócio, que só se fizessem sentir durante a ocorrência efetiva da fusão. Questionados
acerca desse ponto, três respondentes, todos do Wal-Mart Brasil (2 das áreas de negócio e 1 da área de TI)
responderam que não havia fatores específicos que afetassem o alinhamento apenas durante o processo de
fusão. Os demais pesquisados disseram que fatores específicos existiriam durante esse processo. A Tabela
3 mostra esses fatores e, mais uma vez, a intenção de análise reuniu os fatores em grupos de percepções.
Tabela 3
Fatores Específicos que Afetam o Alinhamento durante o Processo de Fusão
Fatores específicos durante a fusão Bompreço Bompreço Wal-Mart Wal-Mart
(TI) (Negócio) (TI) (Negócio)
Tratamento das mudanças 􀀹 􀀹
Criação de time de integração 􀀹 􀀹
Adaptação à nova cultura 􀀹 􀀹
Administração do tempo 􀀹 􀀹 􀀹 􀀹
Unificação dos processos 􀀹 􀀹 􀀹 􀀹
Priorização dos treinamentos 􀀹 􀀹 􀀹 􀀹
Insegurança/Incertezas das pessoas 􀀹 􀀹 􀀹
Segregação das áreas 􀀹 􀀹 􀀹
Modelo de gestão focado em resultados 􀀹 􀀹 􀀹
Experiência anterior de fusão 􀀹 􀀹 􀀹
Foco na integração 􀀹 􀀹 􀀹
Continua
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Tabela 3 (continuação)
Fatores específicos durante a fusão Bompreço Bompreço Wal-Mart Wal-Mart
(TI) (Negócio) (TI) (Negócio)
Participação/Envolvimento das pessoas 􀀹 􀀹 􀀹
Consolidação das informações 􀀹 􀀹
Adoção de padrões mundiais 􀀹 􀀹 􀀹
Adoção das melhores práticas 􀀹 􀀹 􀀹
Nota. Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da
informação em uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de
Pernambuco, Recife, PE, Brasil, p. 90.
A primeira e principal impressão é que no momento da fusão, há nítida convergência de fatores,
mesmo que ainda surjam seis grupos. Todavia, os grupos consolidação das informações, adoção de
padrões mundiais e adoção de melhores práticas são, em verdade, fatores isolados que têm como item
unificador a citação pelas áreas de negócio do Wal-Mart Brasil.
Após esta constatação, verifica-se, então, a existência de três grupos bem definidos. O grupo
majoritário com os fatores insegurança / incertezas das pessoas, segregação das áreas, modelo de
gestão focado em resultados, experiência anterior de fusão, foco na integração e participação /
envolvimento das pessoas, no qual há convergência da empresa Bompreço e presença marcante das
áreas de negócio do Wal-Mart Brasil.
O segundo grupo congrega os fatores tratamento das mudanças, criação de time de integração e
adaptação da nova cultura. Esses fatores têm a marca de serem ignorados pelo Wal-Mart Brasil, mas
estarem presentes em todas as áreas do Bompreço. Certamente vinculam-se ao processo de adaptação
empresarial.
Por fim, o grupo dos fatores administração do tempo, unificação dos processos e priorização dos
treinamentos surge como sendo fortemente percebido por todas as áreas das duas empresas. Tais
fatores configuram-se como elementos cruciais e urgentes no processo de fusão.
A partir da compilação dos conteúdos e interpretação de suas influências no contexto em estudo, os
fatores recorrentes e específicos do momento, durante o processo de fusão, puderam ser separados em
fatores promotores e inibidores do alinhamento.
Detalhamento dos Fatores Recorrentes
Comparando os posicionamentos dos fatores recorrentes em termos de promoção ou inibição do
alinhamento nos momentos antes da fusão e durante o processo de fusão, notam-se significativas
flutuações, exibidas na Figura 4, mas destaca-se que, de acordo com a percepção resgatada, nenhum
fator deixou de promover o alinhamento para inibi-lo.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 6, pp. 495-515, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
509

Qualificação dos profissionais
Prioridade do negócio
Sinergia entre as áreas
Uso de metodologia nos projetos
Gestão de Projetos
Conhecimento das metas
Postura dos profissionais
Comunicação
Tratamento das necessidades locais
Planejamento
Limitação de recursos
Autonomia da área de TI
Centralização da TI
+
P I
N
I
B
I
D
O
R
R
O
M
O
T + – O
R
Figura 4. Fatores Promotores e Inibidores – Elementos Recorrentes
Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da informação em
uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
PE, Brasil, p. 94.
A primeira diferença foi que a postura dos profissionais, que antes era citada como fator promotor do
alinhamento, agora aparece como fator inibidor. Esse deslocamento pode ser justificado pela
resistência à mudança, própria de processos de fusão.
Outro fator que migra de posição é a comunicação, o qual passa da posição de inibir o processo para
um limiar de indefinição. Essa mudança é importante, porque, pelo menos, garante o início da
implantação do novo modelo de gestão e facilita o entendimento das pessoas.
Por outro lado, os fatores sinergia entre as áreas, limitação de recursos e autonomia da área de TI,
que eram indefinidos na análise antes da fusão, agora se definiram. O fator de sinergia entre as áreas
passou a só promover o alinhamento. Tal condição parece mesmo indispensável à realização da fusão
dos processos e dos sistemas das empresas. Já os fatores limitação de recursos e autonomia da área de
TI passaram a só inibir. A explicação decorre da constatação de que passou a existir forte centralização
das decisões de TI na matriz da empresa adquirente, fora do país, além de que se ampliou, pela mesma
razão, o processo de limitação de recursos.
Os fatores prioridade do negócio e gestão de projetos deixaram de inibir o alinhamento e passaram a
promovê-lo. Essa mudança sofreu influência do aumento da prioridade do negócio do Wal-Mart no
Brasil e da realização dos projetos de integração.
Constata-se, ainda, que: (i) os fatores qualificação dos profissionais e uso de metodologia nos
projetos continuaram como promotores do alinhamento; (ii) comunicação das metas e tratamento das
necessidades locais permaneceram no limbo da indefinição; (iii) planejamento e centralização da TI
permaneceram como fatores inibidores do alinhamento.
Por fim, outro ponto a ser ressaltado em relação aos grupos de percepções é que, durante o processo
de fusão, alguns fatores passaram a ser relatados por todos os entrevistados de ambas as áreas do
Bompreço e do Wal-Mart. Essa visão afinada e global não ocorria na percepção do processo de antes
da fusão.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 6, pp. 495-515, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
Christiane Maria Leite Pereira, Jairo Simião Dornelas 510
Detalhamento dos Fatores Específicos
Evidencia-se que para os fatores específicos é muito mais nítida a segregação entre os fatores
promotores e os fatores inibidores do alinhamento entre a estratégia de TI e a estratégia empresarial.
Dos quinze fatores levantados, nove são inibidores, três indefinidos, e apenas três são considerados
fatores promotores. Ademais, a predominância de fatores inibidores é destacada. Isso já era, em parte,
esperado por causa do intenso processo de mudanças que ocorre ao mesmo tempo em todas as áreas da
nova empresa em virtude da fusão.
Também de forma previsível, as áreas do Bompreço (TI e de negócio) visualizaram, de forma bem
mais enfática, o tratamento das mudanças como inibidor do processo de alinhamento, pois a empresa
adquirida sofre muito mais impactos no processo de fusão que a empresa adquirente.
Para demonstrar quão ostensiva foi a predominância dos fatores inibidores em relação aos
promotores, sete dentre os respondentes não conseguiram perceber nenhum fator que promovesse o
alinhamento entre a estratégia de TI e a estratégia empresarial durante o período de fusão, ou seja, para
eles todas as condições decorrentes do processo de fusão inibem a busca do alinhamento. Por sua vez,
somente um entrevistado, da área de negócios da empresa adquirente, não vislumbrou nenhum aspecto
que dificultasse o alinhamento perseguido. A Figura 5 exibe a separação dos fatores taxados como
específicos.
Criação do time de integração
Modelo de gestão focado em resultados
Adoção das melhores práticas
Adoção de padrões mundiais
Adaptação da nova cultura
Experiência anterior de fusão
Administração do tempo
Insegurança/incertezas das pessoas
Unificação dos processos
Consolidação das informações
Tratamento das mudanças
Segregação das áreas
Priorização de treinamento
Foco na Integração
Participação/envolvimento das pessoas
+
I

Figura 5. Fatores Promotores e Inibidores – Específicos da Fusão
Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da informação em
uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
PE, Brasil, p. 96.
A Figura 5 denota que a inibição do alinhamento foi fortemente associada a fatores, tais como:
administração do tempo, tendo em vista que era preciso realizar a integração de processos
conjuntamente com a manutenção das atividades do dia-a-dia; insegurança e incertezas das pessoas em
função da pouca atenção dada aos aspectos relacionados aos fatores humanos; dificuldade na
unificação dos processos devido à demora na conversão de sistemas; dificuldade de consolidação das
informações pela perda no processo decisório.
Em menor escala, mas ainda com grande intensidade, foram reportados como fatores inibidores:
tratamento das mudanças e segregação das áreas, devido à existência de dois processos funcionais e
N
I
B
I
D
O
R

P
R
O
M
O
T
O
R
+
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Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
511
dois sistemas distintos sendo executados em paralelo; falta de priorização de treinamento para a
adaptação às novas realidades; foco maior na integração, fazendo com que os processos atuais fiquem
sem manutenção.
Há pouca indefinição dentre os fatores específicos, mas a adoção de padrões mundiais, a adaptação à
nova cultura e a experiência anterior de fusão podem ora inibir, ora promover o alinhamento na visão
dos respondentes de ambas as empresas.
Por fim, os fatores promotores do alinhamento foram: a criação de um time de integração com
participação de pessoas das duas empresas em todas as áreas funcionais, para ajudar na integração dos
processos e sistemas; a adoção das melhores práticas existentes, visando à sua implementação nos
sistemas globais, seja pela realização do mapeamento dos processos atuais e do levantamento das
diferenças existentes, seja dando oportunidade ao tratamento de necessidades locais; a idealização de
um modelo de gestão focado em resultados.
DISCUSSÕES
Os resultados do estudo foram obtidos considerando dois momentos: antes da fusão e no seu
desenrolar. No período antes da fusão, pessoas de ambas as empresas concordaram que existia
alinhamento entre as estratégias de TI e empresarial. Todavia, houve um elemento específico para este
caso, que se pode configurar como relevante contribuição para estudos futuros do tema alinhamento
em ambientes de fusão: a distinção de maturidade na gestão de TI entre as empresas que se fundem e
sua influência no andamento e condução do processo.
De fato, em se tratando de TI, as estruturas das empresas eram muito diferentes. Enquanto a empresa
adquirida tinha uma estrutura de TI local forte, a empresa adquirente tinha sua área de TI centralizada
na matriz, nos Estados Unidos. Havia, pois, uma diferença de suporte e de atendimento das
necessidades mediatas de TI entre a visão global e local. Isto, inevitavelmente, conduziu a diferentes
percepções quanto à promoção e inibição do alinhamento na ótica da área de TI. Este é um dado
revelado no campo e que merece ser explorado. Ou seja, investigar quais preocupações adicionais em
processos de fusão devem ser consideradas para o sucesso do alinhamento estratégico da TI e da
plataforma dos negócios, quando as empresas originais têm na esfera local diferentes níveis de
maturidade em gestão de TI e a adquirida é mais estruturada, mas será governada pelas regras da
empresa adquirente em nível global.
Outro dado marcante, que também figura como resgate da pesquisa, foi a detecção da assincronia
decorrente do planejamento isolado de áreas que deveriam convergir. Em processo de fusão, a nova
realidade gera conflito de prioridades para a gestão dos projetos e isto permite que, muitas vezes,
alguns projetos de menor retorno para a empresa fusionada (visão global) sejam priorizados em
detrimento de projetos mais importantes na visão local. Eis um dado também para ser catalogado
como elemento importante para configurar a gestão de alinhamento estratégico em empresas que estão
em processo de fusão.
Já durante a análise do período da fusão, ficou evidenciado que existiam, além de fatores gerais
(recorrentes), fatores específicos do processo de fusão. No novo conjunto de fatores, um fator inibidor
específico que mereceu destaque, foi o tratamento das mudanças, pois existiam muitos elementos
novos que precisavam ser tratados, sendo introduzidos em todas as áreas da empresa, ao mesmo
tempo.
Sabe-se que as mudanças nas empresas são tão constantes, que a teoria organizacional visualiza o
tratamento da mudança como competência crítica para o sucesso empresarial (Rockart, Earl, & Ross,
1996). Eis, então, o vislumbre pelo qual o fator tratamento da mudança deve ser priorizado na busca
do alinhamento em um processo de fusão, porquanto, se esta ação não for bem conduzida,
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 6, pp. 495-515, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
Christiane Maria Leite Pereira, Jairo Simião Dornelas 512
irremediavelmente esse fator será forte inibidor de todo o processo. Essa premissa é sustentada por
Xavier e Dornelas (2004), que afirmam que o planejamento da mudança deve defender a
transformação proposta e demonstrar suas necessidades e vantagens para gerar o envolvimento e
comprometimento das pessoas.
Também nessa direção, Hardy (1994) e Robbins (1997) argumentam que, dada a resistência que
pode ocorrer em uma estrutura transplantada, deve haver catalizadores dentro das empresas para
promover a mudança. Daí, a importância dos recursos humanos para o alinhamento entre a estratégia
de TI e a estratégia de negócios. Talvez tal foco mereça atenção redobrada, já que as pessoas, em casos
como este, ficam muito mais sensíveis, inseguras e resistentes, devido às mudanças.
Outros pontos importantes bem específicos desta fusão, merecedores de atenção, no âmbito geral, e
facilitadores do incremento do alinhamento, foram: a) a criação de times de integração em todas as
áreas funcionais da empresa e na área de TI, com o intuito de aumentar o conhecimento mútuo das
duas empresas; b) a chance que foi dada para que a necessidade local, já especificada em sistemas,
fosse incorporada aos sistemas globais, mediante a solicitação à área de TI internacional; c) a adoção
de um modelo de gestão focado em resultados.
Por outro lado, fatores que afetaram negativamente o alinhamento da estratégia de TI com a
estratégia empresarial no processo de fusão e merecem ser citados foram: a) dificuldade de
administração do tempo, tendo em vista que era preciso realizar a integração conjuntamente com o
suporte à manutenção da atividade cotidiana; b) demora na unificação de processos e sistemas, pois a
consolidação das informações, dispostas em duas plataformas distintas, não era tarefa trivial.
Ambas as dificuldades indicam que a integração dos processos e a coexistência de rotinas precisam
ser ressaltadas, pois a desatenção nesse foco provoca forte influência negativa no processo de
alinhamento estratégico em empresas que estão em processo de fusão.
Reforçam-se, ainda, como fatores inibidores bem específicos desta fusão, a centralização da área de
TI, que dificultava todo o suporte das necessidades locais, principalmente de médio e longo prazo, e a
dificuldade de comunicação pela barreira da língua.
Todavia, na vaga de fusões ou aquisições como a relatada neste caso, tais indicativos podem vir,
também eles, a merecer estudos mais detalhados como influentes no caso geral de alinhamento
estratégico.
No início do processo de fusão, seria normal, segundo a maioria dos respondentes, uma tendência à
diminuição do alinhamento. No entanto, como esta pesquisa foi realizada depois de um ano e meio do
início do processo de fusão, a opinião geral foi que o alinhamento aumentou ao longo desse tempo,
porque as pessoas já vivenciavam mais a cultura e as estratégias da nova empresa, as áreas começavam
a ser estruturadas e a mesclagem dos profissionais era cada vez maior, gerando adoção de melhores
práticas.
Por fim, é importante salientar a relação que pôde ser estabelecida entre os fatores levantados na
literatura e os fatores verificados no caso estudado. Essa relação gerou a figura 6 e nela percebe-se que
todos os fatores abordados na literatura podem ser associados a outros que emergiram do estudo,
exceto o fator falha na implementação.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 6, pp. 495-515, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
Fatores Promotores e Inibidores do Alinhamento Estratégico da Tecnologia da Informação em uma
Situação de Fusão: o Caso de uma Rede Varejista
513
Fatores da Literatura Fatores levantados na pesquisa
Apoio da Alta Gestão Apoio da Alta Administração
Participação/Liderança Participação/Envolvimento das Pessoas
Comprometimento/Postura Pró-Ativa Postura dos Profissionais
Entendimento do Negócio Qualificação dos Profissionais
Parceria/Compartilhamento/Conexão/Sincronia Sinergia entre as Áreas
Prioridade Prioridade do Negócio
Comunicação Clara Comunicação
Monitoramento/Dificuldade de Gestão Modelo de gestão focado em resultados
Inabilidade para Mudanças Tratamento das Mudanças
Falha na Implementação
Figura 6. Relação entre os Fatores da Literatura e os Fatores Levantados no Caso
Fonte: Pereira, C. M. L. (2006). Fatores promotores e inibidores do alinhamento estratégico da tecnologia da informação em
uma situação de fusão: o caso de uma rede varejista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
PE, Brasil, p. 124.
Quanto à expectativa dos respondentes no que diz respeito ao alinhamento entre a estratégia de TI e
a estratégia empresarial, após o término de todo o processo de fusão, há bons indícios de que ele será
positivo, em virtude do modelo de gestão focado em resultados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo permitiu elucidar dois momentos de um processo de alinhamento estratégico, algo ainda
pouco explorado em ambientes de fusão empresarial. Mesmo não cogitando a possibilidade de
generalizações, este estudo de caso pode subsidiar estudos futuros de alinhamento em casos de fusão
de empresas. Tais estudos poderão ocorrer em empresas do mesmo segmento, mas escolhendo casos
de fusão de empresas nacionais. Projeta-se ainda, por exemplo, que este mesmo tipo de estudo pode
ser realizado em um caso de fusão de empresas públicas, nas quais, certamente, outros fatores deverão
aparecer, em função das peculiaridades das organizações desse segmento.
O estudo possui limitações inerentes às suas técnicas, aqui reconhecidas. As principais delas foram
as especificadas a seguir.
. Não se tratar de um estudo longitudinal, em que as entrevistas se repetiriam ao longo do processo de
fusão, em momentos distintos: início, meio e fim do processo.
. Necessidade de tratamento das particularidades locais e das legislações diferentes, por se tratar da
fusão de uma empresa internacional com uma empresa nacional.
. Tratar-se de estudo de caso único, de empresa privada varejista, não propiciando ver as percepções
adicionais do mercado/segmento.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 6, pp. 495-515, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
Christiane Maria Leite Pereira, Jairo Simião Dornelas 514
Por fim, a dinâmica da pesquisa consiste em explorar terrenos ainda desconhecidos em busca de
objetivos traçados e, neste caso em particular, a meta a ser alcançada era identificar elementos
(fatores) que promovessem ou inibissem o alinhamento estratégico da tecnologia da informação com o
negócio em um caso de fusão de empresa em ambiente varejista.
Espera-se, assim, ter contribuído com o estudo para a disseminação e desenvolvimento do conceito
de alinhamento estratégico da tecnologia da informação, bem como ter ampliado o conhecimento
sobre fatores que promovem e inibem esse alinhamento, para ajudar a conquistar a tão almejada
vantagem competitiva organizacional.
Artigo recebido em 20.03.2007. Aprovado em 30.04.2009.
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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil

O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação
Interorganizacional no Brasil
The field of Studies of Inter-organizational Cooperation Networks in Brazil
Alsones Balestrin *
Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Sciences de
L’information et de La Communication pela Universidade de Poitiers/França.
Professor titular da UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.
Jorge Renato Verschoore
Doutor em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Professor da UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.
Edgar Reyes Junior
Doutorando em Administração pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos
* Endereco: Alsones Balestrin
Av. Unisinos, 950, Bairro Unisinos, São Leopoldo/RS, Brasil, 93022-000. E-mail – abalestrin@unisinos.br
Copyright © 2010 RAC. Todos os direitos, inclusive de tradução, são reservados. É permitido
citar parte de artigos sem autorização prévia desde que seja identificada a fonte.
Alsones Balestrin, Jorge Renato Verschoore, Edgar Reyes Junior 460
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo trazer maiores evidências às características do campo de estudos sobre
redes de cooperação interorganizacionais no Brasil. A pesquisa de campo foi conduzida por meio de uma análise
bibliométrica em 116 artigos publicados nos principais veículos de difusão científica na área de estudos
organizacionais, entre os anos 2000 e 2006. Os procedimentos metodológicos utilizados seguiram as orientações
do trabalho de Oliver e Ebers (1998). Entre os principais resultados, destaca-se o seguinte quinteto. (1) Quatro
teorias: estratégia, dependência de recursos, redes sociais e institucional, que consolidam a base conceitual
predominante na orientação dos estudos. (2) As pesquisas foram conduzidas, em sua grande maioria, por
abordagens qualitativas e transversais. (3) As redes horizontais (simétricas), os antecedentes de necessidade de
recursos materiais e imateriais, bem como os resultados de aprendizagem e de inovação apresentaram maior
interesse nos estudos brasileiros. (4) As teorias de estratégia, dependência de recursos, custos de transação, redes
sociais e institucional possuem a maior centralidade geodésica relativamente às demais. (5) A teoria de redes
sociais demonstrou forte centralidade de intermediação entre as teorias consideradas neste estudo.
Palavras-chave: redes; cooperação; interorganizacional; Brasil.
ABSTRACT
The aim of this article is to provide more evidence on the characteristics of the field of studies of interorganizational
cooperation networks in the Brazilian context. The field research was carried out through a
bibliometric study of 116 academic articles published in the major scientific journals in the field of
organizational studies between 2000 and 2006. The methodological procedures followed the guidelines of the
study of Oliver and Ebers (1998). The main results obtained from the bibliometric study were: (1) four theories –
strategy, resource dependence, network and institutional – consolidate a predominant conceptual base in the
orientation of the studies; (2) the research was mainly carried out by qualitative and cross sectional methods; (3)
horizontal networks, material and immaterial antecedent resources, as well as the learning and innovation
outcomes, were the main focus of the studies in the Brazilian context; (4) the theories of strategy, resource
dependence, transaction, social network and institutional costs are considerably over-represented with regard to
their Bonacich centrality; (5) the network theory had a strong level of betweenness centrality among the many
theories considered in this study.
Key words: cooperation; networks; inter-organizational; Brazil.
RAC, Curitiba, v. 14, n. 3, art. 4, pp. 458-477, Mai./Jun. 2010 http://www.anpad.org.br/rac
O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil 461
INTRODUÇÃO
O mundo ainda não vive o apogeu da sociedade em rede, descrita por Castells (1999); mas alguns
fatos recentes demonstram sua ascensão. Em nenhum outro momento a cooperação e as redes
receberam tanto interesse quanto atualmente. Livros de grande vendagem, que tratam das
transformações econômicas e do mundo dos negócios, são enfáticos em destacar a capacidade de
colaboração e da estruturação em rede como condições fundamentais para o êxito organizacional
(Anderson, 2006; Benkler, 2007; Friedman, 2005; Gladwell, 2002; Prahalad & Ramaswamy, 2004;
Surowiecki, 2006; Tapscott & Williams, 2007). A revista Forbes reconheceu, no final de 2007, a
importância das redes na economia contemporânea, publicando uma edição especial para aprofundar o
tema (Post, 2007), enquanto o Fórum Econômico Mundial definiu o poder da inovação colaborativa
como tema central do encontro de 2008. Tais fatos evidenciam que a colaboração em rede, aos poucos,
se insere nas principais correntes do campo econômico-organizacional.
Paralelamente, no contexto acadêmico de estudos organizacionais, observa-se que o tema relativo às
redes de cooperação entre organizações tem evoluído constantemente desde a década de 1990. Alguns
dos mais importantes periódicos científicos internacionais já realizaram edições especiais dedicadas às
redes, como é o caso da revista Organization Studies (1998) e do Academy of Management Journal
(2004). Mais recentemente, em 2007, a revista International Management abriu uma chamada de
artigos para uma edição especial sobre redes com ênfase na internacionalização (Business networks:
an international management perspective).
Da mesma forma, eventos científicos internacionais despertam a atenção pela relevância concedida
ao tema das redes no contexto organizacional, como é o caso da Association Internationale de
Management Stratégique [AIMS], que é um dos principais eventos sobre estratégia no campo
francófono e que teve como tema central as relações interorganizacionais (Relations
Interorganisationnelles) em sua 15ª edição, ocorrida em Genebra, no ano de 2006. Outro exemplo é a
chamada de artigos para o congresso da Academy of International Business [AIB], que ocorreu em
2008, na cidade de Milão, apresentando como tema geral o desenvolvimento de conhecimento nas
redes de negócios internacionais (Knowledge development and exchange in international business
networks). Destaca-se também um dos principais eventos europeus sobre estudos organizacionais,
promovido pelo European Group for Organizational Studies [EGOS], que em mais de uma década
apresenta uma subárea dedicada às pesquisas das redes organizacionais (Organizational network
research). Por fim, ressalta-se um evento específico sobre redes de cooperação interorganizacional,
denominado Multi-Organizational Partnerships, Alliances and Networks [MOPAN], cuja 15ª edição
ocorreu em 2008 em Boston; portanto, no contexto internacional, há inequívoco interesse sobre as
redes de cooperação interorganizacional.
Na esfera acadêmica brasileira, ocorre fenômeno semelhante, embora os estudos sobre redes de
cooperação interorganizacional sejam mais recentes. Somente nos últimos anos é que se tem
observado um aumento na quantidade e na qualidade das pesquisas e das publicações que enfocam o
tema. Contudo esse rápido crescimento já foi capaz de estabelecer um campo estruturado de estudos
no Brasil. Destacam-se, entre outros, os três eventos científicos realizados em 2006, que tiveram o
tema redes de cooperação interorganizacional em seu eixo de centralidade. O primeiro foi o XXIV
Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, realizado pela Associação Nacional dos Programas de
Pós-Graduação em Administração [ANPAD], cujo tema foi ‘Inovação em redes e redes de inovação’.
O segundo foi o XVI Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas,
realizado pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores
[ANPROTEC], cujo tema foi ‘Redes institucionais promovendo o empreendedorismo inovador’. O
terceiro foi o II Cooperação Brasil, realizado em Porto Alegre, que contou com mais de mil
participantes e teve a apresentação de palestras, artigos e casos nacionais e internacionais sobre as
redes de cooperação. Em 2008, o Encontro de Estudos Organizacionais [EnEO], promovido pela
ANPAD, definiu as ‘Redes e relacionamentos intra e interorganizacionais’ como um de seus temas de
interesse. Além dos eventos, as principais revistas científicas brasileiras no campo dos estudos
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organizacionais também têm publicado algumas dezenas de artigos sobre o assunto, como foi o caso
da edição especial da Revista de Administração de Empresas [RAE-FGV] (Bertero, 2006), com o tema
‘Redes sociais e interorganizacionais’.
Nesse contexto, a problemática que se coloca aos pesquisadores e interessados no assunto é
compreender a dimensão e as características do campo de estudos sobre redes de cooperação
interorganizacional no Brasil. Entre tantas questões relevantes que surgem, algumas podem ser
destacadas. Quais são as instituições de pesquisas mais envolvidas com o tema? O campo de estudos é
diversificado ou não? Existem perspectivas teóricas dominantes? Quais metodologias costumam ser
adotadas? Em face dessas questões, o presente trabalho tem como objetivo trazer maiores evidências
do campo de estudos sobre redes de cooperação no Brasil.
Para alcançar tais resultados, o artigo está estruturado da seguinte forma: primeiramente, são
aprofundados os aspectos conceituais sobre redes de cooperação interorganizacional, em direção às
principais abordagens epistemológicas e metodológicas utilizadas nas pesquisas; na sequência,
apresenta-se uma síntese da metodologia utilizada, com vistas a seguir os procedimentos e os
instrumentos utilizados por Amália Oliver e Mark Ebers (1998), em um artigo seminal no campo de
estudos sobre redes de cooperação no cenário internacional; a seguir, analisam-se os resultados e, no
final, destacam-se algumas considerações sobre as implicações e as limitações do estudo.
O CAMPO DE ESTUDO SOBRE REDES DE COOPERAÇÃO ENTRE ORGANIZAÇÕES
A cooperação entre organizações com o objetivo de obter soluções coletivas tem recebido crescente
atenção nos estudos e práticas organizacionais nas últimas três décadas (Nohria & Eccles, 1992). O
propósito central das redes de cooperação no campo organizacional é reunir atributos que permitam
uma adequação ao ambiente competitivo em uma estrutura dinâmica, sustentada por ações
uniformizadas, porém descentralizadas, que possibilite ganhos de escala da união, mas que evite que
as empresas envolvidas percam a flexibilidade do porte enxuto (Thompson, 2003). De acordo com
Miles e Snow (1986), as redes despontaram a partir dos anos 1980, principalmente para que as
empresas conseguissem lidar com o amplo conjunto de exigências competitivas que a virada de século
apontava.
As redes de cooperação têm a capacidade de facilitar a realização de ações conjuntas e a transação
de recursos para alcançar objetivos organizacionais. Podem ser definidas como o conjunto de
transações repetidas e sustentadas por configurações relacionais e estruturais dotadas de fronteiras
dinâmicas e elementos interconectados (Todeva, 2006). As redes de cooperação constituem, portanto,
um fenômeno presente da teoria organizacional e, por isso, têm sido reiteradamente estudadas a partir
de diferentes abordagens teóricas (Grandori & Soda, 1995). Tal interdisciplinaridade de contribuições
também foi evidenciada por Oliver e Ebers (1998) e Brass, Galaskiewicz, Greve e Tsai (2004), ao
apresentarem as principais correntes teóricas, utilizadas nas pesquisas, sobre redes de cooperação entre
organizações, destacando-se: a economia industrial, a abordagem de dependência de recursos, a teoria
de redes sociais, as teorias críticas, a teoria institucional, a teoria dos custos de transação e a
abordagem de estratégias organizacionais.
A abordagem da economia industrial é utilizada nas pesquisas sobre redes para permitir que se
entenda como os diferentes ganhos econômicos de produção – economias de escala, de escopo e de
especialização – explicam a eficiência das redes. Por exemplo, o ganho de especialização tem sido
indicado como relevante fator para explicar por que uma rede de empresas pode ser mais eficiente do
que uma firma integrada (verticalizada) na produção de certo bem (Eccles, 1981). O ganho de escala
tem papel relevante no acesso a recursos, na provisão conjunta de serviços ou no suporte de
investimentos em P&D (Turati, 1990). Já o ganho de escopo pode ser a base de formação de acordos
que visam à utilização colaborativa de equipamentos e know-how (Teece, 1980). A perspectiva da
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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil 463
economia industrial assume que as redes podem apresentar uma eficiência superior ao modelo
tradicional da grande empresa verticalizada.
A teoria sobre dependência de recursos é outra abordagem utilizada nos estudos sobre redes de
cooperação. Seu foco de interesse é entender o processo por meio do qual as organizações reduzem
suas dependências ambientais, utilizando várias estratégias para aumentar seu próprio poder. Essa
teoria distingue entre tipos de dependência de recursos, materiais ou imateriais, como possíveis
determinantes na formação de redes. Nesse sentido, cabe destacar o trabalho de Pfeffer e Salancik
(1978), que revisa algumas das principais formas de redes de cooperação e outros tipos de redes
sociais. Na ótica da dependência de recursos, as empresas organizam-se em redes, a fim de
compartilhar ou acessar recursos escassos.
A teoria sobre redes sociais (social networks) é utilizada para estudar como os laços sociais entre os
atores de determinada rede poderão afetar o desempenho da empresa. Em seu trabalho, Burt (1992)
procurou especificar como diferentes posições dentro de uma rede de relacionamentos afetam as
oportunidades dos atores. Por exemplo, o posicionamento de um ator na rede, representado pelo
número de inter-relações com outros atores, poderá reforçar as relações de poder diante dos atores
marginais da rede. Em outras contribuições, autores como Granovetter (1981) destacam que uma das
questões clássicas da teoria social é como os comportamentos e as instituições são afetados pelas
relações sociais. Este autor analisa, sobretudo, até que ponto a ação econômica está imersa nas
estruturas das relações sociais no âmbito da moderna sociedade industrial (Granovetter, 2007).
As teorias críticas são utilizadas para entender, sob a ótica do poder e da dominação, como as
relações são estabelecidas numa estrutura em rede. Para elas, a estratégia em rede não é justificada por
nenhuma noção de eficiência ou efetividade, e sim pelo mecanismo de poder para a reprodução de
elites e de classes dominantes (Whitt, 1980). A maior parte dos trabalhos nessa direção tem sido
conduzida no campo da sociologia, como o trabalho de Perucci e Potter (1989). Segundo o debate
dessas teorias, existe ampla manipulação, por parte de alguns atores, nas relações em redes. Essa
manipulação ocorre especialmente nos casos em que existe visível assimetria de poder dos agentes que
participam da rede.
A teoria institucional trata da dependência como do conceito central na configuração das redes; no
entanto a dependência não é de recursos materiais, e sim de legitimação. Segundo esse enfoque, as
organizações buscam ganhar legitimidade no momento de participar de uma rede. Esses estudos
analisam os mecanismos institucionais pelos quais as relações interorganizacionais são iniciadas,
negociadas, desenhadas, coordenadas, monitoradas, adaptadas e terminadas. Cabe destacar o trabalho
de DiMaggio e Powell (1983) sobre os diversos tipos de inter-relações formais e informais como
modo de evitar o isolamento e alcançar legitimidade no ambiente institucional. Pela ótica da teoria
institucional, se uma empresa ingressa em rede composta por empresas renomadas, poderá obter como
resultado indireto o reconhecimento de ser uma empresa idônea e operar com os padrões de qualidade
dos demais parceiros.
As teorias sobre estratégia foram utilizadas para entender como a cooperação e as relações
interorganizacionais podem gerar impacto na competitividade das empresas. As teorizações abordam,
mais especificamente, o conceito de estratégia colaborativa e emergiram com maior vigor a partir da
década de 80. Os estudos de Astley (1984) e de Astley e Fombrun (1983) foram fundamentais para
consolidar este conceito no campo organizacional. A maior contribuição desses estudos está na
compreensão de que as estratégias das empresas não precisam limitar-se aos relacionamentos
competitivos no ambiente, havendo inúmeras possibilidades para o desenvolvimento de ações
colaborativas de curta e longa duração. A partir dessa idéia, a resposta ao determinismo ambiental da
perspectiva de competição individual ocorre pela readequação do conceito de estratégia, em termos da
mobilização coletiva de ações e de recursos orientados ao alcance de objetivos comuns entre parceiros
empresariais, conforme tem sido argumentado em diversos trabalhos (Dyer & Singh, 1998; Gulati,
Nohria, & Zaheer, 2000; Jarillo, 1993). Pela perspectiva da estratégia, a configuração em rede tem-se
apresentado como eficiente meio para alcançar os objetivos coletivos das empresas associadas.
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Essas abordagens teóricas ofereceram múltiplas contribuições aos estudos sobre redes de
cooperação, colaborando para o seu melhor entendimento. Evidentemente, outras teorias, como a
ecologia populacional, a teoria evolucionária e a teoria contingencial, entre outras, também fornecem
elementos para a análise e conhecimento do fenômeno. A variedade das abordagens teóricas foi um
dos ingredientes que ajudou a produzir explicações complementares e por vezes concorrentes no
campo de estudos sobre redes de cooperação, pelo fato de adotarem diferentes paradigmas de leitura
da realidade estudada. Isso explica, em parte, as diferentes definições e entendimentos do conceito de
rede de cooperação, utilizados na economia, na sociologia, na administração e na ciência política.
Outro fator de complexidade no campo de estudos das redes refere-se ao nível de análise em que as
redes podem ser estudadas. Brass et al. (2004) argumentam que uma rede de cooperação
interorganizacional é composta de no mínimo três níveis: os indivíduos que fazem parte de grupos, os
grupos que fazem parte de organizações e as organizações que fazem parte da rede. Logo, dependendo
do foco de análise do pesquisador, os resultados e a compreensão da dinâmica da rede poderão ser
diferentes. Já para Todeva (2006) o grau de complexidade poderá variar em função de três tipos de
dimensões que normalmente são estudadas em uma rede: o ator, a relação (elo) e a rede como um
todo. Oliver e Ebers (1998) destacam que muitos estudos apresentam outros três níveis como foco de
análise: os antecedentes (motivações que levam a formação da rede), o processo (gestão e coordenação
da rede) e os resultados (ganhos das redes). Diante dessa diversidade de olhares, cabe ressaltar que as
várias abordagens teóricas e metodológicas que analisam as redes em suas características e níveis
devem ser tratadas como salutares em face da complexidade do fenômeno, pois fortalecem a
capacidade de compreensão e de consolidação desse tema no campo de estudos organizacionais.
METODOLOGIA DA PESQUISA
A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliométrica e teve como base os procedimentos adotados
por Oliver e Ebers (1998). Tal estudo analisou 158 artigos, publicados entre 1980 e 1996, em quatro
das principais revistas científicas internacionais ligadas ao tema (American Sociological Review,
Administrative Science Quarterly, Academy of Management Journal e Organizations Studies).
Adotando-se os mesmos procedimentos para o contexto brasileiro, o trabalho foi realizado no decorrer
do segundo semestre de 2007 e envolveu cinco etapas de desenvolvimento.
1ª Etapa – Delimitação do escopo de análise. Primeiramente foram definidas as publicações, em
cujos artigos se faria a seleção. Para tanto elegeram-se os principais veículos de difusão científica na
área de estudos organizacionais no Brasil. Optou-se em delimitar as publicações segundo a
classificação da Capes – Qualis, 2001-2003, na área de Administração, Ciências Contábeis e
Turismo. Tal critério resultou na escolha de cinco revistas: Revista de Administração [RAUSP],
Revista de Administração de Empresas [ERA], Revista Organização e Sociedade [O&S], Revista de
Administração Contemporânea [RAC] e Revista Eletrônica de Administração [REAd] − e uma
publicação de evento (Anais do Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em
Administração [ENANPAD]). Para a delimitação do período histórico de análise, foram consideradas
as publicações desde o ano 2000 ao ano 2006. Foi a partir desse período que se percebeu a emergência
e o crescente interesse desse tema no campo de estudos organizacionais do Brasil.
2ª Etapa – Seleção dos artigos. Seguindo as orientações de Oliver e Ebers (1998), a seleção dos artigos
para a análise bibliométrica foi realizada a partir da definição de palavras-chave que deveriam estar
presentes no título ou no resumo do artigo. Considerando que o conceito de redes de cooperação
interorganizacional é, muitas vezes, tratado por termos análogos, procedeu-se à definição de algumas
palavras-chave para a seleção dos artigos, entre as quais: redes, cooperação, interorganizacional,
interfirmas, alianças, parcerias, colaboração e consórcios. Essa pré-seleção com palavras-chave, realizada
diretamente nas bases das publicações, resultou em uma pré-seleção de 143 artigos. Em uma fase seguinte,
refinou-se a amostra, excluindo os artigos referentes a redes interorganizacionais, conforme critério de
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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil 465
Oliver e Ebers (1998). Essa etapa foi conduzida integralmente pelos pesquisadores e, no final, foram
selecionados 132 artigos como amostra para os procedimentos de análise.
Cabe salientar que os critérios de escolha das revistas, bem como a delimitação das palavras-chave
para selecionar os artigos, poderão provocar vieses nos resultados deste estudo. Tal fato também foi
destacado por Oliver e Ebers (1998), devendo o leitor relativizar as evidências e estar ciente de que,
caso as palavras-chave ou as publicações fossem outras, possivelmente os resultados da análise
bibliométrica seriam influenciados.
3ª Etapa – Instrumento de coleta dos dados. O artigo de Oliver e Ebers (1998) traz uma tabela
com 77 variáveis, subdivididas em sete dimensões, utilizadas no instrumento de análise dos artigos.
Dessa forma, os artigos foram avaliados segundo o elenco seguinte.
1) A teoria utilizada para o estudo das redes: estratégia, dependência de recursos, redes sociais,
institucional, custos de transação, organização industrial, contingencial, ecologia populacional,
tomada de decisão, evolucionária, poder político, estruturalismo, trocas (exchange theory),
agência, barganha (bargaining theory), marketing industrial e leis trabalhistas (labour law).
2) O método utilizado nas pesquisas sobre redes: empírico, transversal, qualitativo, quantitativo e
longitudinal.
3) O tipo de laço relacional entre os atores: múltiplo, diádico, horizontal, vertical, social, contratual,
político e proprietário.
4) O nível de análise: regional ou setorial, grupos de organizações, organização, institucional, grupos
de indivíduos e individual.
5) Os antecedentes que levaram à formação da rede: acesso a recursos imateriais, acesso a recursos
materiais, congruência de objetivos, existência prévia de confiança, posição já exercida por um
ator na rede, dependência de recursos, restrições ou pressões do mercado, escassez de recursos,
ação de exercer oportunismo sobre outros atores na rede, ação de mitigar conflito existente, busca
de estabilidade, especificidade de ativos e densidade organizacional (proximidade geográfica).
6) O processo de funcionamento da rede: motivação e intenção (forma como os objetivos são
perseguidos nas redes); aprendizado, seleção natural (influência de fatores ambientais); imitação
(replicação de decisões entre os atores); e hábito (reprodução de padrões ou comportamentos).
7) Os resultados da cooperação em rede: aprendizagem, sucesso no alcance dos objetivos, inovação,
aumento de confiança, redução de custo, estabilidade, poder (barganha), maior similaridade entre os
atores, conflito, capacidade de difusão de um determinado fenômeno, legitimidade, participação
política, tamanho, compromisso, retorno, maior centralidade, oportunismo, prevalência, persistência,
melhor capacidade de decisão entre comprar ou produzir, ascensão, extinção e maior densidade.
No instrumento de pesquisa, essas variáveis foram colocadas em uma tabela e concebidas para
assumir valor dicotômico, ou seja, o valor 1 para a existência no artigo e o valor 0 para a nãoexistência.
Destaca-se ainda que mais de uma variável poderia ser escolhida para a mesma dimensão
de análise, conforme características do artigo analisado. Nessa etapa, os pesquisadores conduziram a
tradução do instrumento (do original em inglês para o português). De modo complementar ao
instrumento original, foram incluídas duas novas variáveis: nome e afiliação institucional
(universidade) dos autores no momento da publicação. Essas duas variáveis foram úteis para a
identificação de grupos e instituições de pesquisa nos quais estão sendo conduzidas as pesquisa sobre
redes no contexto brasileiro.
4ª Etapa – Aplicação do instrumento de coleta de dados. Foi aplicado o instrumento de coleta de
dados na amostra de 132 artigos. Essa fase contou com a colaboração dos alunos de Mestrado em
Administração que, após terem estudado em profundidade o artigo de Oliver e Ebers (1998) e tomado
conhecimento dos critérios de análise, auxiliaram na aplicação do instrumento de coleta de dados na
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amostra de artigos. Como procedimento final de validação da classificação dos artigos, foi realizado
um seminário, em que cada um dos integrantes da equipe da pesquisa apresentou seus resultados e
possíveis dúvidas, as quais foram esclarecidas em conjunto. No final, depois de aplicados todos os
procedimentos concernentes a essa etapa, foram excluídos da amostra outros 16 artigos, por não se
encaixarem no tema ou por apresentarem elevada ambiguidade em face das dimensões de análise.
Como resultado, restaram 116 artigos válidos para serem processados na etapa seguinte da pesquisa.
5ª Etapa – Análise dos resultados. A principal característica da pesquisa realizada por Oliver e
Ebers (1998) foi o tratamento dos dados por meio da análise de redes (network analysis). Assim, cada
artigo foi considerado um ator dentro da rede de 116 artigos que constituem a amostra dos estudos
sobre redes de cooperação interorganizacional no Brasil. Para o tratamento dos dados, foram utilizados
os softwares UCINET 6.171 e Netdraw 2.065. Esses recursos permitiram multiplicar a matriz original
retangular (77 variáveis por 116 artigos) por sua transposição (116 artigos por 77 variáveis),
resultando a matriz simétrica de 77 variáveis por 77 variáveis, denominada matriz de afiliação. O
mesmo procedimento foi empregado para analisar a afiliação institucional dos autores das publicações.
Novamente, uma matriz de afiliação de instituições foi gerada, a partir da matriz retangular original de
116 artigos, com 59 instituições nacionais e estrangeiras.
A análise de redes, efetuada nos artigos brasileiros, acompanhou o trabalho de Oliver e Ebers
(1998), sendo calculadas a frequência e as medidas de centralidade para cada uma das 77 variáveis.
Para determinar e comparar a centralidade dos conceitos abordados foram utilizadas duas medidas: a
centralidade geodésica e a centralidade de intermediação.
A centralidade geodésica (Eigenvector ou Bonacich Centrality) permite identificar os atores mais
centrais, em termos de estrutura geral da rede, na qual a centralidade de um ator é igual à soma das suas
conexões com outros atores, ponderada pelo grau de centralidade desses outros atores (Bonacich, 1987).
Quanto maior a centralidade geodésica de um ator, maior poder ele deterá, porque terá contato com atores
distribuídos por toda a rede (Wasserman & Faust, 1994). A centralidade de intermediação (Betweenness),
na qual se mede o grau em que a variável focada se situa como elo entre outras variáveis que não estão
diretamente conectadas (Freeman, 1979). Tal medida indica que a interação dos atores não adjacentes pode
depender de outros, potencialmente susceptíveis de ter algum controle sobre estas interações. Essas duas
medidas indicam os conceitos que têm sido centrais na investigação de redes de cooperação
interorganizacional e a capacidade que, por exemplo, uma teoria tem de conectar duas teorias.
Paralelamente, na análise das instituições às quais os autores dos artigos analisados estão afiliados,
foi utilizada a centralidade de grau (degree), que aponta o número de laços diretos que uma das
variáveis possui com as outras variáveis que formam a rede (Wasserman & Faust, 1994). Na pesquisa,
essa análise foi necessária para identificar o número de artigos produzidos em colaboração entre
autores de diferentes instituições.
RESULTADOS DA PESQUISA
Os dados analisados na pesquisa bibliométrica do campo de estudos em redes de cooperação
interorganizacional no Brasil demonstram que, tal como ocorre no contexto internacional, há crescente
interesse pelo tema no cenário brasileiro de estudos organizacionais. A partir da análise dos dados, foi
possível identificar o estabelecimento de um debate acadêmico permanente sobre o papel das redes de
cooperação no desenvolvimento das organizações e da sociedade. De forma recorrente, as revistas e os
eventos científicos na área da administração têm publicado trabalhos que abordam o fenômeno,
incentivando a curiosidade dos leitores e promovendo a aproximação de outros pesquisadores. Na próxima
seção será analisada a dimensão do campo de estudos sobre redes de cooperação interorganizacional no
Brasil, além de um paralelo com o trabalho de Oliver e Ebers (1998) que, para fins de comparação nesta
pesquisa, será definido como o contexto internacional de estudos sobre redes.
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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil 467
Compreendendo o Campo de Estudos sobre Redes Interorganizacionais no Brasil
Uma primeira categoria de análise dos resultados (Tabela 1) visa a ressaltar as principais teorias
orientadoras dos estudos sobre redes de cooperação no Brasil. Nesse aspecto, os resultados estão alinhados
com o contexto da pesquisa internacional. Dentre as cinco teorias utilizadas com maior frequência, quatro
foram igualmente identificadas no trabalho de Oliver e Ebers (1998): estratégia; dependência de recursos,
redes sociais e teoria institucional. No entanto destaca-se a marcante presença da teoria de estratégia na
amostragem dos artigos brasileiros. Essa teoria teve 47,41% de frequência nos artigos analisados, enquanto
no estudo de Oliver e Ebers (1998) esteve presente em 15,8% dos artigos.
Algo que chama a atenção é a elevada frequência da abordagem sobre estratégia nos estudos
brasileiros. Ao analisar as publicações, observa-se uma tendência dos estudos em compreender as
redes mais como estratégia das organizações para competirem do que, propriamente, como
características inerentes a esse novo fenômeno. Ao tratar das redes como de estratégia, ou meio, para a
empresa alcançar seus fins, muitos estudos se apropriam de alguns conceitos clássicos do campo da
estratégia, associados, sobretudo, à competitividade e ao desempenho organizacional. Por outro lado,
os resultados da pesquisa internacional identificaram que os artigos buscavam, principalmente, o
entendimento de aspectos sociais e organizacionais da nova configuração formada pela rede.
Tabela 1
Freqüência das Variáveis na Amostra de Artigos Analisada
TEORIAS n % ANTECEDENTES n %
Estratégia 55 47,41% Recursos imateriais 45 38,79%
Dependência de recursos 35 30,17% Congruência de objetivos 44 37,93%
Redes sociais 33 28,45% Recursos materiais 34 29,31%
Institucional 32 27,59% Confiança 24 20,69%
Custos de transação 32 27,59% Posição na rede 23 19,83%
Organização industrial 21 18,10% Dependência 21 18,10%
Contingencial 12 10,34% Pressões do mercado 18 15,52%
Ecologia populacional 11 9,48% Escassez de recursos 15 12,93%
Tomada de decisão 10 8,62% Oportunismo 15 12,93%
Evolucionária 9 7,76% Conflito 14 12,07%
Poder político 8 6,90% Estabilidade 6 5,17%
Estruturalismo 8 6,90% Especificidade de ativos 6 5,17%
Trocas 7 6,03% Densidade organizacional 5 4,31%
Agência 7 6,03%
Barganha 6 5,17% PROCESSOS n %
Marketing industrial 3 2,59% Motivação e intenção 70 60,34%
Leis trabalhistas 1 0,86% Aprendizado 46 39,66%
Seleção 14 12,07%
Imitação 14 12,07%
Hábito 4 3,45%
Continua
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Tabela 1 (continuação)
LAÇO RELACIONAL n % RESULTADOS n %
Múltiplo 35 42,20% Aprendizagem 54 46,55%
Horizontal 26 31,30% Sucesso 50 43,10%
Social 21 25,30% Inovação 44 37,93%
Diádico 15 18,10% Confiança 30 25,86%
Vertical 15 18,10% Custo/preço 25 21,55%
Contratual 14 16,90% Estabilidade 17 14,66%
Político 13 15,70% Poder/controle 15 12,93%
Proprietário 5 6,00% Similaridade 11 9,48%
Conflito 11 9,48%
Difusão 10 8,62%
MÉTODO n % Legitimidade 10 8,62%
Empírico 92 79,31% Participação política 9 7,76%
Transversal 88 75,86% Tamanho 9 7,76%
Qualitativo 69 59,48% Comprometimento 8 6,90%
Quantitativo 27 23,28% Receita 8 6,90%
Longitudinal 5 4,31% Centralidade 8 6,90%
Oportunismo 8 6,90%
Prevalência 4 3,45%
NÍVEL DE ANÁLISE n % Persistência 4 3,45%
Grupos de organizações 62 53,45% Produzir ou comprar 4 3,45%
Organizacional 40 34,48% Ascensão 3 2,59%
Regional ou setorial 25 21,55% Extinção 2 1,72%
Institucional 10 8,62% Densidade 2 1,72%
Grupos de indivíduos 9 7,76%
Individual 6 5,17%
No entanto deve-se considerar que nas quatro revistas selecionadas por Oliver e Ebers (1998)
encontra-se a American Sociological Review e a Organizations Studies, que utilizam abordagens mais
voltadas aos aspectos sociais e organizacionais, como, por exemplo, redes sociais, poder político,
teoria institucional, entre outros conceitos ligados à governança. Tal fato promove um possível viés
em relação aos resultados encontrados nos estudos brasileiros, selecionados a partir de periódicos e
eventos voltados mais à área da Administração.
Referente ao tipo de laço relacional entre as organizações que estiverem no foco das pesquisas
brasileiras, observa-se que a maioria dos estudos enfoca os laços múltiplos em proporção maior do que
os laços diádicos. Outro resultado relevante é que as pesquisas no Brasil focalizam mais intensamente
as redes horizontais, formadas por organizações de um mesmo elo da cadeia produtiva, do que as redes
verticais, que agrupam organizações em diferentes posições na cadeia. Uma explicação para esse
achado é o surgimento de grande número de redes associativas de pequenas e médias empresas na
região sul Brasil, que acabaram transformando-se em objeto de estudo pelas instituições acadêmicas
locais (Balestrin & Verschoore, 2008).
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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil 469
Quanto ao nível de análise, há outro significativo contraste entre as pesquisas brasileiras e
internacionais. No Brasil, mais da metade dos trabalhos analisados estudam as questões ligadas ao
grupo de organizações, ou seja, a rede de cooperação em si. Os artigos da amostra de Oliver e Ebers
(1998), por sua vez, abordaram sobretudo as questões relativas à organização que está associada à
rede. No caso brasileiro, a explicação para o foco no estudo da rede em si pode estar associado ao fato
de o fenômeno das redes ser recente, o que leva o pesquisador a buscar o entendimento inicial quanto
aos antecedentes, aos processos e aos resultados da existência da rede; só após, ele busca o
entendimento dos ganhos alcançados pelas empresas associadas.
Em relação aos antecedentes que levaram à formação das redes de cooperação interorganizacional,
estudadas no Brasil, há evidente predominância da necessidade de acesso a recursos materiais e imateriais,
além da congruência de objetivos. Paralelamente, motivação e intenção foi a variável de processo mais
estudada pelos pesquisadores brasileiros. Essa evidência indica que 60,34% dos estudos que focaram o
entendimento do processo de funcionamento das redes buscaram a compreensão das motivações e
intenções de decisões e ações de seus atores na busca dos objetivos coletivos. Em ambos os casos,
antecedentes e processo, há consonância com os resultados encontrados no contexto internacional. Em tal
estudo, os recursos materiais e imateriais também estavam entre os principais antecedentes, como, no
Brasil, a mesma variável de processo apareceu em 60% dos trabalhos analisados.
O mesmo alinhamento não ocorre em relação às dimensões referentes ao método de pesquisa
adotado e aos resultados obtidos pelas redes. De acordo com os dados apresentados na Tabela 1, o
contexto brasileiro caracteriza-se por estudos empíricos predominantemente qualitativos (59,48%),
fato que leva os estudos quantitativos a ocuparem uma parcela reduzida da amostra (23,28%). Nas
publicações internacionais, analisadas por Oliver e Ebers (1998), observa-se uma relação inversa, isto
é, os estudos quantitativos representam 74,7% da amostra e os qualitativos apenas 29,7%.
O elevado índice de estudos qualitativos no Brasil, somado ao pequeno número de estudos
longitudinais (4,31%), pode ser resultado, pelo menos, de dois fatores: (1) a maioria das publicações está
associada à pesquisa exploratória, podendo indicar que os estudos sobre o tema, no contexto brasileiro,
se encontram ainda incipientes, principalmente ao serem comparados com as pesquisas internacionais,
que surgiram com forte interesse ainda no final da década de 80; (2) seguir uma tendência dos estudos
organizacionais brasileiros, conforme Rodrigues e Carrieri (2001) aproximadamente 70% das
publicações na década de 90 correspondem a estudos qualitativos, salientando: “assim como os franceses
… os brasileiros também preferem as metodologias qualitativas” (Rodrigues & Carrieri, 2001, p. 93).
No que se refere à dimensão dos resultados, há clara predominância das variáveis aprendizagem,
sucesso e inovação. Quase metade dos estudos analisou os ganhos de aprendizagem e cerca de 38%
deles analisaram os ganhos relacionados à inovação. Considerando que essas duas variáveis juntas
obtiveram uma frequência não superior a 19% na amostra de Oliver e Ebers (1998), sugerem-se, no
mínimo, três possíveis explicações para tamanha diferença entre os dois estudos: (1) devido ao viés
provocado pela amostra de Oliver e Ebers (1998), uma das quatro revistas analisadas está mais voltada
a questões sociológicas das redes; (2) devido à diferença histórica entre as amostras de artigos, no caso
brasileiro, superior em dez anos à amostragem do contexto internacional, pode ter ocorrido maior
preocupação, na última década, com os temas de inovação e de aprendizagem no contexto das redes;
(3) devido à possível tendência dos pesquisadores brasileiros em dar maior ênfase à análise de
resultados como inovação, aprendizagem e sucesso nas redes, em detrimento de questões ligadas ao
poder e ao conflito, com vistas a uma análise mais crítica dos resultados das redes de cooperação
interorganizacional.
Aspectos Relacionais das Teorias, dos Antecedentes e dos Resultados
Uma segunda categoria de análise dos resultados englobou a identificação dos graus de centralidade
entre as teorias utilizadas para os estudos sobre redes de cooperação. Para tanto gerou-se uma matriz
com as 17 abordagens teóricas. O objetivo da matriz foi identificar que teorias são mais ou menos
centrais no campo de estudos brasileiros, bem como de que forma as diversas teorias estão
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relacionadas umas às outras. A Tabela 2 apresenta os valores de frequência e de centralidade para cada
uma das 17 teorias, ordenando-as de acordo com a sua centralidade geodésica.
Tabela 2
Freqüência, Centralidade Geodésica e Centralidade de Intermediação das Teorias
TEORIAS Freqüência Centralidade Geodésica Centralidade de Intermediação
Estratégia 47,41% 0,615 6,643
Dependência de recursos 30,17% 0,413 6,643
Custo de transação 27,59% 0,353 5,626
Redes sociais 28,45% 0,339 7,257
Institucional 27,59% 0,313 3,560
Organização industrial 18,10% 0,222 4,967
Contingencial 10,34% 0,133 1,752
Ecologia populacional 9,48% 0,110 2,254
Evolucionária 7,76% 0,093 1,414
Tomada de decisão 8,62% 0,076 1,085
Agência 6,03% 0,074 0,286
Barganha 5,17% 0,065 0,000
Troca 6,03% 0,062 0,292
Estruturalismo 6,90% 0,061 1,621
Poder político 6,90% 0,054 0,236
Lei trabalhista 0,89% 0,016 0,000
Marketing industrial 2,59% 0,012 0,365
Observa-se que as cinco teorias mais frequentes nos estudos são também as mais centrais em termos
geodésicos, apresentando-se na seguinte ordem: estratégia, dependência de recursos, custos de transação,
redes sociais e institucional. No caso do estudo de Oliver e Ebers (1998), três teorias empregadas com
maior frequência foram também as mais centrais na seguinte ordem: dependência de recursos, redes
sociais e poder político. Ressalta-se que a teoria de poder político apresentou menor relevância no
contexto brasileiro, ficando em décima quinta posição, em termos de centralidade geodésica.
Em relação à centralidade de intermediação das teorias, isto é, o grau em que a teoria empregada se situa
como elo entre outras teorias que não estão diretamente conectadas entre si, os resultados demonstram as
características distintivas do contexto brasileiro. Neste, redes sociais é a teoria que possui o grau mais
elevado de centralidade de intermediação (7,257), demonstrando a maior capacidade aglutinadora entre as
diversas linhas teóricas. O mesmo não ocorre no contexto internacional, no qual a teoria de redes sociais
possui alta centralidade geodésica, mas baixa capacidade de articulação entre teorias não-conectadas,
demonstrando um dos menores graus de centralidade de intermediação (1,76).
No contexto brasileiro, alguns pontos de análise chamam a atenção. Por exemplo, a teoria
institucional é empregada tão freqüentemente quanto a teoria de custos de transação; porém a analise
dos resultados mostrou que suas conexões com outras teorias não têm a mesma força, ou seja,
observou-se que a teoria dos custos de transação demonstrou maior capacidade de intermediar ou
conectar outras teorias nas pesquisas sobre redes interorganizacionais.
Uma terceira categoria de análise nesta pesquisa procurou identificar se os graus de centralidade seriam
alterados, se fossem analisados simultaneamente as seguintes dimensões: teorias, antecedentes e resultados
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obtidos pelas redes. A Tabela 3 apresenta os resultados dessa análise, apresentando os graus de centralidade
geodésica e de intermediação dessas dimensões. Conforme as evidências, pode-se afirmar que, no contexto
brasileiro, a predominância das cinco teorias mais centrais permaneceu inalterada. Tais resultados estão
alinhados com o estudo de Oliver e Ebers (1998), no qual as quatro principais teorias, analisadas
individualmente, não se alteram em face da análise integrada com antecedentes e resultados.
A Tabela 3 permite a análise da centralidade geodésica dos antecedentes e dos resultados das redes.
Em termos de antecedentes, identificou-se a maior centralidade da congruência de objetivos, ou seja,
confirmam-se os postulados de que os objetivos comuns são os motivadores centrais da formação de
redes de cooperação (Castells, 1999; Brass et al., 2004). Quanto aos resultados obtidos pelas redes, a
tríade composta por sucesso, aprendizagem e inovação se destaca amplamente na análise do grau de
centralidade, demonstrando que, além de indicarem maior freqüência, também são os mais centrais
entre o conjunto dos ganhos proporcionados pelas redes.
Tabela 3
Centralidade Geodésica e de Intermediação para Teorias, Antecedentes e Resultados
TEORIAS Centralidade
Geodésica
Centralidade de
Intermediação RESULTADOS Centralidade
Geodésica
Centralidade de
Intermediação
Estratégia 0,317 24,293 Aprendizagem 0,332 19,771
Dep. de recursos 0,234 12,065 Sucesso 0,323 27,038
Custo transação 0,201 12,834 Inovação 0,264 17,648
Redes sociais 0,199 15,304 Confiança 0,197 9,670
Institucional 0,191 15,582 Custo/preço 0,159 7,863
Org. Industrial 0,118 15,713 Estabilidade 0,115 8,301
Contingência 0,076 4,067 Poder/ controle 0,070 5,972
Ecologia populacional 0,064 8,421 Comprometimento 0,066 4,972
Evolucionária 0,053 7,578 Difusão 0,063 4,393
Trocas 0,050 1,631 Conflito 0,063 5,235
Tomada de decisão 0,049 8,443 Similaridade 0,058 5,790
Agência 0,044 2,175 Tamanho 0,051 9,741
Poder político 0,033 1,931 Receita 0,046 2,931
Estruturalismo 0,033 3,498 Legitimidade 0,045 3,284
Barganha 0,033 0,819 Partic. política 0,043 3,486
Mkt. Industrial 0,012 0,558 Centralidade 0,041 7,120
Leis trabalhistas 0,008 0,000 Oportunismo 0,040 3,025
ANTECEDENTES Persistência 0,027 1,010
Congruência de objetivos 0,282 19,207 Prevalência 0,019 0,138
Rec. Imateriais 0,281 8,796 Produzir ou comprar 0,015 0,489
Rec. materiais 0,224 15,071 Ascensão 0,013 0,749
Confiança 0,145 9,763 Densidade 0,010 0,073
Posição na rede 0,127 11,460 Extinção 0,009 0,173
Dependência 0,120 15,877
Contração de mercado 0,114 11,523
Recursos 0,109 9,331 Média 0,102 7,736
Oportunismo 0,074 11,460 Desvio padrão 0,092 6,503
Conflito 0,066 7,506 Índice de centralidade 38.40% 26,35%
Estabilidade 0,040 1,474
Densidade 0,028 3,113
Especificidade de ativos 0,027 2,304
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Uma quarta categoria de análise procurou verificar as alterações na centralidade de intermediação,
ao analisar simultaneamente as teorias, os antecedentes e os resultados. A Tabela 3 apresenta os graus
da centralidade de intermediação desses três níveis conjuntamente. As evidências indicam ocorrerem
alterações de posições em relação à frequência e à centralidade de intermediação, mesmo que a
variável estratégia se mantenha como teoria central.
Nesse ponto, novamente há consonância com os resultados obtidos pela pesquisa de Oliver e Ebers
(1998), visto que, no contexto internacional, as teorias ecologia populacional e custos de transação,
geodesicamente pouco centrais, assumiram os dois principais postos, em termos de centralidade de
intermediação. No contexto brasileiro, os resultados demonstraram que as teorias de organização
industrial e institucional, quando analisadas em conjunto com antecedentes e resultados, assumem
papel central na intermediação entre teorias não-conectadas. Uma explicação para o elevado grau de
centralidade de intermediação dessas teorias é a existência de uma série de estudos sobre redes e
relações de cooperação em distritos industriais e arranjos produtivos locais.
Os dados apresentados na Tabela 3 também possibilitam analisar a centralidade de intermediação
dos antecedentes e dos resultados das redes. Nesse aspecto, pode-se observar que nos estudos
brasileiros a variável de resultado sucesso possui o maior grau de centralidade de intermediação
(27,038). Essa evidência está demonstrando que o sucesso, representado pela capacidade de a rede
alcançar seus objetivos, não foi somente estudado de forma individual, mas também esteve presente,
com forte poder de intermediação, em boa parte das pesquisas que estudaram os demais resultados das
redes interorganizacionais. Já no que se refere às pesquisas dos antecedentes, que levaram a formação
de redes, os dados da Tabela 3 indicam que a congruência de objetivos, ou seja, a existência de
objetivos comuns entre os diversos atores foi a variável com maior centralidade de intermediação
(19,207). Dessa forma, pode-se inferir que a congruência de objetivos, além de aparecer nas pesquisas
com elevada frequência, também demonstrou elevado nível de conexão com os demais antecedentes
da formação de redes.
Os resultados alcançados na análise dos artigos podem estar associados às diversas configurações
que os grupos de pesquisa sobre redes interorganizacionais estabelecem no Brasil. Assim, será
apresentado, a seguir, uma síntese da configuração relacional das instituições em que a produção
científica brasileira sobre o tema vem sendo desenvolvida.
Configuração Institucional das Publicações sobre Redes de Cooperação no Brasil
No contexto da presente pesquisa, procurou-se inicialmente analisar a distribuição geográfica das
publicações sobre redes de cooperação interorganizacional no contexto brasileiro, com vistas a
identificar as instituições de origem dos autores no momento da publicação de seus artigos. Os
resultados indicaram que um total de 274 autores, de 59 instituições, pertencentes a 13 Estados
brasileiros, além de instituições de Portugal, França, Espanha e Estados Unidos, foram responsáveis
pelas 116 publicações analisadas. Os resultados sinalizam um razoável nível de distribuição das
pesquisas sobre o tema, ou seja, não se trata de fenômeno de interesse isolado no âmbito dos estudos
organizacionais. Os resultados indicam que as instituições UFRGS, UNISINOS, UFBA, UFSM, UFRJ
e USP tiveram destaque nos aspectos quantitativos das publicações (Tabela 4).
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Tabela 4
Instituições, Frequências, Centralidades de Grau e Geodésica das Publicações
Instituições Frequência Centr.
de grau
Centr.
geodésica Instituições Frequência Centr.
de grau
Centr.
geodésica
UFRGS 41 12,069 67,004 UNICENP/PR 2 1,724 0,000
UNISINOS 28 8,621 55,296 UNIFACS/BA 2 1,724 0,000
UFBA 11 3,448 0,000 UNIFOR/CE 2 0,000 0,000
UFSM/RS 11 3,448 35,956 UPF/RS 2 1,724 19,699
UFRJ 10 10,345 48,118 UPMF/FR 2 1,724 19,699
USP/SP 10 0,000 0,000 ENESP/SP 2 1,724 0,000
FGV/RJ 9 5,172 0,000 UFC/CE 2 1,724 0,000
PUC/RJ 9 1,724 0,000 PUC/PR 2 0,000 0,000
UFMG 8 5,172 24,595 PUC/RS 2 1,724 19,699
POITIER/FR 8 3,448 35,956 UFPB 2 1,724 0,000
UFPR 7 1,724 0,000 FBV/PE 2 1,724 0,000
UNICAMP/SP 7 5,172 41,600 UFRN 2 1,724 0,000
FDC/MG 7 6,897 28,309 USP – RP/SP 2 0,000 0,000
UFLA/MG 7 5,172 22,131 UEM/PR 1 0,000 0,000
UNB/DF 5 3,448 23,734 FIC/CE 1 0,000 0,000
ESPM/SP 5 3,448 11,789 UEM-UEL/SP 1 0,000 0,000
PUC/SP 5 3,448 11,789 IBMEC/SP 1 0,000 0,000
UFSC 4 5,172 25,433 IESAM/AM 1 1,724 0,000
UFSCar/SP 4 3,448 0,000 FUMEC/MG 1 0,000 0,000
UNIVALE/SC 4 1,724 0,000 UFRN 1 0,000 0,000
JAUME I/ES 4 1,724 0,000 UFU/MG 1 0,000 0,000
PUC/MG 4 1,724 6,507 UFV/MG 1 0,000 0,000
UFPE 4 1,724 7,231 UM/POR 1 0,000 0,000
FGV-SP 4 1,724 0,000 UNESA/RJ 1 0,000 0,000
FACC/RJ 3 3,448 26,377 UNIMEP/SP 1 0,000 0,000
UFCG/PB 3 1,724 7,477 UNINOVE/SP 1 0,000 0,000
SEBRAE/MG 3 3,448 20,653 MACKENZIE/SP 1 0,000 0,000
UECE/CE 3 1,724 0,000 MICHIGAN/ EUA 1 0,000 0,000
UNESPTUPÃ/
SP 2 1,724 0,000 NOTRE
DAME/EUA 1 0,000 0,000
UNICAP/PE 2 1,724 0,000 – – – –
Uma das explicações pela expressiva liderança da UFRGS pode residir no fato de que, no ano 2000,
ter sido constituído, no Programa de Pós-Graduação em Administração, um grupo de mestrandos,
doutorandos e professores com interesse no estudo das redes de cooperação empresariais. O grupo,
informalmente constituído, implementou uma série de pesquisas, sob diferentes abordagens teóricas,
buscando melhor compreensão do fenômeno organizacional das redes na economia gaúcha. Além de
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artigos em eventos e periódicos, o grupo organizou uma coletânea de casos, publicada no livro ‘Redes
de Cooperação: uma nova organização de pequenas e médias empresas no Rio Grande do Sul’, editado
pela Fundação de Economia e Estatística do Estado do Rio Grande do Sul [FEE], em 2004.
Na análise institucional, objetivou-se identificar o nível relacional entre os autores das instituições,
identificando, assim, possíveis laços relacionais que unem duas ou mais instituições nas publicações,
bem como o nível de centralidade dessas instituições nos estudos sobre redes de cooperação. Para isso
gerou-se uma matriz dos 116 artigos com as 59 instituições. Para tal análise, foram consideradas
somente 39 instituições, por apresentarem artigos publicados em conjunto com uma ou mais
instituições. Nesse aspecto, salienta-se que algumas instituições, como a USP, por exemplo, mesmo
tendo apresentado elevado volume de publicações, não aparecem no mapa relacional (Figura 1) devido
ao fato de não constar nenhum autor pertencente a outras instituições nos artigos publicados.
F
Figura 1. Mapa Relacional das Instituições
UFPE PUC/SP
ESPM/SP
FDC/MG
UFM
UFPB
UFC/C FGV/SP
UECE/CE
SEBRAE/MG PUC/MG
UFRJ UFLA/M FACC/RJ
UNICAMP/SP
UNIVALI/SC
UFPR
PUC/RJ UNICENP/PR
UNESP
UFSCar/SP
FGV/RJ
UFRN/RN
UFBA/BA
UNIFACS/BA
UNESP-TUPÃ/SP
UFRGS
PUC/RS
UPF/RS UPMF/FR
UFSM/RS
UNISINOS/RS
POITIERS/FR
UFSC/SC
UNB/DF
FBV/PE
UFCG/PB
UNICAP/PE JAUME I/ES
Observa-se que três instituições apresentaram grau de centralidade elevado, entre elas a UFRGS
(12,069), a UFRJ (10,345) e a UNISINOS (8,621). Isso indica que as publicações dessas instituições
são, em sua maioria, realizadas em conjunto com autores de outras instituições. Cabe salientar que,
pela diversidade de relações estabelecidas, a UFRJ, por exemplo, com seus 10 artigos publicados,
apresente maior grau de centralidade em comparação com a UNISINOS, que publicou um total de 28
artigos. Tal resultado pode ser devido ao fato de estar alocado na UFRJ o grupo de estudos
REDESIST, um núcleo de pesquisas sobre relações de cooperação em arranjos produtivos, que reúne
pesquisadores de diversas instituições.
Outro resultado relevante é o volume de publicações associadas a três universidades gaúchas
(UFRGS, UNISINOS e UFSM). Uma inferência para esse resultado é o fato de elas estarem
engajadas, desde o ano 2000, no desenvolvimento do Programa Redes de Cooperação, fruto de uma
política pública do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que atualmente conta com mais de 200
redes de cooperação formadas. A parceria dessas instituições no desenvolvimento do Programa,
associada à existência de volume e variedade de casos empíricos, proporcionou um campo de pesquisa
distinto, que chamou a atenção dos pesquisadores, mestrandos e doutorandos para a realização de uma
série de estudos com o foco no fenômeno das redes de cooperação entre organizações.
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O Campo de Estudo sobre Redes de Cooperação Interorganizacional no Brasil 475
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De acordo com os resultados dessa análise bibliométrica, foi possível identificar que, entre o ano
2000 até 2006, mais de uma centena de trabalhos sobre redes de cooperação interorganizacional foi
publicada no Brasil. A pesquisa levou em consideração somente os anais do ENANPAD e outras seis
das principais revistas científicas na área de administração. Se fossem considerados outros eventos e
revistas científicas em áreas como a Sociologia e Economia, esse número seria ainda maior. Os
resultados sinalizam a preocupação da comunidade acadêmica brasileira para o desenvolvimento de
estudos e pesquisas sobre a temática das redes de cooperação, fortalecendo e difundindo novos
conceitos para o aprofundamento das teorias de gestão e, sobretudo, para melhor formação dos
administradores e aprimoramento das práticas de gestão organizacional.
Mais especificamente, em relação aos resultados da análise dos artigos, é possível chegar às
seguintes conclusões para os estudos sobre redes de cooperação interorganizacional no contexto
brasileiro: (1) as teorias de estratégia, dependência de recursos, redes sociais e institucional formam
uma base conceitual predominante na orientação dos estudos; (2) as pesquisas são conduzidas, em sua
grande maioria, por abordagens qualitativas e transversais; (3) as redes horizontais (simétricas),
formadas por múltiplas organizações de um mesmo elo da cadeia produtiva, são o principal interesse
das pesquisas; (4) os antecedentes que levaram a formação das redes de cooperação com maior
destaque nos estudos foram a necessidade de acesso a recursos materiais e imateriais, além da
congruência de objetivos; (5) a aprendizagem, o sucesso e a inovação foram os resultados ou ganhos
proporcionados pelas redes de cooperação com maior interesse nos estudos brasileiros; (6) as teorias
de estratégia, dependência de recursos, custos de transação, redes sociais e institucional foram as mais
centrais (centralidade geodésica) nos estudos; (7) a teoria de redes sociais demonstrou forte
capacidade aglutinadora entre as diversas perspectivas teóricas, apresentando o mais elevado grau de
centralidade de intermediação; (8) as instituições UFRGS, UNISINOS, UFBA, UFSM, UFRJ e USP
tiveram destaque nos aspectos quantitativos de publicações, em face de outras 59 instituições que
também publicaram sobre o tema; (9) as instituições UFRGS, UFRJ e UNISINOS apresentaram
elevada centralidade, indicando que as publicações dessas instituições são, em sua maioria, realizadas
em conjunto com autores de outras universidades.
Destaca-se que os resultados e as conclusões não devem ser tomados como absolutos, pois existiram
certas limitações no contexto da pesquisa. A primeira limitação refere-se ao viés das publicações
escolhidas para a seleção dos artigos, conforme já mencionado: se a seleção tivesse incluído outras
revistas e eventos científicos, os resultados poderiam ser alterados. A segunda envolve a dificuldade
dos pesquisadores no momento da avaliação e da classificação dos artigos, uma vez que, mesmo
utilizando elevado rigor metodológico, sabe-se que tal limitação está presente em pesquisas dessa
natureza.
Por fim, deve-se ressaltar que as pesquisas sobre redes de cooperação interorganizacional estão em
crescente importância na pauta dos estudos organizacionais brasileiros, o que pode decorrer de dois
fatores: o primeiro é a sintonia da comunidade acadêmica brasileira com as teorizações
contemporâneas sobre estudos organizacionais, entendendo-se que ela é altamente afetada pela
dinâmica de relações colaborativas e relacionais que a empresa venha a estabelecer; o segundo é a
expressiva dimensão econômica e social que a formação de redes de empresas vem apresentando no
Brasil, em especial para o fortalecimento e o desenvolvimento de pequenas e médias empresas. Tais
considerações devem servir de estímulo aos interessados no tema, em sua busca constante da
compreensão do fenômeno das redes de cooperação, e contribuir para a ampliação do escopo dos
estudos organizacionais no contexto brasileiro.
Artigo recebido em 01.05.2008. Aprovado em 03.07.2009.
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REFERÊNCIAS
Academy of Management Journal. (2004). 47(6).
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